sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Contos de Fogo de Conselho. Memórias de um Chefe Escoteiro.


Contos de Fogo de Conselho.
Memórias de um Chefe Escoteiro.

                Olhei para o relógio. Estava na hora. Nem pensei quantas vezes e quantos anos fazia o mesmo nesta hora. Notei o céu azul perdendo a cor e lembrei-me da frase do poeta ao entardecer: - “Não chore por ter perdido o pôr do sol, pois as lágrimas te impedirão de contemplar as estrelas”. - Em passadas curtas e sem pressa fui rumo a Sede Escoteira. Rotina de anos e anos me levava até a porta e passar a chave e dizer: - Até o próximo sábado que vem quando vou voltar! Dei a primeira volta na chave quando a voz de Tomaz se fez presente. – Chefe posso falar com o senhor?

                 Abri devagar a porta. Entrei e convidei Tomaz para sentar. Sabia que tinha hora para chegar, mas Naninha minha amada iria entender. Afinal a tarefa de viver e ajudar é dura, mas fascinante. Não disse nada. Era sempre assim. Tomaz tomaria a iniciativa. – Chefe, eu vou sair do escoteiro! – Não perguntei por que, sabia que haveria um razão para que ele tomasse aquela decisão. Conhecia Tomaz há muito tempo. – Lembrei-me quando da passagem ele chorando ao apertar minha mão disse soluçando: - "Chefe, não troco o meu “oxente” pelo ok de ninguém”!

                 Tomaz... Mostrou seu valor nos quase oito anos de escoteiro e lobo. Ninguém nunca reclamou dele. Nunca desistiu de nada. Era o primeiro a correr como gente grande, a jogar como um atleta, a cantar como uma cotovia, a sorrir como um herói. Quando caiu nas escarpas do Roncador, apareceu logo a seguir subindo as pedras e dizendo: - Chefe! A gente tem uma tendência para acreditar que o escoteiro não morre! Quando chegou da jornada de primeira classe com um atraso de quatro horas, disse: - Chefe, o que nos salva é dar um passo e outro ainda e nunca desistir.

                  Ele respirou fundo e falou: – Chefe, meu pai precisa de mim, a loja aumentou o movimento. Ele não pode contratar, afinal sou seu filho de quinze anos e preciso ajudar. Dizem que ninguém doma o coração do poeta, concordo. Não foi ele quem disse que não podia perder a vontade de ter grandes amigos, mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles acabam indo embora de nossas vidas? – Poderia ter perguntado se ele queria que conversasse com seu pai, mas ele tinha tomado uma decisão. Precisava de apoio e não aconselhamentos.

                   Dei-lhe um forte aperto de mão e não faltou um abraço amigo do seu Chefe que o queria bem. A gente só conhece bem as coisas que cativou. Ele se foi e com o tempo também se foram Antônio, Pedro, Joaquim, Noé, Tomé, Rinaldo, José, Altair, João, Raul... Poderia ficar aqui horas lembrando o nome de cada um que tive a honra de ser Chefe amigo e mentor. Qual o papel do Chefe? Eu sempre me perguntava e as respostas nem sempre me satisfaziam. Em um mundo que se faz deserto, muitas vezes temos sede de fazer amigos. Seria isto? Ou seria que o mundo inteiro se abre quando vê passar um homem que sabe aonde vai?

                   O tempo passa a gente nem percebe o tempo passar. Hoje dizem que tudo pode ser comprado, mas a mente dos jovens não tem preço e nem está à venda. Ao meu modo ajudei e fiz da vida de muitos um caminho do sucesso. Sucesso? Não sei. Muitos anos depois Tomaz me procurou: - Chefe preciso do senhor. – Olhei para ele. – Quero que seja meu padrinho de casamento. Dizer o que? Eu sei que sou um pouco de todos que conheci, um pouco dos lugares onde fui um pouco das saudades que deixei e sou muito das coisas que gostei.

                     Muitos deles tive a honra de encontrar um dia. Outros não. Baden-Powell dizia que a verdadeira felicidade é fazer os outros felizes, outro poeta disse que a verdadeira felicidade vem da alegria de atos bem feitos, do sabor de criar coisas renovadas. Ao meu modo ensinei que a ética está acima de tudo, e para isto dei tudo de mim aos jovens que acreditaram que o escotismo era uma força que habitava no coração e fazia da mente uma mola para ser alguém de valor neste mundo. Eu sabia que a maior habilidade de um Chefe é desenvolver habilidades extraordinárias em pessoas comuns.

                      Até hoje não me arrependo do que fui do que sou e do que fiz. Fiz tudo para fazer outros felizes. Apertei a mão de milhares de jovens, me orgulhei de muitos quando já adultos se mostraram a altura do seu Espírito Escoteiro. Eu sabia que grandes homens e mulheres começaram por serem crianças mesmo sabendo que a maioria não se recorda disso. A cada um quando via eu pensava: - Eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim, mas se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro.


                      Fechei a porta da sede. Devagar fui para o portão. Ao sair o barulho da cidade grande me fez viajar nos meus tempos de escoteiro. Correndo pelas campinas, acampando em vales e pulando na água fria de um regato, fazendo o que gostava e amando o que fazia. Sempre disse que ia dar o mesmo para outros jovens. Não tenho arrependimentos. Enquanto puder aqui estarei abrindo e fechando a porta da sede. Uma sina? Pode ser. Ao ir para casa olhei novamente o céu. Pensei com a mente de um escoteiro que é difícil uma pessoa contemplar o céu e dizer que não há um Criador!

Nota de rodapé: -  Abraão Lincoln comentou que o caráter é como uma árvore e a reputação como uma sombra. A sombra é o que nós pensamos dela, a árvore é a coisa real. Afinal o êxito da vida não se mede pelo caminho que você conquistou, e sim pelas dificuldades que você superou no caminho. E corrijo as palavras dele com a que transmito aos chefes escoteiros: Não te esqueças de que todos são seus amigos e irmãos mesmo que não os conheces, pois todos gostam de um elogio de um cumprimento e de um abraço. Faça por merecer meu amigo Chefe.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Contos de Fogo de Conselho. O natal do fantasma Simão o Caolho!


Contos de Fogo de Conselho.
O natal do fantasma Simão o Caolho!

“Se você errou se você errou, peça desculpas...
É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender?”

              Manezinho estava de olhos arregalados. Nunca sentiu tanto medo na vida. Ele nunca deveria ter concordado com Zózimo seu amigo deste que nasceu. Poderiam ter esperado o dia seguinte e não após as dez da noite encontrar a patrulha que acampava no Riacho da Lontra. Eles amavam acampamentos e não perdiam um. Liberato o Monitor saiu as duas de sexta um dia após o natal. Eles não puderam ir, precisavam participar de uma cerimônia na igreja. Combinaram de chegar lá por volta da meia noite. O acampamento duraria até segunda, pois era feriado municipal.

              Os dois nasceram na mesma hora no Hospital da cidade. Eram vizinhos e sua mãe amicíssima da mãe dele. Ambas lutavam para sobreviver, perderam o marido para a capital. Disseram que iriam melhorar de vida e mandar uma carta para elas encontrarem com eles. Carta que nunca chegou. Passavam a maior parte do tempo juntos enquanto suas mães saiam para trabalhar. Eles se divertiam, faziam brincadeiras e quando entraram na pré-escola foi como se nova vida se formasse.

                 Um dia viram uns lobinhos brincando na praça, e um deles contou como eles deveriam fazer para entrar também. As mães sempre bondosas foram com eles ao Grupo Escoteiro. O tempo foi passando e Manezinho e Zózimo amando aquela nova vida Escoteira. Sempre juntos nos lobos como quando passaram para a tropa. Só aceitaram a passagem se ficassem na mesma patrulha. Fizeram juntos a jornada de primeira classe e receberam no Acampamento de verão.

               Para eles era escotismo na terra e Deus no céu. Suas mães tanto insistiram que eles fizeram o catecismo juntos e se tornaram coroinhas ajudando nas missas salvo quando iam fazer atividade Escoteira. Deixaram isto bem claro para o Padre Nonô. Agora estavam ali, só os dois na Estrada dos Afonsos. Uma pequena estrada de terra com cercas de arame farpado dos dois lados. Já haviam percorrido três quilômetros. Faltavam outros quatro. Lembraram-se da curva do Demônio. Deus meu! Eles iriam passar lá por volta da meia noite!

“Se você sente algo diga... É difícil se abrir?
Mas quem disse que é fácil encontrar alguém que queira escutar”?

                 Zózimo olhou para Manezinho. Seus olhos esbugalhados nada diferiam do seu amigo. Lembravam-se de como morreu na curva do Demônio o Simão o Caolho. Isto há menos de dois anos. Simão era um pobre coitado sempre a sorrir e a fazer continência para os Escoteiros. Nunca falou palavrões e nunca brigou com ninguém. Seu sorriso enfureceu Norberto, Tonico e Malaquias. Norberto tinha 19 anos um vagabundo, e filho do prefeito Ladislau. Tonico era filho de Dona Iracema advogada de todos os grandões da cidade. Malaquias era um coitado. Não era nada apenas um bajulador dos dois amigos.

               Foi na tarde de um domingo que se enfezaram com Simão o Caolho. O acusaram de se fazer bonito com Dolores convidando-a para um passeio. Não deu outra. O jogaram na picape e o levaram até a curva do Demônio onde o mataram a pauladas. O enterraram na cruz de outro que morreu do mesmo jeito. Um dia e ninguém sabe quem foi os três amanheceram em suas camas mortos com as mãos e as línguas cortadas.

                   Toda cidade conhecia a lenda da curva do Demônio. Nas noites de lua nova ninguém passava por lá. Se fosse era para encontrar com a figura fantasmagórica de Simão o Caolho. Eles olharam para o céu. – Diacho disse Manezinho, a lua era nova!  Deram as mãos pedindo a Deus que os protegessem naquele dia de natal. Não deu outra, lá na curva Simão o Caolho, parecendo um espantalho jogava pedras em três figuras horrendas presas no arame farpado da cerca divisória. Simão quando os viu parou. Os dois escoteiros tremiam feito varas verdes. – Deus do céu, protegei aos seus filhos deste demônio! Disse Tonico.

                  Simão olhou para eles – Chorava – Não entendem meu infortúnio? Eles me tiraram a vida! Não devem pagar pelo que fizeram? Os presos no arame eram horrendos. Todos eles sangrando, gritando para parar, pedindo perdão. Simão não parecia gostar do que fazia. Era uma alma atormentada e mesmo não querendo só fazia por vingar.

“Se alguém reclama de você, ouça... É difícil ouvir certas coisas?
Mas quem disse que é fácil ouvir você”?

                  Não se apiedem deles! – Disse Simão. Eles tiraram minha vida! Eles tiraram tudo que eu tinha e o que eu poderia ter um dia. Não devem pagar? Simão não ria como os fantasmas faziam. Era um sorriso triste, não dava gargalhadas. Estava sofrendo e não sabia como evitar. Zózimo e Manezinho não sabiam o que dizer. Lembraram-se de sua lei e sua promessa, onde diziam para ajudar o próximo sem esperar nada. Uma obrigação de um Escoteiro. Ajoelharam – Olharam para Simão – Manezinho se lembrou de uma passagem na bíblia que ouviu na Missa do Domingo:

- “E aproximou-se de Jesus um leproso que, rogando-lhe e pondo-se de joelhos diante dele, lhe dizia: Se me queres bem pode limpar-me.” – E completou – Se podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nos, e ajuda-nos. E Jesus disse-lhe? Se tu pode crer, tudo é possivel para os que crêem! Uma luz brilhante aconteceu. Manezinho e Zózimo ficaram estupefatos! – Uma criança sorria e olhou para Simão. – Com uma voz amiga disse – Simão, tudo na vida tem um começo e um fim. Sem o perdão você não vai conseguir ir para o céu! Ouviram um trovão e os três malfeitores se soltaram. Ajoelharam e chorando disseram – Perdoa Senhor!

                   A noite virou dia na curva do Demônio. Não mais havia vencidos e vencedores. A voz do menino continuou: - Ide, procurem ajuda na seara do Senhor! – E você Simão, sei que choras e se perdoou também será perdoado! – O céu voltou a ficar cheio de estrelas. Não havia mais ninguém ali. Simão e seus matadores se foram. Que eles fizessem por merecer. Manezinho e Zózimo partiram para seu acampamento. Sabiam que agora a curva do Demônio acabou.


                  Dizem que nunca mais a Curva do Demônio foi o inferno de Simão o Caolho. Ela ficou conhecida como a curva do Menino Jesus. Do alto da montanha viram o campo da patrulha. Iluminado, lá embaixo os patrulheiros em volta do fogo declamavam: -. Noite de Paz... Foi nesta noite que um menino que de luz vem trazendo a esperança desejada, mas nem sempre é por nós reconhecido!

Nota de rodapé: - “Se alguém te ama, ame-o... É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz? Nem tudo é fácil na vida... Mas, com certeza, nada é impossível”... Uma história simples, dois amigos escoteiros que levaram a palavra de Jesus a quem precisava parar de sofrer. Simão o Caolho? Ele teve enfim a paz que precisava ter! 

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Conversa ao pé do fogo. A última Estação de trem.


Conversa ao pé do fogo.
A última Estação de trem.

                   Gosto desta história. Trás lembranças inesquecíveis. Contei dezenas de vezes e dela só as lembranças ficaram. Tempos bons que não voltam mais. Tempos de acampamentos à “escoteira”, aquela que significa o “escoteiro que anda só”. Era um apaixonado por acampar sozinho, sentir o vento descansar a sombra de uma pitangueira, ou banhar em um remanso frio de um riacho. Egoísta? Nunca. Junto aos meus amigos fizemos centenas de acampamentos, belas excursões nunca esquecidas que ficaram na memoria.

                   Quando os problemas se avolumavam era hora de partir. Uma mochila, um bornal, ração B, uma rota e pé na estrada. Adorava. Muitas vezes sem barracas. Montar uma cabana, um banquinho, um fogo estrela, um local privilegiado onde a vista pudesse deslumbrar o inatingível. Quantas vezes? Muitas. Paradas longínquas, picos saudosos, vales queridos, uma jangada a descer um rio desconhecido.

                  São tantas histórias. Tantas que às vezes elas vêm mesmo sabendo que não posso mais. Uma delas me marcou. Anos sessenta. Bandeiras ao vento e lá fui eu acampar. Diziam ser uma floresta virgem onde poucos entraram. Meu habitat. Um trem, saltar com ele em movimento na “boca do túnel”, uma trilha, uma floresta linda convidando para pernoitar. Dormir, contar estrelas acordar com o canto dos pardais. Sentir o cheiro da terra, do vento amigo dos pássaros emplumados e cantantes no ar. Corujas buraqueiras espantadas com meu cantar noturno em uma clareira, um pequeno fogo e vagalumes pulando como a dizer: Bem vindo escoteiro.

                 Era bom sentir os ruídos da noite, o uivo de um animal, do riacho a fazer Chuá, Chuá. Vida sublime. Sonhos refeitos, alegre e triste na hora de voltar. Um retorno sem pressa, deixar o corpo se perder em um banho no riacho que jorrava cascatas com suas águas nas pedras brancas criando espumas gostosas para sentir o sabor daquelas águas que nunca foram tocadas.

                  Sabemos que nada é para sempre. O retorno sempre é tristonho. Uma pequena estação em um arraial perdido na beira da estrada de ferro. Algumas casinhas simplórias onde o trem expresso não para. O cata-tudo, apelido do trem que pegava todo mundo estava ali, soltando fumaça na chaminé de uma Baldwin que nunca se cansava. Cheguei cedo. Gostava de ver o andar do Chefe da Estação. Educado. – “Boa tarde”! E tirava o quepe como a me saudar sem me conhecer. Ao lado uma mesa com a parafernália eletromagnética que Morse um dia inventou, as mensagens enviadas pelo telegrafista percorriam como correio eletrônico os milhares de quilômetros daquela ferrovia sem fim.

                 Contaram-me que elas davam a volta ao mundo. Outros que foram até o fim do mundo! Eu podia ouvir os sinais curtos e longos, pois um dia quando criança eu enfrentei a batalha de ser um Sinaleiro. Sentado em um banco na plataforma da estação eu esperava. Não tinha pressa. Nunca tive. Muitas vezes um olhar corre mais rápido que um raio no céu.  Do outro lado da linha um rio caudaloso sorria.

                A plataforma vazia. O trem que subia o rio chegou mansamente. Não era o meu. Eu iria descer o rio. O Chefe da Estação com seu arco a dar instruções ao maquinista que treinado não teve duvidas para enlaçar. O barulho quieto da fornalha expelindo fumaça e ar quente. Eu amava aquilo. Hipnotizado com a beleza do trem de ferro que sumiu para sempre nas esquinas da vida. Foi então que avistei um casal. Jovens. Parados em frente à entrada do vagão de primeira classe. Um olhando para o outro. Não diziam nada. Ela só tinha olhos para ele encharcados de lágrimas de amor. Ele tristonho também não tirava os olhos dela. – “Eu volto para te buscar” - Ele disse. Ela chorava baixinho. – “Nunca vou esquecer-me de você meu amor”. O último apito, um beijo simples, um roçar de lábios sedentos que não queriam se separar.

              O trem deslizando sobre os trilhos se despedia da estação sorrindo do bate volta da fornalha de rodas. Um último adeus. Ele correu e subiu nos degraus de seu vagão. Ficou ali de mãos estendidas como a dizer: Eu tenho que ir. Venha comigo! Ela chorava baixinho. Sabia que ele não iria voltar. Em pé olhava o trem apitando até sumir de vista na curva do rio. Um silêncio tomou conta da plataforma. Eu só ouvia o tic tac do telegrafo e os soluços da bela moça que havia perdido seu amor. Eu nada dizia, não tinha o que dizer. Ela estática não saia do lugar. Perdidos em uma estação de trem o mundo dela desmoronava. O meu chorava com ela. Ela se virou e me viu. Seus olhos estavam marejados de lágrimas. Eu de calças curtas com meu chapelão fiquei em pé. Queria me solidarizar. Não sabia como fazer. Ela deu um pequeno sorriso levantando o braço dizendo baixinho “Sempre Alerta”. Respondi do mesmo modo em posição de sentido. Lentamente ela se foi para seu destino.

               De novo a estação vazia. O sol já se escondera do outro lado do rio. Apenas uma leve brisa soprava para quem sabe trazer alguma notícia do meu trem. Sentei novamente e minha mente viajava sem eira nem beira. O Chefe do Trem se aproximou. – Um atraso de quatro horas... O Trem que subia desencarrilhou. Muitos feridos. O Trem que iria descer não tem como passar. Não disse nada. Não tinha pressa. Minha mente corria sobre os trilhos a procurar o trem que se foi. - Será que ele sobreviveu? Sem resposta. E ela? Como avisar que seu amor poderia ter ido para o outro lado da vida? – Calado eu matutava e chorava por ela. Não há vi mais, foi para sua morada sonhando com seu amor e sabendo que ele nunca mais iria voltar. Quem sabe é melhor assim. Dormitei no banco da estação. A noite chegou. A plataforma escura deu para ver alguns trovões no céu.


             A chuva chegou de mansinho. Os trovões sessaram.  Eu gosto do som da chuva. Ela me trás paz e tranquilidade. Ao longe um apito do trem. Era o meu que chegava. Como um pássaro gigante adentrou na estação perdida naquele arraial da moça que ficou sem seu amor. Viagem tranquila. Na minha morada meu amor dormia. Entrei de mansinho. Fui olhar meus filhos que adormecidos sonhavam com anjos do céu. Abracei minha amada de muitas vidas ali ao meu lado. Ela sorriu. Pensei no amor da outra que tinha ido para sempre. Sina marcada. Destino escrito no livro da vida. Nada do que tem de ser muda. Sonhos não vividos. Estrelas piscantes que se mantém no universo através dos tempos. Esperanças que nunca se acabam. Ainda deitado com as mãos entrelaçadas no peito lembrei-me de um poema – “Gota d’água brilhante, ainda suspensa num fio... Quando o sol quente a encontrou, partida que não teve o adeus de um lenço, história antiga que não tem mais senso, livro que o vento sem querer fechou”!

Nota de rodapé: - Uma viagem no tempo. Acampar a “Escoteira”. Hoje não mais. Fim da alegria, sozinho eu retornava. Uma estação, um trem subindo e outro descendo. Um casal se separava deixando seu amor para traz. Ela chorando viu o trem partir, eu sentando no banco da estação chorava com ela. Pensei como a vida é cruel para amantes que não podem viver para sempre. Uma historia, pouco de verdade pouco de ilusão. Uma bela noite para todos vocês!

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Contos de Fogo de Conselho. Era uma vez... Um trem dos Escoteiros.


Contos de Fogo de Conselho.
Era uma vez... Um trem dos Escoteiros.

                 Tonico estava na lida. Ao seu lado Zeca e Alfeu. Seu pai estava mais ao longe e todos capinavam a roça onde iriam plantar milho e feijão. As chuvas de março não iriam demorar e o tempo não perdoava os atrasados. Fazia semanas que eles estavam ali. A rotina de anos para o seu arroz com feijão. Tonico sonhava com a enxada na mão. Não desejava o que não tinha, mas sonhava com o que podia ter. Ele só conhecia aquela vida. Uma pequena casa de três cômodos, uma mesa com dois bancos e um fogão de lenha. Não havia luz elétrica. As noites seu pai ligava um radinho de pilha e Tonico ouvia com gosto a Voz do Brasil.

             Debaixo da Aroeira eles costumavam sentar a noite antes de dormir. Era ali que ele pensava no mundo a sua volta, mundo que não conhecia. Tonico queria estudar, mas a escola mais próxima era em Santo Agostinho. Um vilarejo a mais de trinta quilômetros de distancia. Ele sabia que seria como seu pai, como seu avô. Fazia parte de sua vida do seu destino. Sua mãe sempre a sorrir dizia: - Filho o vento traz novidades, o mundo gira, e você tem uma vida pela frente!

           Era um simples trem. Cinco ou seis vagões de passageiros. Tonico sempre o via pela manhã a passar correndo nos trilhos de aço da estrada de ferro próximo onde trabalhava. Dava uma parada na capinagem, segurava no cabo da enxada e via pelas janelas os sorrisos dos viajantes e um ou outro a dar adeus pela janela. Seu pai dizia ser o Trem Expresso para Vitória. Ele não sabia, mas o trem tinha horário e todos os dias seu pai os chamava para almoçar quando o trem passava. Sua mãe chegava levando as marmitas com um pouco de arroz, um ovo cozido e farofa que ele adorava.

           O trem seguia seu caminho deixando um rastro de fumaça de lenha que Tonico gostava de cheirar. Como um passe de mágica ouvia o ultimo apito para dizer que deviam continuar sua labuta, sua vida, sua rotina. Com doze anos Tonico não podia ser chamado de um menino triste, não era. Ele gostava quando anoitecia pegar a viola de seu pai, dedilhar uma canção e cantar baixinho imitando Tonico e Tinoco do qual sua mãe copiou e o batizou. Sua mãe fazia questão na hora de dormir eles darem as mãos e rezar um Pai Nosso pedindo a Deus para nada faltar àquela família.

           Naquele dia Tonico ouviu o apito do trem despontando na curva do Rio Doce correndo feito um louco em cima dos trilhos de aço. Para sua surpresa desta vez ele diminuiu a velocidade, parou bem em frente onde Tonico, Zeca e Alfeu capinavam. Tonico sorriu quando viu que o trem parando. Não entendia porque ele parou. Da janela de um vagão meninos de chapéu grande acenavam para ele. Quem eram? Tonico sorria sem saber do porque o sorriso. Quem sabe pelos meninos de roupas iguais? De chapéu grande? De lenço no pescoço?

           Ah! Tonico daria tudo para saber quem eram eles. Lá onde estava ouviu o cantar deles no trem das onze, hora para eles almoçarem, pois sua mãe estava chegando. Mas ele prestou atenção no cantar na letra e sabia que nunca mais iria esquecer: - ¶ “Escoteiros sempre avante, pois nos vamos acampar, bem além do horizonte, lá na serra do além-mar”. Tonico sorria, ele gostou da canção. Aprendeu os primeiros versos e acordes. Sabia que a noite ele iria cantar e seu pai e sua mãe iriam ouvir sem saber o que significava.

              O trem das onze começou a andar devagarinho. Um apito estridente ecoou pelo céu azul como a dizer – “Eu quero passagem, eu preciso seguir meu destino”! Tonico sem perceber começou a correr ao lado do trem. Ele corria junto à janela daqueles meninos de roupas iguais com lenço no pescoço e uns chapéus enormes. Os meninos correram para a janela e começaram a bater palmas para ele, um deles lhe jogou um lenço e Tonico saltou como uma onça e o pegou no ar. Era seu troféu. Um lenço azul cor de anil. Apertou com suas mãozinhas no peito o presente que ganhou daqueles meninos de roupas iguais, um lenço no pescoço e chapéus grandes na cabeça.

              O trem foi mais veloz que Tonico e sumiu na curva do Boiadeiro, onde Tonico, Zeca e Alfeu e seu pai voltavam à noitinha para casa após a capina. Tonico parou e nem sabia no que pensar. Tonico chorava e não sabia se de alegria, de tristeza e de saudades daqueles meninos de roupas iguais, de um lenço no pescoço e de um chapelão na cabeça.

            Ouviu seu pai lhe chamando para almoçar. Hoje iriam comer correndo, pois no céu nuvens negras se formavam. Em nenhum momento Tonico esqueceu o trem das onze, dos meninos de roupas iguais, da canção que cantaram para ele e do lenço que deram a ele de presente. Seria seu troféu por toda a vida. Enquanto almoçava Tonico pensava. O que eles iriam fazer? Para onde iriam? Será que eles conhecem a Mata do Tenente? Será que eles algum dia cantaram aquela canção ao som de uma viola em volta de uma fogueira? Tonico não sabia.

           Tonico sabia que eles sorriam muito, que eles cantavam que eles eram muitos e que ele nunca mais iria ver aqueles meninos sorridentes de roupas iguais, lenço no pescoço e um chapelão na cabeça. Tonico voltou naquele dia para casa tristonho, e pela primeira vez pensou que ele também poderia ser um deles. E naquele dia Tonico sonhou. Um sonho lindo, ele no trem das onze, na janela cantando, todos se abraçando e partindo para um lugar maravilhoso, que ele só imaginava, pois nunca esteve lá.

            Nunca mais Tonico viu os meninos de roupas iguais, de lenço no pescoço, com um chapelão na cabeça e dentro do trem das onze. Tonico nunca mais esqueceu aquele dia e hoje, já homem feito, na mesma roça que antes era do seu pai, junto ao seu filho Felipinho, quando o trem passava ele contava a mesma história, cantava a mesma canção, dos meninos de roupas iguais, de lenço no pescoço e de chapelão. Felipinho sorria sempre quando ele contava a história do trem das onze para Vitória.


           Felipinho no seu sorriso de criança ficava a imaginar como devia ter sido a parada do trem, os meninos de lenço e chapéu grande, o trem apitando e todos abanando as mãos dizendo adeus. Ele não pode ver quem esta dentro dos vagões. Não dá para ouvir canções e sorrisos. Pois é, a vida é assim. Tem aqueles que podem viver um sonho tem aqueles que podem sonhar, mas nunca irão viver o sonho. Quem sabe um dia um trem de escoteiros irá de novo passar para Felipinho ver? 


Nota de rodapé: - Nunca reclamou da sua vida, da capina na roça, do amor de sua mãe e seu pai. Nasceu com uma enxada nas mãos, comia abobora com farinha de mandioca e a noite tocava o violão do seu pai. Depois que viu o trem dos escoteiros cantou por toda sua vida a canção que eles ensinaram para ele: - ¶ “Escoteiros sempre avante, pois nos vamos acampar, bem além do horizonte, lá na serra do além-mar”.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Lendas escoteiras. O último adeus!


Lendas escoteiras.
O último adeus!

                        Estou aqui, como sempre faço todas as tardes, sentado em um banquinho que fiz e que eles disseram ser uma pioneiría, na volta do Rio das Flores, esperando por eles e nem sei se vão mais voltar. Sei que não virão, mas sonho um dia ver todos de volta, cantando, brincando naquele ônibus cheio colorido. Quando penso em tudo que aconteceu, meus olhos se enchem de lágrimas. Foram os dias mais lindos da minha infância. Dias que nunca, mas nunca mais vou esquecer. Quatro dias de felicidade!

                        Morava em uma pequena casa de pau a pique, próximo a Fazenda Esperança. Meu pai trabalhava na fazenda do Senhor Coronel Alcebíades, e tínhamos uma casinha pequena, de adobe. Éramos quatro. Eu, meu pai, minha mãe e meu irmão de três anos. Uma família feliz. Toda manhã eu ia para a escola na fazenda do Coronel, a única escola da redondeza. Eram quatro quilômetros que eu fazia correndo. Ajudava meu pai na lida da capina e a tarde nadava no rio. Diziam que nadava como um peixe.

                       Numa quarta feira vi um ônibus colorido, cheio de cantorias que se dirigia a fazenda do coronel. Cortei caminho e do alto da Morada do Gigante vi dois homens de calça curta e chapelão conversando com o Coronel. Ele fez sinal para mim e disse que os levassem até A várzea, perto do rio e do bambuzal. Não falou mais nada. Entrei no ônibus.  Todas as crianças da minha idade, rindo, brincando me chamando de Sempre Alerta. Meu nome é Tonho, mas tudo bem.

                       Estava com vergonha deles e fiquei em pé bem na frente do ônibus, mas olhando todos de rabo de olho. Chegamos, eles desceram. Juntaram a tralha e ficaram esperando a chamada. Logo eles fizeram um meio circulo próximo a um pé de amora, o tal do "Chefe" Escoteiro passou uma cordinha, e colocaram a bandeira do Brasil. Fiquei de longe olhando. Meus olhos estavam fixos na meninada. Eles corriam aqui e ali. Cada turminha fez um cercado, armaram barracas e foram cortar bambus.

                      Olhei o sol e vi que mamãe estaria preocupada. Corri até em casa e contei as noticias. Pedi a ela e o papai se me deixavam ficar lá olhando. Meus pais nunca ralharam comigo. Almocei correndo um prato de abobora com peixe frito. Voltei ao lugar que eles estavam. Várias barracas, e eles construíram alguma coisa que não entendi e a fumaceira pegou fogo em todos os cercadinhos deles. O sol já se pondo e foram tomar banho no rio. Um deles tentou atravessar. Começou a fazer sinais. Corri lá. Pulei de roupa e tudo. Era bom nadador apesar dos meus doze anos.

                   Tirei-o da água. Os chefes começaram a beijar e ele voltou a respirar. Agradeceram-me. Bateram uma palma esquisita. Chamaram-me de herói. Disseram que se quisesse ficar em uma Patrulha era só escolher. Nem sabia o que era isso, mas um loirinho me fez um sinal e fui. Disseram que eram os Touros. Dei risada. Aqueles fracotes Touros? Mas foi bom. Ensinaram-me a dar sempre alerta, a gritar o tal grito da Patrulha, a entender os sinais do "Chefe" Escoteiro para formatura. 

                   Durante os quatro dias eu brinquei com eles. Corremos na mata. Pulamos a cerca do Boi Lamego, fomos até a subida do Catatáu. Mostrei a eles o canto do sabiá, do pássaro preto, mostrei como fazer o tatú sair da toca. Eles me ensinaram nós e quiseram ensinar sinais de pistas. Dei risadas. Nunca iriam pegar uma seriema contra o vento. 

                  Quatro dias maravilhosos. Comi a comida deles, ruim à beça. Sem sal. Mas eu ria e eles riam. Um dia cozinhei para eles. Gostaram. Até o "Chefe" Escoteiro veio tirar um sarro. Um deles deu dor de barriga, levei para ele a fruta do pastor. Chupou a fruta e sarou. No ultimo dia fizeram um fogo. Cantaram, gritaram, bateram palmas, contaram causos, fizeram teatrinho e depois em volta da fogueira cantaram uma linda canção que só guardei uma parte. “Não é mais que um até logo, não é mais que um breve adeus”. Sabe me deu uma vontade enorme de chorar quando eles cantavam.

                   No ultimo dia desmontaram tudo. Fizeram uma limpeza em todo o campo. Na bandeira o "Chefe" Escoteiro deles me chamou. Dissera que eu era um Escoteiro honorário. Mandou-me ficar durinho, e fiz o sinal deles. Fizeram-me repetir a promessa deles. Prometo pela minha honra... Foi lindo. Foi demais. Depois ele me colocou o lenço deles. Chorei. Abraçaram-me. Chorei. Deram os gritos que chamavam de Patrulha. Chorei.

                 Disseram-me Adeus e partiram. Eu chorava. Entraram no ônibus. Eu fiquei ali em pé, ao lado do mastro de bandeira como eles chamavam. O ônibus virou a curva do rio buzinando. Um silêncio atroz. Chorava. Chorava. A tarde veio. Não arredei o pé. Não podia sair dali. Via todos eles cantando, brincando e me abraçando. Se saísse toda essa ilusão iria desaparecer. A noite chegou de mansinho. O orvalho caindo. Eu chorando. Não parava de chorar. Eu sonhava que eles voltariam, mas sabia que isso não ia acontecer.

                Meus pais chegaram e me levaram. Não queria ir. O dia amanheceu. Como sempre voltei a minha rotina. Escola, trabalhar na roça com meu pai e as tardes ia sentar no meu banquinho lá na curva do rio. Olhava o horizonte quem sabe, um ônibus viria novamente! Meus olhos enchiam-se de lágrimas. Agora não chorava mais. A dor que sentia era no meu coração. Uma dor doída. Lembranças, lembranças que machucavam. Que dias lindos maravilhosos eu tive e se foram.

                 Durante muitos anos minha memória trazia de volta os dias felizes que com eles passei. As saudades permaneceram por longo e longo tempo. Meu Deus! Daria tudo para vê-los novamente! Sabia que não ia acontecer. Quando foram eu ainda não sabia, mas era o último Adeus. Um adeus sem volta. Sem retorno. Todos os domingos sentava próximo no mastro da bandeira deles. Agora seco, mas firme. Eu não deixava cair. Chegava com meu lenço, ficava durinho e dava sempre alerta. Olhava uma bandeira invisível sendo erguida e chorava.


               Não sei quantos anos se passaram. Cresci, casei, tenho filhos. Nunca mais vi os escoteiros. Quantas saudades que permanecem na minha lembrança e não se apagam. O ultimo adeus! Sim, foi o último adeus daqueles que fizeram de mim, um homem feliz. Quatro dias.  Quatro dias! O ÚLTIMO ADEUS! 

Nota de rodapé: -   O menino morava na roça. Conheceu uma tropa de Escoteiros. Nem sabia que eles existiam. Por uma escolha do destino conviveu com eles em um acampamento. Quando foram embora ele chorou, uma dor doida machucada e que permaneceu com ele por muito tempo. Nunca na vida alguém tinha tratado ele como aquele Chefe e o monitor da Touro. Até hoje nunca esqueceu. Uma história, um conto. Convido vocês a lerem e viver como o menino se sentiu quando eles partiram.

domingo, 5 de novembro de 2017

Conversa ao pé do fogo. Um sonho de liberdade.


Conversa ao pé do fogo.
Um sonho de liberdade.

        Jacob desde pequeno sonhava em ser Escoteiro. Sua cidade Ramallah na Palestina nunca teve um Grupo Escoteiro. Eles viviam em sobressalto devido às divergências entre países e Jacob não entendia o porquê eles não davam as mãos e viver em paz e como irmãos. Jacob nasceu em Flores da Cunha uma pequena cidade no interior de Pernambuco. Um dia seu pai juntou a família e partiu para a Palestina. Disse que lá era seu lugar. Seus avós lutaram até a morte para serem livres. – Livres? E quem é livre? Pensava Jacob. Ele mesmo tinha lido em um livro que a verdadeira liberdade é um ato puramente interior, como a verdadeira solidão: devemos aprender a sentir-nos livres até num cárcere, e a estar sozinhos até no meio da multidão. Jacob nos seus onze anos era um sonhador. Nunca imaginou viver em uma cidade onde o medo de morrer era uma constante. Medo? Mas qual palestino tinha medo? Eles sempre não diziam que dariam sua vida pela liberdade de sua terra?

      No inicio a curiosidade e o modo de vida chamou a atenção de Jacob. Viu sua mãe e sua irmã Natividad mudarem completamente. Agora viviam fechadas dentro de casa e quando saiam colocavam véus para ninguém poder reconhecê-las. Alguns meses depois se acostumou. A rapaziada andava com um fuzil no ombro e gritando palavras de morte ao usurpador. Jacob não entendia nada. Lembrava-se de sua terra onde nasceu, uma cidade cheia de paz e harmonia. Lembrava-se das histórias que seu pai contava e como ele ria quando viajava nos seus pensamentos vivendo as aventuras escoteiras de seu pai. Ele tinha sido Escoteiro. Contou que fora Monitor de patrulha, fizeram centenas de acampamentos, beberam água da fonte, nadaram contra a correnteza para pegar peixes grandes com a mão na época da piracema. Jacob com seus olhinhos miúdos ouvia com atenção historias contadas pelo seu pai.

      No seu pensamento ele sonhava quando chegasse a Ramallah ser um Escoteiro. Ele aprendeu com seu pai a lei e a promessa. Um dia seu pai lhe mostrou o uniforme e Jacob pediu humildemente ao seu pai para vesti-lo. Foi autorizado, mas só dentro de casa. Nunca na rua ou nos montes próximos. Ele tentava entender esta guerra sem fim. – Filho esta terra é nossa. A Terra Prometida sempre fora dos nossos antepassados. Havia mais de cinco milhões de judeus vivendo lá, e a chamavam a terra de Israel. Havia outros árabes que também se julgavam donos da terra, que chamavam Palestina. Seu pai sorria e completava: - Lutamos por nossa liberdade! – Temos direitos de reivindicar o que é nosso. Não se alcança quando nosso estado de consciência não luta pelos seus direitos. Um bom Palestino deve ser imune aos sofrimentos, do orgulho, do ciúme e da vaidade. 

         - Eleazar tinha dezenove anos. Ele era um soldado Israelense. Morava em um kibutz de nome Kfar Aza próximo a Faixa de Gaza. Eleazar era brasileiro. Nasceu em Terra Nova uma cidade ao norte da capital do estado do Paraná. Tinha uma vida tranquila e feliz. Pudera, Eleazar era sênior e sem ninguém saber amava Angelina. Angelina era Guia e todos queriam ser seu príncipe encantado. Eleazar tinha conquistado o Lis de Ouro e partia agora para o Escoteiro da Pátria. Eleazar sonhava em casar com Angelina e ter sua casinha pintada de branco com muitas flores. Teriam muitos filhos também. Sonhos de menino homem que ainda não tinha abandonado a puberdade. Um dia estava com ela de mãos dadas. Levou uma pancada nas costas. Era o senhor Mujahid o Pai dela. Um homem mau. Soube que foram embora da cidade. Voltaram a sua terra na Palestina.

       Quando Eleazar fez dezoito anos procurou o Consulado de Israel. Queria ir para lá e garantiu que seria um bom soldado. Sempre foi um Escoteiro. Conhecia as técnicas de travessias, da camuflagem, de campismo e sempre fora obediente e disciplinado. Dois meses depois Eleazar foi embora para Israel. Sua mãe nunca aceitou e seu pai calado não disse nada. Eleazar sonhava em encontrar Angelina. Iria atrás dela onde quer que fosse. Seu amor era grande demais para esquecer. Iria dizer ao senhor Mujahid que não tinha ódio. Ele era um Escoteiro, puro nos seus pensamentos nas suas palavras e nas suas ações. Seis meses depois nenhuma noticia de Angelina. Ele ia disfarçado de cidade em cidade na Palestina e nada. No Kibutz era bem considerado e todos o achavam um bom soldado.

       Um dia Eleazar vestiu seu uniforme Escoteiro. Gostava de vestir. Sentia-se bem com ele e sempre ia para os montes próximos e lá recordava de sua juventude, de seus sonhos do seu amor que se foi como o vento para nunca mais voltar. Ele gostava de deitar em baixo de uma Oliveira e ver as estrelas brilhando no céu. Seu instinto lhe mostrou que alguém se aproximava. Olhou com atenção. Era um menino de uniforme escoteiro. Assustou, pois ali não havia Grupos de Escoteiros. Ele não sabia que era Jacob, o filho de um palestino que desobedecendo às ordens do pai subiu na montanha com uma pequena bandeira do Brasil que ele achou nas coisas do pai. Cada um viu o outro por um prisma. Um achando que encontrou um irmão Escoteiro e outro desconfiado do adulto uniformizado com um fuzil engatilhado.

           Aharon era um bom piloto.  Serviu na Força Aérea Brasileira por muitos anos. Deixou Guaratinguetá e foi para São José dos Campos como piloto de testes dos novos caças encomendados pela FAB. Gostava do que fazia e muito mais do Grupo Escoteiro Flores Vermelhas onde ajudava na Alcateia. Um dia um Major da força Aérea da Palestina disse que precisavam de bons pilotos para treinar a nova esquadrilha de caças que compraram. Seria por cinco anos e o salário era muito bom. Não titubeou e partiu. Sentia muitas saudades de sua terra e de seu grupo Escoteiro. Em uma inspeção de rotina na fronteira ele estava em um Super Tucano EMB-314 da Embraer ele avistou o impossível. Dois Escoteiros se abraçando no Monte Ararat. Quem seria? Um era um Escoteiro e o outro devia ser um Chefe. Fez um voo rasante para dar as boas vindas e dar o seu sempre alerta. Uma bateria de mísseis israelenses viu a aproximação do Tucano em baixa altitude e abriu fogo.


             O Super Tucano explodiu e atingiu os dois Escoteiros que se confraternizavam naquele monte onde Noé aportou sua Arca. A história termina aqui. Sonhos escoteiros que nunca se realizaram. No céu uma nuvem azul e branca levou três Escoteiros cujos destinos já estavam programados para ficarem juntos pela eternidade. Um dia quem sabe teremos liberdade suficiente para podermos decidir nosso destino conforme nossos sonhos. Todos ansiamos desde muito cedo na vida por mais liberdade. A liberdade é, para nós, essencialmente relacionada à realização de nossos desejos. Queremos fazer tudo, experimentar tudo, sem sermos tolhidos em nossos anseios de descoberta do mundo por quem quer que seja. - Escotismo, um sonho de liberdade!

Nota de rodapé: - Três escoteiros unidos pelo mesmo ideal. Um fim trágico, mas programado no livro da vida no céu. Um era menino, outro um soldado brasileiro em Israel e outro Escoteiro e Piloto de caça na Palestina. A realidade costuma pregar peças em contos sem mistério e sem final feliz. São meus convidados, um Sonho de Liberdade ainda poderá ser real quando o escotismo colocar a paz e amor no coração de todo ser humano. Sempre Alerta!

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Contos de Fogo de Conselho. O Chefe Escoteiro infeliz.


Contos de Fogo de Conselho.
O Chefe Escoteiro infeliz.

                        Havia em um Grupo Escoteiro em uma cidade muitíssimo distante, um Chefe que foi distinguido pelo poder e honras pela sua capacidade em ensinar a seus jovens. Entretanto, não obstante seu saber e opulência nas lides Escoteiras vivia intranquilo e se sentia extremamente infeliz. Isto preocupava seus amigos do escotismo, assim como sua família e conhecidos. O Conselho de Chefes se autoconvocou para dar uma assistência especial, a fim de devolver-lhe a alegria. Mas embora houvessem feito tudo o que podiam para minorar a tristeza na qual mergulhara o seu Chefe mais querido, nada conseguiram de positivo. Todos os esforços foram insuficientes para alterar a situação e isto estava prejudicando sua Tropa escoteira e ao próprio Grupo Escoteiro.

                      Um dia chegou naquele Grupo Escoteiro uma notícia de que num pequeno vilarejo bem afastado do seu estado, vivia um Velho Chefe Escoteiro que todos chamavam de Raposa Cinzenta, notável pelo seu conhecimento e de uma piedade imensurável. Por unanimidade o Conselho de Chefes aprovou uma verba para o Chefe Escoteiro infeliz ir procurá-lo. Depois de algumas semanas de viagem, ele encontrou O Chefe Raposa Cinzenta na periferia de um povoado insignificante, nas proximidades de um local ermo e sem atrativos. Descansando sua mochila após percurso tão cansativo e angustioso, ele estava afadigado e com o semblante abatido.

                      Cansado sem maiores delongas e rodeios falou ao Chefe Raposa Cinzenta: - Sempre Alerta amado Chefe. Aqui estou depois de longa e penosa viagem, à procura de orientação que me traga a paz, a segurança e a felicidade que há tanto tempo perdi e não há quem me ajude a recuperá-las. Conto com sua sabedoria e experiência escoteira. Faça algo por mim! – Sem nada responder Raposa Cinzenta conduziu o Chefe através das veredas escarpadas da montanha ali bem próxima, até atingirem o seu ponto mais alto. Foi uma escalada penosa e cansativa.

                       Ali, no cume da montanha, os dois pararam exatamente no lugar onde uma águia havia construído o seu ninho. O Chefe estava impressionado com a imensa altura onde fora parar e sem saber por quê. Mas foi ali que Raposa Cinzenta encarando o Chefe, indagou: - Por que teria a águia construído o seu ninho aqui nas alturas? – Ora essa! – Respondeu o Chefe, é óbvio que aqui estará isenta dos perigos. – Pois bem, proceda também assim, sentenciou o Chefe Escoteiro. Construa sua casa, e sua morada no céu e terá paz, segurança, alegria e tranquilidade perene. Porque só ali essas coisas são garantidas. Na terra, jamais!

                     Pois é, a vida é assim. O Chefe desta parábola representa a cada um de nós que labutamos no escotismo e sempre sonhamos tanto com a felicidade... Mas a felicidade não está numa carreira de sucesso, em ser reconhecido com um grande líder Escoteiro. Não está na popularidade encontrada entre seus pares e nos parabéns através de promoções ou presentes em forma de condecorações recebidas. Tudo isto pode trazer alegria, mas alegria que passa se não for acompanhada daquilo que realmente importante e nos faz felizes.

                  A lição de como alcançar a felicidade está na semelhança da águia, pois construindo nossas vidas nas alturas podemos sonhar que fazendo o bem poderemos alcançar para sempre uma maneira correta de sermos felizes para sempre!


- Baseado na parábola do Rei infeliz.    

Nota de rodapé: - “Existem coisas melhores adiante do que qualquer outra que deixamos para trás.” “O que passou, passou, mas o que passou luzindo, resplandecerá para sempre”. Bom fim de semana para todos.

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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