terça-feira, 22 de setembro de 2015

O requintado e saboroso Bolo de Chocolate de Carminha


Lendas Escoteiras.
O requintado e saboroso Bolo de Chocolate de Carminha

                    Carminha era Lobinha, com seus dez anos sabia que ficaria pouco tempo na Alcatéia. Logo seria escoteira. Quem a visse diria que ela poderia ter 12 ou 13 anos. Tinha os cabelos negros, crespos, olhos castanhos e um porte firme, sempre com um sorriso nos lábios. Uma simpatia! Amava sua Alcatéia Sambhur (animal forte, elefante ou um grande tigre ou touros selvagens). Era uma alcatéia nova, fora fundada há oito anos. A alcatéia estava agora com 12 lobinhos e 10 lobinhas. Carminha era chamada carinhosamente na sua matilha cinzenta de Raksha.  Quando entrou fizeram o Grande Uivo em sua homenagem. Ela achou aquilo o máximo. Ali mesmo no seu pensamento, jurou que nunca mais iria sair do escotismo. Ela adorava as reuniões. Cada uma diferente da outra. Os jogos então eram sua paixão, mas logo descobriu que poderia crescer e ter muitos distintivos colocados em sua camisa.

                Agora Carminha estava diante de um grande dilema. Enorme mesmo. As duas coisas que ela mais gostava na sua vida de lobinha. O Acantonamento anual do Distrito, onde centenas de lobinhos e lobinhas estariam reunidos e a festa de aniversário de Isabel, sua prima. Sem contar é claro o delicioso Bolo de Chocolate que sua tia fazia com um sorriso no rosto. Como era gostoso! Delicioso. Um sabor sem igual. Carminha esperava todos os anos só para admirar a feitura e depois sentar calmamente, olhar seu “pedaço” e ir saboreando cada colher. E agora para sua infelicidade, as duas coisas iam acontecer ao mesmo tempo. Ela estava com a maior indecisão em sua vida. O que fazer? A noite ajoelhou aos pés da cama e pediu a Deus para lhe mostrar o caminho. Mas qual caminho? Ela queria ir ao acantonamento e também estar no aniversário de sua prima e o bolo... Ah o bolo!

                   Eça sabia que seria uma decisão difícil de Quem um dia quando criança não se sentiu assim? Uma dúvida atroz, cruel para elas, desumana. Mario Quintana escreveu que só as crianças e os velhos conhecem a volúpia de viver dia-a-dia, hora a hora, e suas esperas e desejos nunca se estendem além de cinco minutos..., não sei se concordo com ele. Dizem ainda que as crianças acham tudo em nada e os homens não acham nada em tudo! Aquele sábado de reunião foi um tormento para Carminha. Logo após a cerimônia de bandeira, ela se esqueceu das palavras que devia ser dita no Grande Uivo. A Akelá a escolheu para responder – melhor, melhor, melhor e melhor? Sim, melhor, melhor, e melhor! E ela nada. Seu pensamento estava no Bolo de Chocolate e no acantonamento. Todos ficaram intrigados, Carminha sempre era a mais alegre, mais participante e parecia estar nas nuvens. A Kaá fez um jogo de abertura já conhecido e que Carminha adorava. A Baratinha e o inseticida e Carminha parecia flutuar em nuvens e não prestou atenção ao jogo.

                      Quanto Hathi contou uma parte da história de Mowgly Trégua das Águas, foi que prestou um pouco mais de atenção. Dizia Hathi: - A Lei da Jângal – que é a mais velha lei do mundo, atende a quase todos os acidentes que possam acontecer para o Povo da Jângal. Código mais perfeito, o tempo e os costumes nunca fizeram. Mowgly vez por outra ficava impaciente com as constantes recomendações de baloo, o urso pardo, que sempre lhe dizia: - “Esta é a lei que vigora em nossa selva e que é antiga como o céu” Como o cipó envolve a árvore, a Lei do Lobinho envolve a todos nós. E depois que tiveres vivido tanto quanto eu, irmãozinho, verás que todos os filhos da Jângal obedecem ao menos uma lei, e não vai ser um acontecimento agradável de ver. Essa lição entrou por um ouvido e saiu pelo outro, porque o menino nunca tinha passado problema sério. Hathi continuou contando e desta vez Carminha prestava muita atenção.

       Carminha no final da reunião se aconselhou com a Akelá. A resposta não ajudou muito. Se quer um bolo de chocolate ou quer ir ao acantonamento, o melhor é o segundo Em casa falou com sua mãe e esta não se mostrou muito interessada no tema. Carminha estava decepcionada. O que fazer? Como agir? Sonhou muito com os dois fatos. Não havia como fugir. Ela tinha de ir ao acantonamento. Afinal sua vida também fazia parte da Alcatéia. Ela não poderia decepcionar sua matilha cinzenta. Sabia que a lembrança do Bolo de Chocolate nunca seria esquecida. Quando chegaram ao sítio o Balu fez o jogo do labirinto, (trançou-se entre as arvores um sisal esticado a um metro de altura e cada lobo de olhos vendados teria que percorrer o labirinto). Comeram em seguida um lanche e foram introduzidas no tema da atividade. A primeira etapa da disputa (história de Mowgly), a segunda (Caçada aos amuletos perdidos) e foram para o almoço. Carminha não esquecia seu bolo de chocolate.

      O acantonamento foi formidável. Tirou sua Insígnia Mundial de Conservacionismo, À tarde foram tomar banho na cascata. Carminha conheceu Rodrigo, um lobinho da matilha azul, de outra alcatéia do distrito e ficaram grandes amigos. Carminha contou seu problema e Rodrigo entendeu perfeitamente. Solidarizou-se com ela em tudo. Após o jantar, Carminha viu que sua alcatéia fora chamada sem a presença das outras e ela não soube o porquê. A Akelá a chamou em particular e pediu para ela ir à cozinha e pegar uma colher Carminha foi correndo. Ela era sempre assim. Disseram uma vez que o lobinho não anda, voa! E ela levava isso a sério. Mal chegou à cozinha e lá estavam sua mãe, sua tia, sua prima Beatriz e mais outras dez amigas de Carminha. Uma enorme surpresa. Sua tia disse – Carminha, vamos agora fazer o bolo de chocolate e você vai me ajudar!

      A vida nos reserva tantas surpresas, coisas que a gente jamais imagina que vai acontecer. Ajudar a preparar e comer o Bolo de Chocolate junto a amigos da Alcatéia com sua família e sua tia, claro também com a Prima Beatriz era um sonho. Foi um aniversário que ficou para sempre na lembrança de Carminha. Nunca esqueceu aquele dia e o Bolo de Chocolate. Como era gostoso! E ali naquele acantonamento ele tinha um sabor todo especial. Cantaram os parabéns, a Alcatéia se refastelou com o bolo de chocolate. Correu e abraçou sua prima Beatriz. - Amo você minha prima, seja feliz como eu estou sendo agora. E as duas ficaram ali abraçadas por um bom tempo. Não muito, pois era hora de Carminha comer seu pedaço de Bolo de Chocolate. O segundo do dia.


                 O escotismo é isto. Sonhos se tornando realidade. Amor retribuído em surpresas e amizades. A cada dia, a cada reunião, ou acampamento vamos recebendo passagens maravilhosas que ficam marcadas em nosso coração. Carminha viveu o escotismo intensamente. Cada um de nós vivemos mais que uma ilusão no escotismo. Ela mais jovem e eu um pouco mais Velho sabemos que temos orgulho em participar, viver, amar, sonhar, e acreditar que nosso movimento nos traz tudo àquilo que alguém pode pensar em ter. Não sei, mas acho que o escotismo é minha vida ou quem sabe minha vida é ser escoteiro!

domingo, 20 de setembro de 2015

O passo do elefantinho. (uma história para lobinhos)


Lendas escoteiras
O passo do elefantinho.
(uma história para lobinhos)

“O circo chegou à cidade,
É tempo de pensar no que se viu
Montaram uma tenda bem grande,
“Uma tenda do tamanho do Brasil”!

             Interessante. A vida da gente é sempre cheia de surpresas e quando nos lembramos das boas damos um enorme sorriso. Estava eu absorto e escrevendo quando começou a tocar “O Passo do Elefantinho” com a orquestra de Henry Mancini (Baby Elephant Walk, escrito em 1961 por este compositor para o filme Hatari). Adoro esta música principalmente porque ela me faz lembrar-se de Rafaella, uma lobinha morena, sete anos, miudinha e sempre de fisionomia séria. Dificilmente sorria para alguém. Nunca faltou uma reunião e mesmo doente chorava para ir. Uma vez chorou tanto que seus pais com sua charrete (não tinham carro) a levaram agasalhada e enrolada em uma manta para a sede. E quem disse que adiantou a Akelá, o Balu ou a Kaa falar com ela? Necas! Ficou lá sentada em uma cadeira só olhando e sem sorrir!

           O Circo dos Palhaços Impossíveis estava na cidade. Naquela época eles armavam sua tenda não sem antes fazer um desfile apoteótico. Ficavam em um terreno plano as margens da Estrada do Fim do Mundo. Chamavam-na assim porque era esburacada, pontes caídas, assaltantes enfim, era mesmo um fim de mundo. Não se chegava a lugar algum. Nem bem o circo chegou e um carro de som saiu às ruas anunciando as atrações. Atrás do carro dezenas de palhaços, equilibristas, artistas e animais exóticos. A rua se enchia de gente e nas janelas apinhavam-se todos. A meninada vibrava correndo atrás e muitos davam plantão junto ao circo na sua montagem para ver o movimento. A maioria dos jovens do Grupo Escoteiro Olavo Bilac estava lá. Boquiabertos. Vendo aquela parafernália sendo montada. Os pais sorriam de contentes, pois pelos menos os filhos tinham aonde ir e os sonhos das molecagens agora tinham uma pausa.

             Rafaella viu o desfile. Não sorriu, mas quando o elefante passou com a Rainha de Sabá sentada em seu dorso seus olhos brilharam. Sua mãe e seu pai não notaram seu súbito interesse. Eles mesmos achavam estranho por ela não sorrir. Eram pessoas humildes sem posses consultas a médicos especialistas estava fora de cogitação. Chefe Noravinio em reunião dos chefes do grupo sugeriu que o grupo todo fosse completo em um espetáculo. Era época de férias e poderiam combinar com o dono do Circo para que a escoteirada pagasse menos. Dito e feito. O Senhor Wiener Neustadt proprietário do circo (exigia que fosse chamado de Arquiduque Maximiliano, pois era trineto do próprio. Discutir para que?) – No seu vozeirão cheio de improvisações em português falou alto: - Sexta, às dezesseis horas. O circo vai apresentar um espetáculo especial para os Escoteiros falou. Uma gentileza de Arquiduque Maximiliano. E nunca se esqueçam disto! Não irão pagar nada!

            Uma festa. Mais de cento e quarenta membros. Grupo grande. Junto outros tantos de familiares e penetras aproveitando a “boca livre”. Duas horas todos na porta. Uniformizados é claro. Rafaella rondava o circo. Viu a jaula dos animais e próximo o elefante. Tentou aproximar. Não deixaram. O espetáculo começou. Uma bandinha, o apresentador – Respeitável publico! Seguiu os artistas, equilibristas, mágicos, saltimbancos e os animais. O brilho e a beleza do colorido dava asas a imaginação e a fantasia dos escoteiros. Eram levados para um mundo diferente. Um mundo de sonhos, das alegrias e os palhaços? Incríveis! A escoteirada pulava de alegria. Mas Rafaella só olhava. Não sorria. Um elefante adentrou na arena. Junto um menino vestido de indiano com um turbante azul. O elefante o seguia. Rafaella ficou de pé. Sorriu! Rafaella sorria! Ninguém a viu sorrindo, acho que só eu.

               Ninguém prestava atenção em ninguém. Naquela hora só a arena e os espetáculos de sonhos, de azuis, amarelos, vermelhos e de mil cores que estavam sendo visto pelos escoteiros. Só viram Rafaella na Arena. Susto! Gritaram – Rafaella volte! Ela não ouvia ninguém. Foi até o elefante. O tocou na tromba. O elefante olhou para ela. Ajoelhou-se e sentou com as patas dianteiras. Pegou-a com a tromba e bramindo a jogou no ar pegando-a novamente. Rafaella dava gargalhadas e a escoteirada acompanhou. Seu Arquiduque Maximiliano veio correndo. Mas o elefante levantando a colocou em seu dorso e ficava em pé sempre segurando Rafaella com a trompa.

                O adestrador de animais conseguiu retirar Rafaella de lá, mas ela gritava para não sair. Na arquibancada ela parou de rir. Ninguém entendeu nada. Rafaella sorrateiramente pulou por baixo da arquibancada, passou por baixo da lona e quando procuraram por ela foram encontrar junto ao elefante atrás do circo e dando risadas. Interessante que o elefante gostava dela. O circo ficou na cidade nove dias. Embarcaram em um trem da Leopoldina rumo à outra cidade. Rafaella sumiu. Cidade pasmada! Impossível diziam. Aqui não tem disso. Procuras mil. Rafaella tinha entrado no vagão do elefante como clandestina. Descobriram quando chegaram a Nuvem Azul. Seu Arquiduque Maximiliano passou um telegrama para buscá-la. Interessante. Rafaella voltou a sorrir. Quando voltou a Alcatéia foi recebida como a heroína de aventuras. Palmas e abraços. Valeu Rafaella. Um dia não há vi mais. Soube que seus pais foram morar em uma fazenda de um parente que morreu. Quem sabe lá junto à natureza ela não esteja sorrindo junto a um Lobo Guará cinzento e brincando pelas campinas verdejantes? Rafaella, um sonho de menina. Uma lobinha que soube fazer sua própria aventura.


Ai, o circo vem aí, quem chora tem que rir,
Com tanta palhaçada, tem hindu que come fogo,
Faquir que come prego, mulher que engole espada!

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Do mundo nada se leva.


Lendas Escoteiras.
Do mundo nada se leva.

                           Na pequena clareira uma fogueira apagada. Nem brasas havia mais. A lua esquecera-se que ele estava ali e se escondeu em uma montanha distante. As estrelas no céu desistiram de tentar alegrá-lo e ficaram paradas no céu sem brilhar. Ele não tinha forças para ao menos colocar mais um galho seco, soprar e quem sabe o calor do fogo poderia ajudar a amainar sua imensa dor. Uma dor cruel, uma perda que marcou seu coração para sempre. Chorar? Sim, ele chorou muito. Chorou quando soube, pensou em se matar em suas exéquias, sentiu a vida se esvair nos meses que ficou só sem ter ela sorrindo ao seu lado como sempre fazia. Os amigos escoteiros tentaram consolar. Palavras bonitas surgiram e ele sabia que seu coração estava morto. Não ligava. Porque falar do artigo da lei? O que sabem da dor de uma perda de alguém que nunca mais vai voltar? Sorrir? Para que sorrir se nunca mais ela estará junto a ele? Preferia estar morto e não se matou por que acreditava em Deus.

          O vento soprava uma leve e a brisa e a noite caia mansamente. Ele não sentia frio e nem calor, seu corpo embruteceu-se nas suas necessidades mais simples. Chorava e por dentro gritava para si que precisava esquecer se não ficaria louco. Os tempos das alegrias se fora. Há tempos não acampava mais com a tropa. Não tinha motivos mesmo porque parou de frequentar as reuniões. Seus Escoteiros o procuraram, mas só viam lágrimas nos seus olhos. Sentia-se bem acampando sozinho. Sem vozes, sem alguém com sua piedade que não o satisfazia. A dor vinha mais forte ele sabia, mas pelo menos a natureza poderia lhe trazer a calma que ele precisava. Durante o dia tentava fazer uma pioneiria para passar o tempo. Mesmo a fome não era tanta ele pouco ligava para ela. Pescara sim bons peixes que apodreceram na mesa rustica da cozinha que construiu. Ele gostava das noites sombrias. Nem ligava para a lua, para as estrelas e esquecera completamente o encanto do nascer e do por do sol.

                 Nunca esqueceu o dia quando a viu pela primeira vez. A chuva caia torrencial e ela brincava na chuva cantando e dançado com uma alegria tal que a encantou para sempre. Quem era ela? Não importava ele sabia que era assim do nada que surgia um grande amor. Ele sempre acreditou que os Escoteiros são fortes, sabem pular uma dificuldade e sabem sorrir. Quem sabe ele pensou que era um deles e nunca foi? Era sua reunião terminar e ele corria apressado a dar os avisos aos monitores e partia célere para encontrar-se com ela. Hã! Rosamaria... O nome de uma rosa, a rainha das flores e Maria mãe de Jesus que diziam ter uma beleza sem igual. Passeavam de mãos dadas, viviam sorrindo um para o outro, iam a mil lugares e ele nunca a tocou a não ser roçar seus lábios vermelhos molhados como o néctar perfumado. Ele gostava do cheiro dela. Gostava do seu modo de sorrir de olhar...

                      Seu casamento foi inesquecível. Para ele o melhor dia de sua vida. A escoteirada sorrindo, brincando com seus bastões sobre suas cabeças, cantando o Rataplã e palmas escoteiras repaginando as folhas do livro da história que nunca existiu. Quando ele e ela ficaram sós ele não sabia o que fazer. Ela estava linda em uma camisola branca como sua pele clara sorrindo envergonhada. Amaram-se sobre a proteção de Deus. Os dias mais felizes de sua vida. A escoteirada sentia sua força e sua nova forma de viver. Notaram que era um novo Chefe. As atividades eram feitas com tal alegria que todos vibravam querendo mais. Ninguém soube realmente o que aconteceu. Ela começou a definhar e morreu em poucos meses. O tempo parou no espaço infinito. Ninguém sabia o que dizer e mesmo as palavras do Velho Pároco, aquele que o batizou poderia imaginar o seu sofrimento.

                      Ele sabia que pensar em tirar sua vida seria um erro só porque perdeu alguém. – Meu filho sofrer pelos outros é caridade, sofrer voluntariamente por motivo próprio é egoísmo! Meu Deus, não deixe que ela morra, ele dizia. Mas ela estava morta. Ele se transformou em um zumbi a correr as ruas da sua cidade sem saber para onde ir. Naquele ultimo dia ele fez a fogueira como se fosse uma máquina que não pensava. Era seu ultimo dia, pois ele precisava voltar. Precisava trabalhar já que suas pequenas economias estavam no fim. As chamas subiram aos céus e juntas as fagulhas faziam seu espetáculo que para ele nada representava. Abaixou a cabeça e começou a chorar. Veio um soluço forte. Estava engasgado de emoção e dos seus sonhos que se foram. Um barulho de um galho quebrado lhe chamou a atenção. Em uma trilha que levava ao Lago Profundo ele viu se aproximado um Velho Escoteiro. Barbas brancas, cabelos brancos e trazia na mão uma forquilha e um tosco chapéu escoteiro. Ele olhou com espanto aquela figura que não era desconhecida. Ele sabia que o tinha visto em algum lugar.

            O Velho Escoteiro o saudou carinhosamente e sentou em sua frente em uma pequena tora que há anos estava ali. O Velho não disse nada apenas sorria, um sorriso cativante como se sua vida fosse a mais feliz do universo. O Velho Escoteiro olhou para o fogo que rejuvenesceu. As chamas subiram aos céus. Olhou para o céu e ele nunca viu um céu tão brilhante onde as estrelas no firmamento davam seu espetáculo sem cobrar. A lua saiu de trás das montanhas e uma brisa suave começou a roçar seu rosto trazendo o perfume daquela floresta encantada. Ninguém disse nada. Ele não sabia o que dizer. Começou a sentir uma paz que nunca sentiu antes. Frases começaram a pipocar em seu cérebro – Há uma espécie de conforto na autocondenação. Quando nos condenamos, pensamos que ninguém mais tem o direito de fazê-lo.

          Ele segurava-se em suas lembranças. Não queria esquecer-se delas. Rosamaria não podia ser esquecida. Agora ele sabia que a vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher. Lagrimas começaram a cair, mas diferente das lágrimas doidas de antes. O Velho Escoteiro estava em pé. Sorria para ele da mesma maneira que chegou. Foi até onde ele estava. Colocou a mão em sua fronte. Disse baixinho: Somos irmãos de sangue, tu e eu! Sorriu e partiu sem dizer adeus. Ele o viu andando sobre as águas do Lago Profundo até desaparecer nas sombras da noite. Nesta noite ele dormiu. Sonhou com ela. Ela sorria dizendo; Nosso amor é eterno. Está escrito nas estrelas completou. Ele acordou rejuvenescido. Sabia que nunca esqueceria Rosamaria. Sabia que muitas vidas se foram e outras estavam por vir. Iriam viver juntos por toda a eternidade.


             Naquela tarde ao chegar ao Grupo Escoteiro ninguém perguntou, ninguém tentou mudar a rotina que sempre tiveram. Ele se incorporou a ela. O mundo não para e todos nós seguimos o passo do mundo. Ele sabia que ia lembrar-se dela para sempre, mas como uma alegria diferente. Ao sair do portão para retornar a sua casa ele viu em uma esquina o Velho Escoteiro. Ele estava sorrindo e lhe fazendo o sinal Escoteiro. Ele retribuiu. O Velho Escoteiro partiu desaparecendo em nuvens no ar. Ele não perguntou quem era de onde veio e para onde ia. Ele só sabia que sua vida iria mudar para sempre!  

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Patu o Caolho, o bandido cruel da Caverna do Morcego.


Lendas Escoteiras.
Patu o Caolho, o bandido cruel da Caverna do Morcego.

“Conta-se uma lenda que um bandido cruel se escondia na Caverna do Morcego. Saia sempre à noite para matar qualquer coisa viva que encontrava em sua frente. A lenda dizia que ele nunca foi encontrado e vive perdido perambulando pelas margens do Rio da Chuva próximo a caverna do Morcego que se tornou sua morada”.

          Passava das dez da noite e ainda estávamos papeando em volta do fogo comendo bananas assadas e tomando um delicioso café no bule que se esquentava nas brasas da fogueira. Cortiço um sênior magro e alto, cabelos encaracolados estava em pé de costas para a floresta contando uma história fantástica. Cortiço tinha o dom da palavra, dos gestos e da imaginação. Todos nós da patrulha Serpente tínhamos admiração por ele. Nunca conheceu seus pais e foi criado pela Avó que lhe deu carinho e amor. Cortiço terminou dizendo: - Se quiserem podemos ir lá agora. Não é longe. Em nossas bicicletas é só atravessar O Pontilhão Negro da estrada de ferro, em menos de uma hora chegamos a Riacho Grande. De lá é fácil atingir a curva do Índio. Dizem que embaixo da pequena ponte de madeira do rio Amarelo as cavernas estão lá para quem quiser explorar!

         Um silêncio profundo se fez. Todos pensavam a mesma coisa. Será que iria valer a pena? A lenda que Cortiço contou poderia não ser verdade, mas e se fosse? Não seria fácil atravessar o Pontilhão da estrada de ferro. Nele não existia saída e se um comboio de minério aparecesse para não morrer todos tinham que pular no rio. E as bicicletas? Perder tudo? O que dizer aos nossos pais? – Vagonete o Escriba falou baixinho: - Uma aventura e tanto, mas atravessar a ponte? Se o fantasma do Patu o Caolho estivesse lá tudo bem, a gente já enfrentou fantasmas antes, mas a ponte era um desafio infernal. Pikitito que pouco falava concordou e foi mais além. – Se conseguirmos será a primeira vez que vamos viver uma grande aventura. Orelhudo o Monitor não disse nada. Porteira o sub. riu baixinho. – Sei não disse – Se conseguirmos seremos os primeiros a aventurar em uma travessia mortal. Que eu saiba ninguém nunca tentou. Não deu outra, todos se levantaram, fecharam suas barracas com cipó bem preso para evitar bichos, vestiram seus casacos simples e sem ostentação, montaram em suas bicicletas e partiram. Eram dez e meia da noite.

                Contavam-se fábulas e relatos nem sempre verdadeiros de Patu o Caolho. Lá pelas bandas de Derribadinha e Riacho Grande ele era famoso. Seria demais se eles encontrarem com ele. Já pensou falar com um bandido malvado como ele? Em meia hora avistaram pontilhão. Pararam na entrada. Nenhum som. Cada um olhou para o outro e o coração disparou. – Orelhudo pediu que usassem os cabos que usavam na cintura para amarrar uma bicicleta na outra. Se tivermos que pular pelo menos poderemos recuperar todas elas no fundo do rio. Assim foi feito e ao dar os primeiros passos ouviram o apito do trem. Sorriram. Se esperassem ele passar teriam alguns minutos para correr dentro do túnel escuro do pontilhão até o outro lado. O trem passou. Como coriscos em menos de oito minutos chegaram ao outro lado. Sorriram aliviados. Vinte minutos depois margeando o Rio do Peixe viram a entrada da caverna. Escura, fantasmagórica. A noite parecia a morada do demônio. Eram seniores acostumados. Medo para eles era uma palavra que não existe.

               Levaram um lampião pequeno a querosene. Foi aceso e não iluminava mais que dois metros à frente. E daí? Era o suficiente. Pikitito ficou responsável para marcar o caminho. A certeza da volta sem sobressaltos dependia dele. Ele sabia de sua responsabilidade. Cortiço tentava recordara o que lhe contaram. Havia duas bifurcações na caverna. Uma levava a sala dos morcegos assassinos. Milhares deles. Quem chegou ali foi morto em segundos com suas mordidas fatais. A outra levava a um salão enorme. Diziam que Patu o Caolho morava lá. Sempre com a sua winchester e seu parabélum na mão. Diziam que o teto da caverna era enfeitada de caveiras penduradas, meganhas que ele matou. Diziam que mesmo sem vento balançavam como se estivessem dançando quando um inimigo aparecia. Pé ante pé eles seguiram a caverna e avistaram a bifurcação. Qual escolher? Na moeda? Não tinham nenhuma. Eram os seniores mais duros que existiam, mas para eles dinheiro nunca foi problema. Orelhudo mostrou que era o Chefe. Vamos pela direita! Falou. Ninguém disse nada e o seguiram.

              Quinze minutos depois uma visão do inferno. No salão, bem no meio, Patu o Caolho sentado à moda índia, de costas para eles falou baixinho – Aproximem-se! Eu sabia que vinham! Porteira que sempre ria queria chorar. - E agora? Pensou? O bandido vai matar um por um! Vagonete parecia ser o único a não ter medo. Aproximou-se do bandido e sentou ao lado dele. Um pequeno fogo um tropeiro simples e uma artimanha assando o animal qualquer. – Comam a vontade disse o Bandido. Parecia apetitoso. Pescoço tirou sua faca e tirou uma lasquinha. – No ponto pensou. Todos fizeram o mesmo. Ninguém falava. – Meia hora depois Patu o Caolho contou sua história. Nunca fui bandido, Capitão Micunha da Policia de captura se “arrebicou” pela minha mulher. Não me respeitou como homem. Ele foi obrigado a cortar a garganta do meganha filho da mãe. Escondeu-se ali. De vez em quando um pequeno batalhão aparecia. Ele fechava a entrada da direita e eles caiam direitinho no salão dos morcegos assassinos. Nunca escapou ninguém. Saia à noite até Derribadinha ou Riacho Grande para pegar alguma comida. Não tinha dinheiro. Na entrada das cidades dava uns tiros para cima e ninguém incomodava. Servia-se no armazém com víveres para um ou dois meses.

              Orelhudo, Porteira, Pescoço, Vagonete, Pikitito, Cortiço e Pé de Chumbo da patrulha Serpente estavam calados ouvindo a história de Patu o Caolho. Não tinham nada para dizer. Ficaram em pé e Orelhudo agradeceu o petisco que comeram. Era hora de voltar. Pé de Chumbo fez a pergunta que todos queriam fazer: - E as caveiras senhor Patu? – Ele fez um gesto. Ainda sentado à moda índia o salão se iluminou. Centenas de caveiras penduradas no teto. Todos balançando. Todas com o uniforme da policia de captura! – Obrigado e até senhor Patu. Que vamo que vamo para nosso acampamento. Patu olhou para eles – Boa viagem. Sempre os vi lá acampando. Todos se entreolharam. Cada um em fila indiana percorreu o caminho de volta. No Pontilhão da estrada de ferro não deu outra. Na metade da ponte um trem enorme, com faróis incríveis apareceu sobre eles. Pularam no rio. Quase vinte e cinco metros de altura. Moleza para aqueles seniores. Foram até a margem tiraram as roupas e voltaram para buscar suas bicicletas no fundo do rio.


              Sei que a Patrulha Ventos do Norte também se arriscou e foi até lá. Sei que a última não achou Patu o Caolho. Sumiu neste mundo de Deus. O fato é que Patu o Caolho ficou amigo dos Escoteiros e bandido ou não sempre o trataram bem. Alguns seniores passaram a contar uma história diferente. De Bandido passaram a contar que era um homem perseguido que merecia nosso respeito. Coronel Saldanha do Batalhão militar não gostou. Deu um ultimato: - Se continuarem com esta história acabo com vocês! Pelo sim e pelo não calamos. Afinal respeito é bom e todos nos gostamos. Kkkkkkkkk!                    

domingo, 13 de setembro de 2015

Em algum lugar do passado.

Lendas Escoteiras.
Em algum lugar do passado.

                         Eu tive dois amores na vida. Amei quem não devia amar e amei por me sentir vibrar sendo um Escoteiro. Viver junto a amigos que me faziam feliz era muito bom. Ser Escoteiro sempre foi meu sonho, não aquele sonho que a brisa leva, e um dia volta com o vento. Era um escotismo gostoso, franco, amigo, sincero e leal. Mesmo com a adversidade por ela ter aparecido em minha vida nunca reclamei aos meus amigos, das noites gostosas e mal dormidas e das refeições enfumaçadas dos maravilhosos acampamentos. Poderia dizer que o escotismo foi mais que um sonho, nele eu era como o vento e podia voar, voei pelos campos, pelas montanhas, voei a noite pelas estrelas e vivi as maravilhas de cada lugar. Antes que ela aparecesse na minha vida, eu tinha outro amor, gostava de cantar. Diziam que eu tinha uma bela voz, e mesmo arranhando o velho violão que meu pai me presenteou eu conseguia nos fogos de conselho, nas noites maravilhosas de uma conversa ao pé do fogo, cantar para meus irmãos de patrulha, de outras patrulhas e eles adoravam.

                           Podia dizer que nos meus catorze anos eu tinha tudo que um jovem Escoteiro poderia ter. A felicidade de um pai e mãe queridos, uma escola onde todos me amavam, uma patrulha que nos considerávamos irmãos. Todos sorriam para mim e eu valorizava aquele sorriso. Não era o melhor, mas também não era o pior. Tudo na minha vida era só felicidade até o dia que ela apareceu. Impossível alguém sentir o que eu senti. Eu era apenas um Escoteiro de Primeira Classe no alto dos meus catorze anos. Dizem que meninos não amam, não sabem o que é uma paixão, não sente no corpo o calor de quem ama, não tem ainda mente formada para sonhar sonhos de amor. Foi em um sábado de reunião que apareceu. A primeira Escoteira da Patrulha Leão. Todos ficaram boquiabertos com seu sorriso, com sua voz, com sua beleza e sua maneira de jogar os cabelos compridos para trás e sorrir. Nossa primeira Escoteira e meu primeiro e único amor.

                    À noite na varanda da minha morada, não toquei no violão. Na varanda deitado na rede do meu pai eu olhava para o céu e pensava: Quem é você? Será alguém que nunca vi e que apareceu na minha vida assim do nada? Você que um dia levou meus sentimentos como se tudo o que tivesse guardado na vida fosse meus sábados Escoteiros e solitários depois que você chegou? Custei para dormir. Minha mãe lá pelas tantas quase me carregou no colo até meu quarto onde consegui dormir. – Escoteiros! – o Chefe dizia – Esta jovem é Lisabel, será a primeira Escoteira da tropa. Teremos muitas outras! Ninguém falou nada, só Josué que me cutucou e disse: - Sabe Richard, ela não trará a felicidade para ninguém. Josué era um visionário. Ela não ficou muito tempo. Três anos talvez? No primeiro ano eu fazia planos, planos incríveis de me apresentar. Apresentar como? Ela me conhecia, sabia meu nome, sorria para mim com aquele estilo maroto como a dizer que nem minha amizade lhe interessava.

                   Nos acampamentos eu não era mais o mesmo. Ajudava a patrulha sim, mas sempre a pensar e sonhar com ela. Sua voz era para mim um sonho, como se ela soubesse que cada palavra eu escrevia seu nome ao vento. Lisabel!  E meu pensamento queria encontrar seu olhar no ar, ver seus olhos da cor da noite perdidos no luar. Eu fiz uma canção para ela. Demorou. Fechava os olhos e pedia um favor à brisa da madrugada, leve tudo que for necessário, ando cansado sem saber o que dizer, eu preciso mudar e daqui para frente vou levar apenas o que couber no meu bolso e no meu coração. Na melodia eu pedia ao vento que varresse tudo para longe... Sentava-me no alto da montanha, pois eu sabia que lá ventava forte. Sábio é o mar que nas idas e vindas sabe ser imensidão.

                  Lisabel partiu do Grupo Escoteiro e da cidade. Foram quase cinco anos três no escotismo e dois olhando de longe sua janela da casa onde morava. Não me entreguei como um Escoteiro apaixonado. Minha vida continuou mesmo depois que fui feito gerente do Banco da cidade. Não casei e nem namorei. Só pensava nela. O escotismo que um dia completou as fases da minha vida já não era mais o mesmo. Não parti, não deixei para trás minhas raízes Escoteiras. Todas as noites pegava meu violão e na varanda do meu lar eu cantava a canção que fiz para ela. Eu ouvia o vento e ele me ouvia. Ela dançava no meu corpo, flutuava como uma pluma. Voava até o topo da árvore e quando batia o vento, caía novamente. Rotina de sempre, todos os dias o mesmo percurso. Eu me acostumei com a forma que o vento me consolava, dava vontade de voltar todos os dias, mesmo sabendo que meu destino era grama fresca.

                  O tempo e o vento. Palavras que fizeram sonhos e livros históricos, e que me fazia viver sem rumo sem pensar. Cada ano era uma lembrança. Parecia uma doença em minha mente. Ela tinha partido, nunca mais ia voltar e porque não esquecer? Trinta anos, quarenta, sessenta. Ainda no Grupo Escoteiro. Não casei, não amei mais ninguém. Agora amava o escotismo e ela onde estivesse. Na minha canção eu escrevi – Se não era para ficar, para que você apareceu na minha vida? Bobagem. Canção que não cantei para ninguém. Devia ter dito para ela mesmo de longe e sussurrando – Lisabel, você apareceu na vida, como amiga foi chegando, de mansinho ganhou minha confiança e logo ganhou o meu coração... Mas ela partiu para sempre.

                  A ideia não foi minha. Foi do Chefe Pascoal. Levar um pouco de amor e carinho em uma casa de repouso de idosos. Uma boa ideia eu achei, pois já me considerava um idoso. Quem sabe a melhor ideia que não foi minha. Meu Deus! Que surpresa! Ela estava lá. Acabrunhada, cabelos brancos, sorriso perdido no tempo. Não reconheceu ninguém. Nem se lembrou dos seus velhos tempos de Escoteira. Cheguei de mansinho. Acariciei seus cabelos, ela levantou os olhos sorriu e nada disse. Meu amor que nunca tinha esquecido agora estava ali na minha frente. Velha, alquebrada, doente. Mas eu só via a Lisabel do passado. – Perguntei na secretaria quem era responsável por ela. Ninguém disse a enfermeira. Tomei uma resolução, ia cuidar dela para toda a vida. Custou muito à papelada ser aprovada. Eu já cuidava de minha mãe acamada e agora tinha Lisabel para cuidar.


                      Ela as noites de luar sentava comigo na varanda e eu cantava para ela. De olhos fechados não sabia se ela entendia a canção, se a melodia entrava em sua mente ou se apenas sentia a brisa da noite e o vento passar. De vez em quando ela me olhava com seus olhos miúdos, deixava uma lágrima rolar pelo rosto, eu chorava por dentro e não parava de cantar: - “Quando você apareceu na minha vida, eu era apenas um alguém sem saber aonde ir, o tempo passou, e você tomou meu coração”. - Sei que um dia ela vai partir. Sei que um dia eu poderei ir também. Mas confesso que agora era feliz. Lisabel estava ali, junto a mim e mesmo sem dizer que me amava me fazia o Escoteiro mais feliz do mundo!  

sábado, 12 de setembro de 2015

A classe dominante vai ao escotismo.


Lendas escoteiras.
A classe dominante vai ao escotismo.

(esta é uma história de ficção, qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência).

Sou gaúcho forte, campeando vivo, livre das iras da ambição funesta;
Tenho por teto do meu rancho a palha, por leito o pala, ao dormir a sesta.
Monto a cavalo, na garupa a mala, facão na cinta, lá vou eu mui concho;
E nas carreiras, quem me faz mau jogo? Quem, atrevido, me pisou no poncho? João Simões Lopes Neto

                   Vertentes da Saudade era uma cidade pequena, antiga e ainda enraizada nas velhas tradições gaúchas. Ficava a oeste de Uruguaiana mais de oitocentos quilômetros de Porto Alegre. Nada mudou em Vertentes nos últimos trezentos anos. Os antigos donos da terra os Índios Guaranis eram sombra do orgulho do passado. Uma estátua centenária do Padre Jesuíta Cristóvão de Mendonça estava encravada na praça central e hoje poucos param para ver o que está escrito em sua placa de bronze. Havia no ar uma melancolia talvez por falta do que fazer. A população vivia do plantio do feijão e criação de gado. Ali em Vertentes da Saudade os direitos de cria recria e engorda tinha dono. O Coronel Totonho Mercês Almeida Pais reinava absoluto sobre os demais estancieiros. Ele praticamente era o juiz, o prefeito e o delegado e ninguém poderia de maneira alguma contrariar suas ordens. E olhe que estávamos no século vinte e um.

          O menino Luiz Mercês Almeida Pais com onze anos tinha puxado o pai. Orgulhoso, andava de nariz empinado e conversava com os outros como se estivesse dando ordens. Ninguém tinha coragem de olhar nos olhos diretamente do pai e do filho. Diferente de Dona Leonor Mercês Almeida Pais esposa do Coronel Totonho. Uma alma caridosa, nunca levantou a voz para ninguém. Todos a procuravam nas horas mais difíceis e ela sempre bondosa não negava ajuda. O Topógrafo Siqueira Nantes Leal nascera em Vertentes da Saudade e nem sabe como resolveu um dia fundar um Grupo Escoteiro na cidade. Houve uma revoada geral na meninada. De boca em boca o assunto correu e alvoraçou a cidade. Gaúcho de verdade não abandona a sua terra e leva no peito a saudade, que toda tarde, trás dela, assim pensava Siqueira que nunca abandonou sua cidade por nada. Dona Filó diretora do Grupo Escolar Flores da Cunha comprou a ideia e logo ofereceu o pátio e duas salas para que o grupo arranchasse para sempre. Assim ela pensava.

      Siqueira Nantes amava Amelinha Salsaparrilha e ela como boa moça quando o viu cantou baixinho: - “Erva, cuia, chimarrão. Não é apenas costume, é amor e tradição. Ela não liga para status, beleza ou dinheiro. O importante para ela, é que ele seja Gaúcho, campeiro e Romântico”. O namoro durou meses e casaram-se na igrejinha do Padre Antonio Feijó numa tarde linda de setembro. Siqueira nem lua de mel teve. Um trabalho encomendado pela Ferrovia do Trigo, que ligava Passo Fundo a Porto Alegre a pedido do Coronel Totonho que pensava em fazer um ramal até Vertentes da Saudade. Seria uma linha regular de passageiros e porque não transportar o gado do coronel? Siqueira Nantes não abandonou seu projeto de organizar o grupo escoteiro. Convidou oito jovens e com mais dois professores da escola além da diretora, escolheram o nome do grupo e definiram quando seria feita a solenidade de promessa do grupo. Tudo andava de vento em popa. Siqueira comentava onde passava: “Vai Tche! Por este mundão véio sem porteira, proseando do evangelho, espaiando as boas novas do escotismo prá tudo que é vivente”!

                  O menino Luiz Mercês ficou uma fera quando soube que não fora convidado para participar da primeira patrulha do grupo. Falou com seu pai e este mandou chamar Siqueira Nantes para se explicar. De cabeça baixa ele disse que logo teria uma vaga para seu filho. O Coronel Totonho não acreditava no que ouvia. Mandou Zepileu seu secretario chamar os dirigentes do escotismo rio-grandense para se explicarem a ele em sua cidade. Doutor Alfredo Maristo era o Presidente da Região Escoteira. – Que boa bisca é este Siqueira? – Pensou.  Se não vou fico de entremeio com a liderança politica. Tenho de ir lá e me rebaixar para um coronelzinho de araque. Doutor Alfredo chegou cedo a cidade. Foi levado a presença do Coronel. Com seu vozeirão ele foi dizendo aos gritos de modo mal educado: Moço! Assuma, ou suma da minha frente, pois chega de lero-lero. Se tu não sabes o que quer, eu sei o que eu quero e papo enrolão de homem-banana, é um abacaxi que não quero! Doutor Alfredo tentou se explicar, mas não adiantou. – Quem manda na cidade sou eu. Avisa a este sacropanta que se diz Chefe Escoteiro que ele come na minha mão!

          Doutor Alfredo conversou com Siqueira Campos. Um pobre diabo ele pensou. Por que foi logo nascer aqui onde Judas perdeu as botas? – Doutor Alfredo vou desistir. Não quero mais ser Chefe – Na verdade, de que adianta ter a faca e o queijo na mão, quando não se tem mais um fio de vontade, de motivação? Não adiantou a desistência de Siqueira, Coronel Totonho contratou dois profissionais Escoteiros e lá fez um grande grupo que chamaram de Grupo Escoteiro Coronel Totonho. Doutor Alfredo foi obrigado a dar autorização, pois ao contrário o Governador do Rio Grande acabaria com ele. E assim fundou-se ou afundou-se as boas práticas escoteiras em Vertentes da Saudade. – Como dizem por aí, Siqueira que nunca foi Chefe e pensou que seria um cantava baixinho: - Vai Tche! Por mundão veio sem porteira, proseando do evangelho, espraiando as boas novas pra tudo que é vivente! – Tô loco de faceiro Tche! Convidaram-me prá ir à casa do patrão celestial, pois aqui em Vertentes da saudade nunca mais eu voltarei. Se trouxeres teu orgulho de ser brasileiro, te entregarei a minha honra de ser gaúcho, mas nunca submisso.


      Sei que Siqueira foi para outra cidade, se tornou um grande Chefe Escoteiro e até hoje a gauchada de lá o carregam para todo lado a saudar como se ele fosse um herói. Levantar com o pé direito ou esquerdo, não vai determinar se o seu dia será bom ou ruim, suas atitudes sim! Chega um dia que a gente simplesmente muda, os sentimentos mudam e o coração faz novas escolhas. E assim vou terminando este novo conto onde o Escotismo não se abaixou para a classe dominante e nas palavras do gaúcho do Rio Grande eu vou dizendo: - Bueno vou me largando, mais tarde temo aí de novo. “Forte quebra de costela prá toda a gauchada conectada”!

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Os maravilhosos contos de Panchito Flores.


Lendas Escoteiras.
Os maravilhosos contos de Panchito Flores.

                      Nunca esqueci Panchito Flores, foi da Patrulha Onça Parda da mesma tropa onde fui da Raposa. Apesar de patrulhas diferentes havia uma amizade entre nós bem diferente dos demais da patrulha. Nós dois tínhamos uma química e pelo menos uma vez por dia ficávamos horas conversando. Falávamos de tudo e ele tinha um dom especial de dar vida ao que me contava. Sei que quando passou para a chefia criou uma fama de contador de histórias incrível. Eu sei que quem conta um conto aumenta um ponto. Mas não seria isto o doce sabor delicioso de uma boa história? Quando passei para Sênior Panchito Flores foi embora com seus pais. Passaram-se anos até que nos encontramos novamente. Era normal quando voltava do meu trabalho parar no bar Aurora bem no final da Rua dos Andradas para tomar um chope e comer dois quibes fritos. Sentava em uma mesa e refastelava de um dia da “Boca do Forno” na usina siderúrgica que trabalhava. Ficava pouco tempo e logo embarcava no ônibus que me levava a minha morada.

                      Lembro que um dia ao procurar uma mesa, pois o bar estava cheio me dei conta que lá estava Panchito Torres. Mais velho é claro, mas não podia ser outro. Aproximei-me e ele também me reconheceu. Efusivamente ficou de pé e gritou alto em posição de sentido: - Sempre Alerta Vado terceiro Escoteiro da Patrulha lobo! Fiz o mesmo. Juntando os “cascos” gritei – Bem vindo amigo Panchito, Segundo Escoteiro Submonitor da Patrulha Onça Parda! Sempre Alerta! Sem perceber atraímos atenções gerais e sorrisos dos que estavam ali. Depois dos abraços nos sentamos para colocar a conversa em dia. E como rendeu. Dei conta por volta de uma da manhã. A barra ia pesar com a Célia. Fazer o que? Panchito era demais. Contou-me em pormenores as cidades por onde passou o que fez e os grupos escoteiros onde atuou. Combinamos de nos encontrar ali no Bar Aurora toda quarta feira do mês. Ele nunca faltou e eu também. Na última vez notei que ele estava alegre, dando risadas, e sabe, é sempre bom estar em companhia de pessoas assim.

                    Panchito! Hoje você está na sua eim? - Pois é Vado, hoje lembrei que poderia estar rico, muito rico, mas não acreditei e deixei a oportunidade passar. Mas quem não passa pela vida nunca aprende não é? Dizem que quem passa aprende mais que quem fica parado. – Verdade meu amigo, verdade. – Vado lembra-se da enorme Pedra que existia em Jardim Formoso? – lembro sim, chamavam-na de Pedra da Laguna. Fui lá uma vez e jurei nunca mais voltar. Que subida! E olhe que era bom de escalada. – Pois é. Aconteceu comigo também, mas não tinha jeito, a patrulha sempre querendo saber tudo da pedra. Eu achava que ela tinha um encantamento especial. Dizem que a serra tinha mais de mil e oitocentos metros de altura. Não sei se era tudo isto. Você deve lembrar que acompanhando a pedra tinha um recôncavo de mais de seiscentos metros de extensão e fui aí que a história começou. Achamos que se fizéssemos uma picada até na ponta do recôncavo teríamos uma vista maravilhosa do Rio Amarelo e outras cidades. Assim foi feito. Combinamos de voltar munidos de bons facões e machadinhas. Não seria difícil. O terreno era coberto por uma vegetação rasteira coberta por enormes samambaias. Mais de dois metros de altura.

                   Vi que a história seria longa. Mais uma vez iria enfrentar os olhos da minha querida esposa. Risos. Grande Célia. Dizem que ao lado de um péssimo Escoteiro sempre tem uma grande mulher – Mas voltemos a Panchito. – Pois é Vado, mochila nas costas lá fomos nós. Bem cedo, pois queríamos aproveitar os dois dias. Sábado e domingo. Metemos a cara nas samambaias. Aprumei o rumo SSW para não haver duvidas e cair pelas beiradas da encosta. Meia hora para cada usando o facão para abrir a picada. Levou o dia inteiro. Levamos lanche para o primeiro dia e a velha e gostosa sopa de macarrão com linguiça para a noite. Achei que em menos de quatro horas chegaríamos ao ponto e não aconteceu. Começou a escurecer. O melhor a fazer era acampar por ali. Dia limpo, céu sem nuvens. Mostrando que não haveria tempestades. Fizemos das estrelas nossas barracas. No domingo bem cedo continuamos. Ao meio dia chegamos à encosta. Não dava para ver nada.

                Tentamos limpar o mato e as samambaias na busca de ter uma visão do vale. Foi então que descobrimos uma calçada em umas pedras bem colocadas como se fosse uma enorme escadaria. Ela descia pela encosta em forma de caracol. Não dava mais tempo. Tínhamos que voltar. Engrenamos cinco sábados e domingos seguidos. Foi um custo convencer o Chefe Lomanto da nossa nova atividade. Mas eram outros tempos. Patrulhas faziam escotismo no campo e não na sede. Bem cedo no sábado lá estávamos nós percorrendo com nossas bicicletas os vinte e dois quilômetros que separavam nossa cidade até o pé da Pedra da Laguna. Queríamos desvendar a todo custo o que seria a escadaria. No topo não tinha nada. Nenhum rastro de construções antigas. No cume novamente chegamos na ponta da encosta.  O mato e as samambaias cresceram onde capinamos na semana anterior. Impossível crescer assim em uma semana! Meninos, jovens cheios de vida não desanimamos. Escada abaixo procurávamos descobrir o mistério daquela enorme escadaria.

                        Ela fazia a volta no recôncavo e na pedra. Seria difícil em um só dia percorrer toda ela. Seriam necessários mais de dois fins de semana. Não desanimamos. Foi Locardo um Escoteiro caladão que nos mostrou ao lado da escadaria um pequeno busto de uma Deusa Inca coberta de poeira e barro. Voltamos com a curiosidade aguçada. O horário não permitia continuar. Levamos conosco o busto. Na segunda feira mostramos para o Diretor do Colégio Dom Bosco o padre Esculápio. Ele achou que tínhamos roubado e deu o golpe do João sem braço. Recolher para averiguações. Bem meninos inocentes acreditam em tudo. Voltamos de novo na Pedra da Laguna. Descobrimos um enorme Cálice pesado, mais de trinta quilos. Foi difícil para trazer. Só com uma maca improvisada de camisas escoteiras. Você sabe, elas sempre foram uma salvação para nós. Desta vez procuramos o Professor Pinta Silgo. De novo em nome da ciência nos tomou o cálice.


                         A história se espalhou. No domingo seguinte centenas ou milhares de pessoas da cidade estavam lá tentando achar algum tesouro. Uma bagunça grande. Ninguém se entendendo. Foi necessário a policia e o prefeito mandou colocar uma cerca. Veio da capital uma equipe de arqueólogos. Sei que nossas descobertas o filho do professor Pinta Silgo vendeu para um Museu de Berlim o Cálice por quarenta e cinco milhões de dólares para um museu de Nova Iorque.  Não ganhamos nada a não ser o prazer da aventura. Despedimo-nos e pela rua deserta era mais de meia noite fiquei pensando em tudo que aconteceu conosco no passado. Eu mesmo tinha muitas histórias para contar, mas não encontrei riquezas. Consegui sim fazer de minha vida uma felicidade que muito me valeu. Muitas e muitas quartas feiras eu e o Panchito Flores contamos histórias. Um dia ele não apareceu. Esqueci de pegar seu endereço e telefone. Voltei ao bar muitas vezes e nada. Ah! Histórias, e quem não tem? Ainda bem que elas são coisas de escoteiros, coisas de aventuras. Só quem as teve sabe como é! 

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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