Lendas
Escoteiras.
Espalhem
minhas cinzas nas curvas do Rio Amarelo.
Prefácio;
- Que eu jamais me esqueça de que
Deus me ama infinitamente, que um pequeno grão de alegria e esperança dentro de
cada um é capaz de mudar e transformar qualquer coisa, pois... A vida é
construída nos sonhos e concretizada no amor. Chico Xavier. Uma história
comovente, um grande amor, sonhos que não se realizou. Um lindo conto para ler
e lembrar.
Eu flutuava no ar. Uma
sensação diferente. Não tinha ideia do que estava acontecendo. Não me lembrava
do passado e tudo estava na maior escuridão. Onde estava? Não ouvia som, luzes nada...
Será que estava morto? Nunca acreditei na vida depois da morte. Acreditava que
era pó e seria levado pelo ar. Que a terra aproveitasse dos meus últimos
pertences. As nuvens escuras começaram a abrir e vi minha cidade. Linda foi a primeira
vez que a via do ar. Não sabia como era bonita.
O Rio Amarelo serpenteava em
sua volta com suas águas cristalinas. Notei na curva do Sonho uma Tropa de
escoteiros em ferradura. Estavam saudando alguém que partiu. O que eles estavam
fazendo ali? Eu os conhecia um por um. Galáctico o monitor da Coruja, Twister
da Lobo, Trocadilho da Onça. Mas não vi MacArthur da Morcego. Voei um pouco
mais para perto. E Rosinha? Não estava ali? Ela não viria. Não havia motivos. Alguém
de uniforme Escoteiro entrou nas águas límpidas do rio. Era MacArthur. – O que
estavam fazendo?
Em suas mãos uma pequena caixa
de metal. Abriu a tampa e retirou dela cinzas jogando-as no ar! O vento calmo
espalhou por toda a margem do rio. Foi então que me lembrei. Fora um pedido meu
feito a MacArthur e renovado na Corte de Honra. Os monitores assustados nada
disseram. Mas como foi que isto aconteceu? O passado não me deixava lembrar. MacArthur
chorava. Vi que gostava muito de mim. Porque chorava? Não fui um bom Chefe? Fui
um amigo, um irmão mais velho. Só perdi a calma quando o Pai de Tonhão gritou na
frente da tropa: - Borracho! Bêbado! Que exemplo está dando para os escoteiros
seu vagabundo!
Doeu. Bateu fundo. Voltei no
tempo. Sai da sede pensativo naquele mês das flores... Era primavera. Sentia saudades.
Estava triste, pensativo, abatido e não sabia o motivo. Falta de ar... Isto
sempre acontecia em noite de lua cheia. Passei em frente à Boate de Madame
Telminha. Casa de má fama. Não entrei, sempre evitei. A melodia era linda, o som
entrou em mim... “Índia seus cabelos nos ombros caído...”. Minha canção
preferida. Comecei a cantar baixinho. Entrei, sentei em uma mesinha de canto.
Foi então que a avistei. Linda incrivelmente bela... Nunca fui um conquistador.
Era um exemplo de Chefe escoteiro. Era puro nos pensamentos, palavras e ações.
Ela cantava maravilhosamente.
Fiquei maravilhado com sua voz. Chorei ao ouvi-la cantar. Pedi uma cerveja,
duas, três e perdi a conta de quantas foram.
A Boate fechou às três da manhã. Não queria sair, queria falar com
Rosinha. Estava apaixonado. Iria pedi-la em casamento. Um bobo da corte, um
idiota, um simplório como eu se apaixonando assim. Tentei. Seguranças me
impediram. Forcei e me jogaram para fora da boate. Cai na lama da rua. Senti-me
sujo e desmaiei.
Acordei com o sol a pino. - Estirado
na calçada, vômitos, atrapalhava os transeuntes que me olhavam com nojo. Tentei
levantar e não consegui. Uma mão me ajudou e me arrastou até minha casa.
Deitou-me na cama e limpou minha sujeira. Forcei a vista para saber quem era.
MacArthur! - Cidade pequena o acontecido correu de boca em boca. Minha fleuma
escoteira indo para o ralo. Já não era mais um Chefe e sim um bêbado, um escrachado,
um cachaceiro. Apenas em um dia e perdi todo respeito que conquistei e construí.
Antes de ser escoteiro
consideravam-me um vagabundo deste que meus pais morreram. Não ia a igreja, não
acreditava em Deus. Na cidade fui o único a assumir que era um ateu. Para me
inscrever no escotismo não foi fácil. Sempre fui um deles de corpo e alma desde
criança. Assumi a loja do meu pai. Trabalhei de sol a sol. Não dependia de
ninguém. Conquistei meu lugar na Tropa. Quando saíamos para acampar era uma
festa. A cidade aplaudia. Acreditavam agora em mim. Resolvi me manter simples
calado e sem afetação. Morava em meu coração uma nova filosofia, uma nova forma
de viver. O escotismo era minha vida, minha mãe meu pai meu tudo.
À noite acordei assustado.
Sonhava com ela. Danação! Rosinha agora fazia parte de mim. Arrumei-me mais ou
menos e parti para a Boate de Madame Telminha. Sabia ser um erro, devia ficar,
seria o melhor exemplo. Não dizia a lei que o escoteiro é leal com suas convicções?
Não deu. Voltei, de novo ela me virou as costas, novamente bebi além da conta,
novamente me jogaram porta a fora. Desta vez foi pior. Um homem que não
conhecia com cara de mau me ameaçou. Ri dele. – Também sou homem eu disse. Chamaram
a policia. O delegado me levou para a delegacia. Passou-me um sermão. – Sabia
que eu era Escoteiro e devia dar exemplo.
Tentei explicar que não podia
dominar meu coração. Eu só queria ter um minuto com ela, sentir seu perfume,
seu hálito, sua voz e seu sorriso. Sabia que nunca teríamos nada, mas não
custava tentar. Isto repetiu várias vezes. No Grupo Escoteiro fui convidado a
me retirar. Educadamente me disseram que não era mais bem vindo.
Ah! MacArthur, um
Escoteiro, um monitor e meu anjo da guarda. Com seus treze anos me dava lição,
logo eu um homem de 25 anos. Mas eu o obedecia. Ele falava eu fazia. Poucos
escoteiros foram a minha casa. Quase todos me viravam as costas. Eles estavam
certos. Eu tinha pedido a MacArthur que quando morresse não queria ser
enterrado. Deixei um bilhete para ser cremado. Ele me deu sua Palavra de
Escoteiro que iria jogar minhas cinzas na curva do Rio Amarelo. Coloquei em
suas mãos uma boa quantia. – Se sobrar, é doação para a Tropa Escoteira.
Ele sério não disse nada. Voltei
novamente a Boate e ao entrar senti dois estampidos. Não senti mais nada. Apaguei
desta vida. Agora vejo a cerimonia que os escoteiros estão fazendo para mim.
Meus olhos choram meu coração não existe mais. Eu não era ninguém! Não vi anjos
no céu, não havia luz e ninguém de branco a me esperar. Estava morto? Se estava
porque eu via tudo? Porque eu sentia que podia tudo? Tentei gritar, mas chorava
sem parar. Não queria ficar sozinho naquele espaço de tempo que nunca acreditei
ficar.
Não sei quanto tempo chorei e
só depois de muito tempo um azul finito se abriu no céu. Alguém me deu as mãos.
Agora sabia que não estava sozinho, não era um grão de areia, eu era sim um
espírito que desejava ardentemente o auxilio de alguém! Foi então que rezei, e
rezando almas apareceram para me ajudar. Bendito seja Deus, bendito seja seu
santo nome. Obrigado meu Deus!
Nenhum comentário:
Postar um comentário