sexta-feira, 10 de junho de 2016

Tarde demais para esquecer.


Lendas Escoteiras.
Tarde demais para esquecer.

                         Nunca esqueci quando tudo começou. Oito anos atrás. Não fosse o Chefe Mascarenhas meu destino teria sido outro. Mas Deus é quem decide, se ele decidiu assim é porque eu teria de passar por isto. Chefe Mascarenhas apareceu em Águas Calientes para consertar um moinho que comprei com a poupança do meu pai falecido. A herança me permitiu viver trabalhando e nada me faltava. Tinha cabeça para isto. Não me dei mal. Chefe Mascarenhas ficou na minha casa. Eu mesmo insisti para que ficasse. Gente boa, com seus cinquenta e poucos anos era bom de papo e muito simpático. Era escoteiro. Falava maravilhas da organização. Quem o ouvisse ficava deslumbrado e querendo ser um deles. Acampavam, faziam sua comida, tinham técnicas mateiras de construção, exploravam grutas, picos impossíveis e imagináveis para um menino conhecer. Faziam boas ações ajudando as pessoas e tinham um código de honra sagrado para eles.

                Interessei-me. – Chefe Mascarenhas! Será que poderíamos fazer um escotismo aqui em Águas Calientes? - Perguntei. – Claro que sim. Alguém tem de dar os primeiros passos e no que for possível eu lhe ajudo. Não faltou ajuda. Alberto o Prefeito, o Doutor Lanes Juiz de direito todos encantados com a ideia. A Rádio local dizia que tudo ia mudar com a juventude de Águas Calientes. Nas inscrições mais de cinco mil crianças. Um pandemônio. Fiquei aterrorizado. Chefe Mascarenhas me aconselhou: - Comece com poucos. Máximo de oito. Treine-os. Serão seus Monitores. Depois de três meses vá aceitando e formado as patrulhas. Os lobinhos não tem problema com a quantidade. Veja alguém para dirigir a Alcatéia. Arrume umas quatro pessoas para diretoria. Vou arrumar para você uma autorização provisória. Consiga um local para as reuniões e um salão para a sede. Depois falamos mais. Eufórico eu sorria de felicidade. A cidade reclamava porque não colocava todos de uniforme a marchar pelas ruas centrais. Pais e mães chorosos faziam pedidos pelos seus filhos.

                        Adorava meus Monitores. Viviam nas horas vagas em minha loja. Aos sábados na sede do Grupo Municipal Santo Expedito. Aprendíamos juntos tudo sobre escotismo. Acampávamos quase todos os fins de semana. Chefe Mascarenhas me mandou uma boa biblioteca. Em dois meses fui a capital fazer um curso. Estava em ponto de bala. A Patrulha de Monitores vivia para o escotismo. Escolheram como símbolo o Tuiuiú! Virou tradição a patrulha Tuiuiú dos Monitores. A Promessa foi feita dois três meses depois. Uma professora do Grupo Escolar aceitou meu convite para os lobinhos. O grupo foi crescendo e apareceram pais para ajudar. Nada faltava. No desfile de Sete de Setembro eu há vi pela primeira vez. Milena. A mais linda moça que tinha visto. Linda, simpática, cabelos loiros, curtos uma época que Doris Day e Grace Kelly enfeitavam as tela de cinema. Paixão a primeira vista. Minha alma gêmea.

                      Cinco meses depois fiquei noivo. A mãe de Milena me preveniu sobre ela – Muito possesiva Chefe. Sempre querendo ser a dona de tudo. Mas o amor esquece tudo. Nada poderia impedir uma grande paixão. No meu casamento a escoteirada toda na igreja. Queria casar de uniforme, mas ela foi contra – Nem pensar Mario Montes nem pensar! Já mandei vir da capital um legitimo terno inglês da melhor casimira! Assim começou tudo. Ela aos poucos me foi dominando. Sempre decidindo a minha vida. Meu amor por ela era grande demais e aceitava tudo. Ela criticava meu modo de vida e os escoteiros. Aos poucos minha vida se transformou em um inferno. Eu a amava e quase deixei o escotismo por ela. No grupo todos ficavam penalizados com minha vida pessoal. Ela ria de todos e dizia que o escotismo afasta as pessoas e a família. Ela não queria isto para a família que nós iriamos fazer.

                   Eu ia para as reuniões Escoteiras angustiado. A rotina que fazia de muitos acampamentos e atividades ao ar livre foram aos poucos acabando. Já não era belo como antes. Milena se interpunha a tudo. Tudo aconteceu muito rápido. Milena começou a sentir dores no seio. Alguns exames e acharam dois tumores enormes. Ela teria que operar. Chorou muito. Perder os seios para ela seria o fim do mundo. Não teve jeito. Operou. Em casa só chorava. Meu coração partia de dó. Ver a pessoa que a gente ama sofrer não é fácil. Minha vida meu trabalho e o Grupo Escoteiro Já não era como antes. Tirei uma licença de alguns meses. Os meninos sentiam minha falta, mas precisava olhar Milena. Cada dia um sofrimento. Ela começou a sentir fortes dores. Fomos para a capital. Os médicos não deram esperança. Mais dia menos dia Milena iria partir. Eu nunca fui espiritualista. Uma época que em nossa cidade pouco se falava sobre isto. Milena um dia me procurou – Mario Montes quero que você me prometa. Quando eu morrer você não vai mais para o grupo escoteiro. – Porque meu amor, por quê? Ela nada dizia. Seu semblante mudava. Parecia estar possuída. – Meus olhos ficaram vermelhos. Minha cabeça não sabia o que pensar. E o escotismo? Oito anos e tinha de deixar tudo para trás? Eu a amava, mas iria trair minha consciência? Enganar a vida e a morte? Ou enganar a mim mesmo?

                 Um dia ela não andou mais. Morreu dois meses depois. Eu entendia o desejo dela. Amava-me demais e mesmo morta não queria dividir. As exéquias foram simples. Duas semanas resolvi abandonar a cidade. Peguei minha mochila, coloquei na porta da minha loja um aviso que ficaria fechado por algum tempo. Precisava pensar. Raciocinar. Fui acampar sozinho nos Montes Pirineus próximo à fazenda Além Mar. Armei a barraca e nem fogo fiz. Não tinha fome. Olhava para o céu, para as árvores, ouvir o cantar dos pássaros. Meus olhos vermelhos. De madrugada acordava e me punha a chorar. Nunca Milena falou comigo. Nunca me deu um sinal. Resolvi voltar à cidade. Na rua caí desfalecido. Levantaram-me. Agradeci. Ao seguir pra casa passei em frente à igreja aonde casei. Estava aberta. Resolvi entrar. Ninguém ali. Sentei próximo a uma imagem de Santa Terezinha. Entre os bancos vi uma bíblia, aberta em uma página. Olhei com curiosidade e comecei a ler devagar, calmamente, já respirava melhor. “O amor é paciente, o amor é bondoso”. Não inveja, não se vangloria não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca perece... Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor. – Meus olhos encheram-se de lágrimas.


                    Um padre sentou ao meu lado. Perguntou-me o que houve. Contei tudo como se fosse em confissão. Ele sorriu me abençoou e falou baixinho: - Disse-lhe Tomé: “Senhor, não sabemos para onde vais; como então podemos saber o caminho?” – Respondeu Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim”. Passaram dez anos. Nunca esqueci de Milena. Tenho lembranças felizes dos nossos doces momentos que passamos juntos. Ainda continuo viúvo. Houve pretendentes, mas nada que me fizesse voltar a casar. Quer saber? – tinha medo. Medo de que a nova mulher dos meus sonhos fosse exigir de mim o que não posso prometer. O meu escotismo sempre morou em meu coração! Para mim é uma chama que marca e ficará para sempre dentro da minha alma.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Carlito.


Carlito.

                 Balu! O que é honra? – Carlito me pegou de surpresa. O que responder? Ele um Lobinho de oito anos precisava ouvir minha explicação conforme sua idade permite. Afinal dizer a ele que Honra é um princípio que leva alguém a ter uma conduta proba, virtuosa, corajosa, e que lhe permite gozar de bom conceito junto à sociedade, podia não entender. – Olhei para Carlito. Sério, me olhando e esperando uma resposta. – Gaguejei e falei o que podia falar: - Carlito é o que seus amigos esperam de você, que seja bom, amigo, respeitador, estudioso e cumpridor da Lei do Lobinho. Ele me olhou não acreditando muito. – Só isso Balu? – Falar mais o que? Completar que é um princípio de comportamento do ser humano que age baseado em valores bondosos, com honestidade, dignidade, valentia e outras características que são consideradas virtuosas?

                  Rezei para ele sorrir, me dar um melhor possivel e voltar para sua matilha. Mas ele não fez nada disto. Achegou-se mais perto e me olhando com aqueles olhos castanhos brilhantes nem sorriu e me sapecou mais uma pergunta – Balu! E Caráter? O que é? Danado de Lobinho. Deixando-me na berlinda com uma simples resposta. Nunca fui um estudioso destes temas. Sei que falamos nele diariamente. A imprensa cobra, na escola a professora exige e os pais se sentem orgulhosos quando vêem seus filhos agindo como um homem ou mulher de caráter. Tentei mastigar uma resposta. – Carlito, isto é o que os bons lobinhos têm de melhor. Agem e reagem como um lobo de Seeonee em sua alcatéia. É chamado de formação moral. A firmeza e coerência de atitudes. Ele me olhou como não estivesse entendo nada. – Tentei remendar: - São qualidades e defeitos de uma pessoa que vai determinar se sua conduta e sua moralidade podem dizer se ele tem caráter. Pense bem Carlito, se você é obediente, fala a verdade, tem moral que todos respeitam então existe coerência em suas ações, assim todos vão respeitá-lo pelo seu procedimento e comportamento.

                  Sorri para mim mesmo pensando ter dado uma boa resposta. Se ele tivesse me perguntado de Mowgly, da Roca do Conselho e da Flor Vermelha eu iria responder com gosto. Mas não, ele queria saber o que era honra e caráter. Deve ter ouvido em sua casa os comentários que estão fazendo hoje de muitos homens e mulheres que respeitavam e agora viram o outro lado de cada um. Baden-Powell um dia disse que não existe nenhuma escola com a disciplina de como formar caráter e honra. Muitos dizem que a família é responsável. E o escotismo não pode servir também para ajudar na formação de jovens com honra e caráter? Sei que sim. A lei do Lobo, A lei do Escoteiro tem tudo para mostrar o caminho a seguir. Mas se você não age como tal como dizer como deve ser o lobo com honra e caráter?


                   Carlito ouviu gritarem Lobo, lobo, lobo! Olhou-me e olhou para a Akelá. Queria saber mais e preferiu não continuar comigo. A disciplina que trazia dentro de si dizia sem sombra de duvida que obedecer era ter honra e caráter. - Gritou alto - Lobo! E saiu correndo em disparada para a formação do Grande Uivo.

domingo, 5 de junho de 2016

A morte de João Liborno teve uma festa no céu.


Lendas Escoteiras.
A morte de João Liborno teve uma festa no céu.

                  Quer saber? Eu conheci João Liborno. Tudo bem, eu sei que muitos que o conheceram se arrependeram. Mas eu não. Disseram-me que ele era prepotente, não sabia abaixar a cabeça, se achava o dono do mundo. Nunca pensei assim, quem sabe por que entrei em sua alma, seu coração e sua vida. Não pensem que tenho premonição, conhecimentos de psicologia, que sou um adivinho ou um religioso a ponto de conhecer alguém por dentro. Mas João Liborno tinha algum especial. Seu olhar. Olhar? Podem me dizer o que quiserem, ele era mesmo alguém especial. Mal educado eu sei que era. Valente então? Sempre tinha uma resposta na ponta da língua, mas meu Deus! Que faria o que ele fez? Juro que já vi igual, mas melhor não. Quando o Prefeito Zeca do Som sabia que ele estava na prefeitura a sua procura se escondia no banheiro. Quando o delegado Jacutinga era informado que ele estava aprontando, pegava sua varinha e ia pescar no córrego do Cavalo Doido.

                  Tudo porque detestava um não. Achava que todos deviam ser como ele. Afinal o que João Liborno fazia? Nada que as autoridades deviam fazer e não faziam. Ele recolhia os pedintes, os enfermos jogados na rua e os levava para seu galpão. Isto mesmo ele com as próprias mãos fez um galpão. Não tão grande, mas com a nossa ajuda e dos pioneiros dava para quebrar o galho. Dizem que seu galpão era igual coração de mãe, sempre cabe mais um. Nunca passei por lá e vi ele vazio. Sempre cheio de gente. Gente? Indigentes isto sim. Doença de chagas, doentes de pulmão, doentes de AIDS, pobres que não tinham onde dormir. João Liborno nunca foi médico e nem enfermeiro. Dizem que ele era um excelente Chefe Escoteiro até que um dia o mandaram embora do grupo que ajudava. E quer saber? Foi tudo futrica fofoca da oposição. Não tem no escotismo? Oposição? Pois sim que não tem.

                  João Liborno foi Escoteiro sênior e pioneiro. Assumiu a Tropa Sênior em meados de abril de 1956. Os seniores faltavam pouco carregá-lo de tão contentes. O danado nem ligava, mas pegava os seniores e ia sempre onde ninguém nunca foi. A inveja começou aí. O disse me disse das comadres no Grupo Escoteiro. – Um dia ele vai trazer nos braços alguém morto, dizia uma, não duvido dizia outra. Mas João Liborno tinha feito as pazes com Deus. Dizem que hoje em dia não tem mais comadres nos Grupos Escoteiros. Sei não! – Tonico Caroço que o diga. Chefe da Tropa Escoteira exigiu que todos fossem tratados igualmente e ninguém iria receber nenhum distintivo se não o merecessem. O Pai de Constantino ficou uma fera. Procurou o Chefe Tibúrcio e disse – Ou ele ou eu! O que houve Natalino? Meu filho Chefe, o senhor sabe que me mato aqui no grupo, faço tudo, levo para os acampamentos em minha Kombi, pago em dia minhas mensalidades e agora ele está negando dois distintivos e cinco especialidades ao meu filho.

                 O caldo cresceu e entornou. A chefaiada dividida. Na reunião de chefes do grupo metade pedia sua saída, a outra metade dizia que se saísse sairia com ele. Melhor procurar o distrital. João Liborno não gostava de pais que se intrometiam na Tropa ou Alcatéia. Mas Natalino era Juiz de Direito da cidade e diziam que seria o futuro prefeito. Dizem que politica e escotismo não se misturam, mas ali em Pau D’Alho era diferente. João Liborno foi chamado. O distrital já o tinha encravado na garganta. Quantas vezes aprontou? Quantas vezes criou caso por uma simples questão de semântica? Agora o prefeito Bafudonça lhe telefonando todo dia porque ele fez um galpão e lá esta alojando a “peste negra” da cidade. Não tinha jeito. Mandou uma carta para João Liborno avisando que um processo estava em andamento e enquanto isto ele estava suspenso de suas funções. Dois dias depois recebeu uma resposta de João Liborno. Duas palavras somente. Nada mais. – “Vá à merda”! Foi à conta. A carta foi xerografada. Deus e o mundo recebeu uma copia. A UEB não se manifestou. Disse ser problema da região e do distrito.

                     João Liborno todos os sábados impreterivelmente às duas da tarde já estava na sede Escoteira. Isto sem contar a ultima excursão que fez com os seniores que ficou na história. Alugou dois carros de bois do Chico Landi, um fazendeiro amigo dos Escoteiros e com uma dúzia de bons Guzerá lá foi ele com seus seniores para fazerem a mais aventura de suas vidas. Japielton me contou que nunca se divertiu tanto. Adorava o lamento ou canto que as rodas faziam. Todos aprenderam a colocar a canga, o canzil, a arreia, o cabeçalho. Manuseavam com perfeição a cheda, a cantadeira, o cocão, o fueiro, e quando não estavam assentados na mesa lá ia eles se revezando com a vara do ferrão a gritar: - Vamo Risoleta vai que vai Tira Forno. Foram quinze dias inesquecíveis pelas estradas e serras do sertão. Quando voltou lá estava na sede o distrital e dois soldados. – Fora, fora, você esta exonerado. Me entregue seus distintivos e uniforme. João Liborno ficou branco. Ia falar um palavrão, mas deu as costas a todos e foi embora.

                       Não voltou mais ao grupo. Agora se dedicava aos seus doentes e os sem sorte na vida. Não dava sossego a ninguém. Sempre pedindo para seus pobres. Claro que o galpão não acomodava mais ninguém, mas João Liborno não desistia. Nas eleições de novembro ele disse a um candidato a governador: - Me ajuda com meus pobres? Doutor Pasquacio foi eleito. Não esqueceu o pedido de João Liborno. Mandou fazer um prédio enorme, com todas as condições para ser o melhor hospital da cidade. João acompanhava as obras sempre sorrindo, claro que os seniores não o abandonaram. O dia da inauguração chegou. João Liborno colocou seu uniforme caqui e seu Chapelão, e lá foi ele tomar posse do que era seu. Coitado do João. Nem o deixaram entrar. Ficou estupefato com a traição do Presidente Pasquacio. Foi para casa tão triste que resolveu fazer o ato que nunca teria feito. Afinal ele era um bom Escoteiro, um bom companheiro. Dizem que os seniores o ajudaram, eu não acredito.

                      Não era duas da manhã e o Hospital novo estava em chamas. Não havia ainda bombeiros naquela época. Ninguém sabe o que aconteceu. Os seniores não moveram uma palha para ajudar a apagar o fogo. Tudo foi destruído. Todos já sabiam que só podia ser João Liborno. Mas ninguém podia provar e ninguém o viu de novo na cidade. Só pode ter fugido. Ao fazer a limpeza das chamas encontraram seu corpo. Em uma placa de metal ele deixou escrito. Escoteiro eu fui. Sua filosofia morou em meu coração. Mas que Deus me desculpe, não suporto a traição. Quem com ferro fere com ferro será ferido. Dizem eu não sei se foi verdade que mesmo com o hospital destruído o Prefeito Bafodonça decretou três dias de festividade. Ele mesmo fez uma festança em sua fazenda. Livre dele era ficar feliz para sempre!


                          No auge da festa, uma fumaceira tomou conta, a prefeitura e a casa sede da fazenda ardia em chamas. Todo mundo corria para todo lado. Não podia ser João Liborno. Ele estava mortinho da silva. Mas era ele mesmo o carvão que disseram ser o seu corpo? Quem seria o culpado? Decida você leitor.    

sábado, 4 de junho de 2016

A felicidade não se compra!


Lendas Escoteiras.
A felicidade não se compra!

                    - Antônio Marcus, não insista. Já disse que não. Olhe sua posição, veja você em que colégio estuda, olhe suas roupas e pense na sua família meu filho. Somos pertencentes a uma classe social diferente. Você é um Portilho legitimo de reis franceses. A Condensa Daiana pela terceira vez dizia não para o menino Antônio Marcus seu filho. Ela não entendia como ele agora ficava atormentando com um pedido tão sem coerência. Para ela o matricular em um Grupo Escoteiro próximo a sua mansão era impossível. Ora bolas! Pensava. Uma meninada de cor, um grupo em uma igreja de periferia, um padre comunista, dizem que o Chefe era ateu e eles não tinham nada e ainda achavam que iriam formar o caráter de seu filho? Nem pensar! Ele tinha professores ingleses, estudava piano com o Maestro Galliano, e quando completasse 17 anos iria matriculá-lo na Universidade de Oxford na Inglaterra. Nunca seria de bom alvitre ele se misturar com aquela gentalha. Se pelo menos fosse um Grupo Escoteiro de elite vá lá, mas aquele ali? Nunca!

                     Antônio Marcus tinha dez anos. Quase não tinha amigos, pois no Colégio Grand Torino onde estudava tudo era muito reservado. Eram oito horas diárias e ele recebia uma carga enorme de conhecimentos. Até que nos dias que faziam atividades recreativas ele se divertia. Nunca foi bom de bola, era péssimo no vôlei e mal corria cem metros. Sua complexão física não era boa. Vivia preso na Mansão dos Portilhos e lá não tinha amigos. Uma tarde chegou do colégio e viu o Senhor Aparício o jardineiro com um jovem da sua idade vestido de Escoteiro. Achou bonito e foi até eles perguntar o que eles faziam. O Senhor Aparício era o pai de Ronaldinho o Escoteiro. Falou para ele das aventuras que faziam dos acampamentos, das jangadas, das construções que chamavam pioneirías, das patrulhas que formavam verdadeiras equipes de fraternidade, das noites lindas em volta de um fogo, das canções, de dormir em uma barraca, de poder contar estrelas no céu.  

                       Antonio Marcus sentiu seus olhos brilharem. Que lindo era isto pensou! A noite sonhou que estava de uniforme a desbravar as florestas, a atravessar rios enormes em jangadas, em subir nas árvores enormes, descer por um nó Escoteiro em uma corda grossa, ah! Meu Deus! Seria bom demais. Quando falou com sua mãe foi um verdadeiro estouro. Não gritado é claro, pois a Condensa tinha toda a carisma de uma senhora educada na corte e que nunca levantava a voz. – De onde você tirou isto meu filho? Antonio Marcus pensou em contar, mas se absteve. Sabia que ela iria demitir na hora o Jardineiro Aparício. Mas não desistiu. Todos os dias à noite, após o jantar solene, onde ele deveria estar presente sempre de terno e gravata, onde havia um cerimonial para ser servido pelas dezenas de empregadas, só ele e a mãe naquela enorme mesa, pois seu pai sempre viajando ele pensava. – Já pensou? Eu lá na orla da floresta, fazendo meu jantar em um fogão de barro? Comendo a comida que eu fiz? Seria delicioso, mas era um sonho impossível de se realizar.

                     - Olhe Antonio Marcus se você quer mesmo ser um vamos fundar um grupo só para você. Vamos convidar seus amigos do colégio e do Clube, gente do mesmo naipe que nós. Falarei com meus amigos presidentes das multinacionais, falarei com o Comendador Joubert, claro incluirei Os Manfredos do Banco Mundial. Contrataremos chefes Escoteiros formados em grandes universidades do exterior, receberão os melhores salários e você vai fazer tudo que eles fazem supervisionados por professores e chefes preparados. Contrataremos bons chefs de cozinha para fazer suas refeições e claro, onde forem terão um enorme gerador para gerar a luz elétrica. Você quer assim? Antonio Marcus olhou para ela, seus olhos estavam húmidos em saber que nunca seria um Escoteiro como deveria ser. Muitas vezes escondido ficava conversando com Ronaldinho o Escoteiro. Ele contava todas as histórias que fazia brilhar as pupilas dele.

                        Não desistiu. Nunca iria desistir. Se ela achava que eles eram uns Portilhos que seja. Mas ele queria era ser mais um e não um que seria dono de tudo. Queria ser um Escoteiro de coração, de corpo e alma amigo e irmão de todos sem distinção. O Doutor Professor Edmundo se dirigiu a ele naquele dia e perguntou – O que está havendo Antonio Marcus? Você hoje não prestou atenção à aula? – Ele não disse nada. O Doutor Professor Edmundo não iria entender os seus sonhos. Foi um dia fatídico. Ao sair do colégio recebeu a noticia. Sua mãe fora sequestrada e baleada. Dois bandidos mataram dois seguranças super treinados em questão de segundos. Quando iam saindo com ela dois meninos pularam dentro da limusine e tentaram tomar a arma dos bandidos. Uma idiotice sem tamanho, mas que deu tempo do terceiro segurança matar os dois bandidos e o terceiro fugir. Um dos meninos levou um tiro de raspão. Ela no braço direito.

                         Os jornais e as TVs não perderam tempo. Histórias foram contadas de norte a sul. Os meninos exaltados como heróis. Em uma entrevista com um famoso apresentador os dois jovens contaram que eram Escoteiros. Aprenderam a não fugir das dificuldades. Sabiam viver sozinhos em uma floresta, enfrentavam cobras e jacarés. Será que ajudar uma senhora não fazia parte da boa ação que deveriam fazer todos os dias? Os dois meninos Escoteiros da noite para o dia ficaram famosos. A Condensa Daiana ao sair do hospital disse que nunca tinha visto tal heroísmo. Falou mais ainda dizendo que agora até ela iria ser Escoteira. Seu filho Antonio Marcus seria também um deles. Uma organização que ensina a fazer o bem, a formar caráter não poderia ficar de fora na formação do seu filho. Antonio Marcus não cabia em si de contente. Sonhava esperando o sábado feliz. Pedia a Deus para sua mãe não mudar de ideia. Disse para ela sobre o Aparício que era pai de Ronaldinho escoteiro.


                         O Chefe Pikard estranhou quando aquela Madame bem vestida cercada de seguranças adentrou no pátio da sede. Não era comum. Ele um Velho explorador europeu resolveu ajudar aquele Grupo Escoteiro humilde da Vila Pasqualé. Ele adorava aquela vida adorava aqueles meninos e quando soube que Piquitito e Joelhudo foram heróis ajudando em um assalto ele ficou com medo e ao mesmo tempo orgulhoso. Ensinou a todos que devem agir dentro das circunstâncias que a prudência ensina. A Condensa Daiana humildemente pediu uma vaga para seu filho. Ronaldinho da Patrulha Coruja veio correndo abraçá-lo. O Senhor Aparício que fazia limpeza na sede se sentiu importante quando ela o abraçou e o parabenizou pelo seu excelente filho. O Grupo ganhou mais um filho. A Grande Família Escoteira cresceu e o escotismo fizera as pazes com a realeza.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Uma fábula para meditar. O menino que carregava água na peneira.


Uma fábula para meditar.
O menino que carregava água na peneira.

                      Certa vez, nos tempos dos sonhos impossíveis, um Velho sentado na beira de uma estrada sorrindo me chamou. – Escoteiro! Você sabe carregar água na peneira? Fiquei imaginando o que ele queria dizer. Ele não se fazendo de rogado, acedeu seu pito de palha me olhou e começou a contar: Era um Escoteiro que carregava água na peneira. O Chefe dele um homem muito sábio disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos demais amigos da patrulha. O Chefe disse que era o mesmo que catar espinhos na água. O mesmo que criar peixes no bolso. O escoteiro era ligado em despropósitos. Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos. O chefe reparou que o escoteiro gostava mais do vazio, do que do cheio. Falava que vazios são maiores e até infinitos.

                   Com o tempo aquele escoteiro se tornou cismado e esquisito, porque gostava de carregar água na peneira. Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira. No escrever o escoteiro viu que era capaz de ser um sonhador. O Escoteiro aprendeu tudo de nós e amarras e a usar as palavras. Viu que podia fazer peraltagens com as palavras. E começou a fazer peraltagens. Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela. O Escoteiro fazia prodígios. Até fez uma pedra dar flor. O Chefe reparava o escoteiro com ternura. O chefe falou: Escoteiro você vai ser poeta! Você vai carregar água na peneira à vida toda. Você vai encher os vazios com as suas peraltagens, e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos e outras não! E assim termina a história do Escoteiro que carregava água na peneira e depois se tornou um poeta.

                  Verdade ou não hoje fico pensando se ainda carrego água na peneira. Vejo e sinto que a água me escorre pelos dedos. Para onde vamos? Levanto a cortina dos meus olhos, contemplo a maravilha do amanhecer. Eu sei que a vida é uma criança, esperta, bonita, inteligente passa correndo, é preciso ver. Acredito e nem duvido que não exista dor sem alento nem tristeza tão longe da alegria. Quando a luz de cada dia acende a vida, iluminando o amanhecer, não vacila, toma posse da imensa alegria de viver. E então esqueço as tempestades, me dá uma vontade imensa de colocar meu uniforme, meu lenço e meu chapéu, pegar meu bastão e sair por aí a acampar. Chegar ao campo e ouvir a voz do vento: - Escoteiro! - Acende a fogueira acende! Ilumina esta clareira, as fagulhas subindo alto no firmamento vão virar estrelas! Acende fogueira acende! Tira da mata a escuridão, escoteiros reunidos ao pé do fogo de chão contam histórias da tropa guardadas no coração! - Acende fogueira acende arde até ao alvorecer, madrugada já vai alta acalenta o meu viver!

                   Apenas sonhos?


quinta-feira, 2 de junho de 2016

O Cacique Itagiba, aquele que tem o braço forte como pedra.



Lendas Escoteiras.
O Cacique Itagiba, aquele que tem o braço forte como pedra.

              Acordei cedo. Uma rotina de um Cabo Corneteiro na 4ª Brigada de Infantaria em Juiz de Fora. Um soldado me avisou que o Capitão Barbosinha queria falar comigo. Ordens superiores não se discutem. Apresentei-me a ele em sua sala as sete da manhã. – Cabo, recebi este telegrama. Entregou-me e li. Dizia: – “Meu irmão em breve irei passar para o outro lado do oceano. Não quero ir antes de me despedir de você”. – Cabo o que significa passar para o outro lado do oceano? – Capitão, significa que meu amigo o Cacique Itagiba está morrendo e não quer ir antes de despedir de mim – Os índios Botocudos quando estão para passar para o outro lado se preocupam com suas três almas na hora da morte. Segundo seus ancestrais, eles têm três almas: a nhe’enguê ou nhe’em, a alma boa espiritual, que vai para o Além quando a pessoa morre, não afetando os vivos; a anguêry, a alma animal, responsável pelas más inclinações e que fica na terra por um tempo depois da morte, assombrando os vivos; a avyu-kuê, a sombra, uma cópia imperfeita da pessoa, permanecendo nos ares e não incomodando ninguém. A doença é a ausência temporária da nhe’em, da alma boa. A morte é a saída definitiva dessa alma. O sonho é a saída nhe’em para esse outro mundo.

                O Capitão Barbosinha sorriu. Ele me conhecia. Sabia da minha lealdade e das minhas aventuras escoteiras. – Tem uma semana para ir e voltar. Às nove da manhã consegui uma carona em um Posto Shell. Tive sorte. Um caminhoneiro ia para Teófilo Otoni se prontificou a me levar. Estava com o uniforme de campanha do exército. Às onze da noite estava em casa. Contei aos meus pais o que aconteceu. Um banho, vesti meu uniforme e parti para a estação ferroviária. Duas da manhã e o Nonô Chefe da Estação me disse – Vado, as três e meia passa um trem de carga para Aimorés. Você pode pegar uma carona. Não deu outra. Tanta sorte e o melhor Dedé Peito de Pato era o maquinista. Fora Escoteiro sênior e pioneiro. Cheguei a Crenaque as cinco da matina. O dia clareava. Não consegui um barco para atravessar o Rio Doce.

               Fazer uma jangada demoraria demais. O rio estava calmo e as águas baixas. Escolhi um local onde havia uma grande pedra no meio do rio. Cada braça uns 80 metros. Tirei o uniforme e enrolei em esfoladas de bananeira minha tralha e amarrei as costas. Iria atravessar a nado. Não foi difícil. Às oito da manhã avistei no alto do morro do Grilo a Aldeia dos Pataxós, remanescentes dos Botocudos e Aimorés. Nada mudou. A mesma aldeia miserável do passado. Os índios ali não tinham vez. A FUNAI nunca ajudou. Parei para descansar, não queria chegar com ar de cansado. Precisava motivar meu amigo o Cacique Itagiba. Eu sempre disse que o sorriso é um remédio dos deuses. Meus pensamentos voltaram ao passado, cinco anos antes. Era Escoteiro passando para Sênior. Nos Pintassilgos me sentia bem. A maioria fora Escoteiro e muitos eu conhecia muito bem.

                A Tropa muitas vezes pensou em visitar os índios do vale do Rio Doce. Sabíamos que de uma população de mais de cem mil índios, hoje não eram mais que uns três mil. Havia quatro aldeias no vale do Rio Doce. Em Crenaque, em Conselheiro Pena, em Aimorés e a última em Colatina. – Porque não vamos visitar a de Crenaque? É perto e poderemos conhecer mais a história deles. Todos aprovaram. O Chefe deu sinal verde. Uma época que os chefes confiavam. Em uma sexta a tarde na estação ferroviária pegamos o Trem Rápido para Vitória. Não pagávamos passagem. Tínhamos passe livre na ferrovia Vale do Rio Doce. Às seis da tarde chegamos a Crenaque. Chegar à Aldeia a noite? Não era uma boa ideia, mas poderíamos atravessar o rio. Um menino de uns doze anos se ofereceu com a canoa de seu pai. Juntamos uns tostões e demos a ele quase doze reais em dinheiro de hoje.

                   No alto do morro do Grilo avistamos a aldeia. Nenhuma iluminação. Algumas lamparinas e mais nada. Casas de alvenaria. – Mas eles não deveriam ter Ocas? Eu iria averiguar. – Armamos duas barracas e dormimos como sempre. Sem medo e sem receios vivendo somente nossos sonhos de jovens escoteiros seniores. Acordamos com o sol nascendo. Na frente da barraca uma dezena de índios na maioria jovens como nós. Eles sorriam. Nenhum fazendo gestos de maldade. Levantamos acampamento e metido a entendido disse um bom dia no idioma tupi-guarani. Eles riram a valer. Foi então que um jovem forte e atlético, vestindo um calção azul e sem camisa nos convidou para visitar a aldeia e conhecer seu pai o Cacique Upiara e sua mãe a índia Poranga. Foi a primeira vez que conheci o Cacique Itagiba. Entramos na aldeia e todos sorriram ao nos ver. O Cacique Upiara muito educado. Com seu pequeno cocar de duas penas ele se orgulhava, uma de um Azulão Vermelho e outra do Uirapuru. Só os valentes da tribo conseguiam tais penas.

                        Ficamos lá até domingo. Conversamos muito com eles e apesar de não entender sobre FUNAI, indigenistas e piratas de bebidas alcoólicas aprendemos muito. Um povo sofrido. As terras que o governo lhes deram foram invadidas diversas vezes. A caça desapareceu. Eles plantavam mandioca e muitas vezes era seu único alimento. Os homens da FUNAI não eram honestos. Eles viviam como podiam, mas ainda tinham o orgulho dos seus antepassados. Entre os indígenas não há classes sociais e todos tem o mesmo direito e o mesmo tratamento. O pequeno pedaço de terra que ainda tinham pertencia a todos. Quem conseguisse alguma caça e ou uma boa pesca era dividido com todos. Cada casa morava oito ou doze famílias. Até mesmo o Cacique Upiara e sua esposa a índia Poranga moravam com mais oito famílias.

             Ficamos amigos. Muitas vezes fui só como se diz a “escoteira”. Juntos fizemos belas aventuras. Caçamos uma Jaguatirica só com armadilhas. Ficávamos horas na pedra do Açu junto ao rio Doce tentando pescar uns dourados. Fizemos uma jornada até a Lagoa dos Macacos muito longe da aldeia. Uma lagoa enorme e nunca tinha visto tantos peixes. Aprendi a gostar do Cacique Upiara e a Índia Poranga. Fiz amizade com o Pajé Jurecê. Quatro anos depois fui servir a Pátria em Juiz de Fora. Sempre mantendo contato com Itagiba pelo correio. Encontrei Itagiba deitado em um catre de folhas de bananeira. Ele já sabia que eu estava chegando, seus guerreiros avisaram. Levantou com dificuldade e ficou em pé com a ajuda de sua mulher a índia Ibotira. Abraçou-me fortemente com os olhos cheios de lágrimas. Não me contive e chorei também. Ficamos ali a falar do passado, e sua tristeza com o futuro da aldeia.


            Ele acreditava que poderia reencarnar. Um dia me disse – Sabe Vado Escoteiro quando eu reencarnar novamente quero ser seu irmão. Quero estar sempre ao seu lado. Morreu a noite sorrindo e olhando para mim. Voltei no dia seguinte do seu sepultamento para o quartel. Naquele sábado do retorno, na hora do apagar das luzes, toquei em meu clarim o toque de Silêncio mais triste que um dia toquei em minha vida. Para dizer a verdade as notas do clarim se misturaram ao sabor das minhas lágrimas que caiam harmoniosamente. Até mesmo o Sargento da Guarda me olhou assustado. Ele não conhecia a história, mas sua experiência com corneteiros sabia de antemão que uma bela história de amor e amizade tinha acontecido. Itagiba ficou na minha memória por todo o sempre. Eu sei que um dia vamos nos encontrar, pois nosso caminho nos levava ao mesmo lugar. Eu também iria morar um dia do outro lado do oceano.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Joubert.


Joubert.

                     O catador de limão. Jogo simples e que exigia muito. Joubert caiu como um tomate maduro ao chão. Escoriações na face. Iria abrir o berreiro de sempre. Desta vez não. Sorria! Incrível! Joubert sorrindo? Era um pata-tenra molenga que a patrulha abominava. Seu sorriso era contagiante. Eu sabia que sorrir é a segunda melhor coisa para se fazer com a boca, a primeira continuava a permanecer calado. A Tropa não esperava. Ninguem esperava. Como disse o poeta muita coisa que ontem parecia importante ou significativa amanhã virará pó no filtro da memória. Mas o sorriso? Ah! Esse resistirá a todas as ciladas do tempo. Levantou e perguntou ao monitor: - Vamos continuar? Era demais. Uma virada no tempo do passado. – Olhou para mim: - Chefe mamãe me ensinou que chorar alivia, mas sorrir torna tudo mais bonito. Eu não estava acreditando. – Compartilha? Ele me olhou levantando as sobrancelhas. Compartilhar Chefe? Essa sua alegria, este seu novo jeito de ser. – Ele riu. Mamãe me deu um abraço! Um abraço? Foi aí que lembrei que desde que seu pai foi para o céu ela nunca mais sorriu para ninguém.  

                     Um simples abraço de uma mãe? Ele sorriu. Olhou-me e disse: Chefe sabe o que ela disse? – Que seu lugar favorito seria sempre dentro do meu abraço. Lembrei-me de Leôncio um Sênior que ia embora e chorando tentou sorrir: - Chefe aproxime-se mais... Vou lhe dar meu último abraço. Tente sentir do que um abraço é capaz. Quando bem apertado, ele ampara tristezas, combate incertezas, sustenta lágrimas, põe nostalgia de lado. E é até capaz de diminuir o medo. Se for cheio de ternura, ele guarda segredos e jura cumplicidade. Um abraço Chefe de um amigo de verdade divide alegrias e fica feliz em comemorar o que quer que seja mesmo a dor de uma partida. Abraços são pequenas orações de fé, de força e energia. Cabra danado o Leôncio. Dizem que agora é Chefe Escoteiro em um país da América do sul. Joubert mudou. Era outro. Não percebeu o bem que fez a patrulha e a Tropa. Com seu sorriso fez todos sorrirem. Antes no acampamento as noites eram de lágrimas saudades da mamãe, hoje de alegria, de aprender com os pássaros seu cantar, de sorrir para a lua e de correr sorrindo pelas campinas.


                    Nunca esqueci Joubert. Antes do seu sorriso era uma Tropa, agora é outra. Todos aprenderam a sorrir. Mas quem não sabe sorrir Chefe? Olhei para ele agora sorrindo também. Eu gosto de gente que sorri com os olhos, que sorri com a alma, que sorri de dentro para fora e vice versa. Gente que sorri apesar de tudo, que contagia quem está ao seu redor. Gente que nem parece viver num mundo tão injusto, porque sabe sorrir e melhor ainda, sorrir de verdade! Nicolino quando passou para os seniores me procurou: - Chefe Faça de Joubert o próximo monitor. O senhor não vai se arrepender. Mas deixei que a patrulha escolhesse e por unanimidade Joubert foi eleito. Ah o tempo! Um dia Joubert se foi. Voltou sorrindo doutor. Na sede nova leva de meninos que tinham ouvido falar em Joubert. Um circulo se formou com ele no meio. Olhava a todos sem distinção. – Escoteiro, nunca esqueçam, a vida me ensinou que chorar alivia, mas sorrir torna tudo mais bonito. E porque não abraçar? Tem palavras que chegam como um abraço... E tem abraços que não precisam de palavras... E Joubert fez questão de abraçar a todos naquela hora!

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras. Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia....