A última
Estação de Trem.
Uma história,
uma lenda escoteira.
Prólogo: Não mais
existem estações de trem, dos encontros, do adeus e da volta. Sinto-me distante
dos trens e dos trilhos reais, porém vou na direção da esperança de um novo
trem, de uma locomotiva ou simplesmente de um vagão de passageiros a
transportar escoteiros vagando por aí a acampar. E nesta hora da esperança e
fé, num horário indefinido, quem sabe vai surgir na minha frente o último trem
e entro no ultimo vagão, da ultima estação, da última viagem do meu sonho de
voltar a ser feliz... (José Ricardo).
Tempos são passados. As
lembranças não. Tempos bons que não voltam mais. Época de jornadas, acampamentos
a “escoteira”, era bom demais. Nunca esqueci nenhum. Andava por aí sozinho pelos
campos acompanhado pelo Senhor. Um apaixonado por ficar só. Egoísta? Só eu
sentindo o vento no rosto, descansar a sombra de uma pitangueira, nadar em um
remanso frio de um riacho? Francamente não me achava um egoísta. Afinal quantas
centenas de lindos acampamentos eu fiz com amigos de todas as idades? Quantas
excursões? Quantas atividades aventureiras? Eu sabia que todas elas tinham um lugarzinho
em minha memória. Eu sempre tive problemas e todos eles eu resolvia assim. Uma
mochila, um bornal, uma forquilha, ração escoteira, uma rota e pé na estrada.
Adorava. Muitas vezes sem barracas. Montar uma cabana, um banquinho, um fogo
estrela, um local privilegiado onde a vista pudesse deslumbrar o inatingível.
Quantas vezes? Muitas. Paradas longínquas, picos saudosos, vales queridos, uma
jangada balançando nas águas caudalosas de um rio desconhecido.
Foram tantas histórias e hoje me lembrei da
menina a chorar na estação quando seu amado se foi. Um trem uma mochila e lá
fui eu a “escoteira acampar”. Era bom demais rever a coruja de olhos verdes, o
lobo da campina, dormir sob o manto das estrelas tendo o céu como barraca. Três
dias de encantamento. Banho no lago, na queda do riacho formoso, uma fogueira
para esquentar. Valeu enquanto durou. Hora de voltar. Uma pequena estação uma
parada de trem em um pequeno arraial. Esperava o noturno das onze sentado no
banco da estação. Cheguei cedo. Gostava de ver o andar prá lá e prá cá do Chefe
da Estação. Homem educado – Boa noite! - E tirava o quepe fazendo uma mesura me
saudando sem me conhecer. Ao lado uma mesa com a parafernália eletromagnética
que Morse um dia inventou. As mensagens percorriam como correio eletrônico os
milhares de quilômetros daquela ferrovia sem fim. Diziam que elas davam a volta
no mundo. Sinais curtos e longos, um “tatatá” gostoso levando palavras de
sonhos para o fim do mundo. Boas lembranças quando fui Sinaleiro. Ali sentado
esperava o trem chegar. Não tinha pressa. Nunca tive.
O matraquear, os passageiros
chegando, um trem de carga passando e o Chefe da estação dizendo adeus. A vista
escura se perdia no som do rio caudaloso que corria no vale dos sonhos dourados.
Na plataforma uns gatos pingados. O trem que subia o rio chegou mansamente. Não
era o meu. Eu iria descer o rio. O Chefe da Estação com seu arco deu instruções
ao maquinista que treinado não teve duvidas para enlaçar. O barulho quieto da
fornalha soltava fumaça quente no ar. Eu adorava aquilo. Ali sentado, me sentia
hipnotizado com a beleza de um trem de ferro que em breve iria sumir engolido
pela modernidade. Foi então que avistei um casal. Jovens. Parados em frente à
entrada do vagão de primeira classe. Um olhando para o outro. Não diziam nada.
Ela só tinha olhos para ele. Encharcados de lágrimas de amor. Ele tristonho não
tirava os olhos dela. – “Eu volto para te buscar” falou tristonho. Ela chorava
baixinho. – Nunca vou te esquecer meu amor. O último apito, um beijo simples,
um roçar de lábios sedentos que não queriam se separar.
O trem deslizando sobre os trilhos se
despedia da estação sorrindo, pois sabia que amanhã iria voltar. Um último adeus. Ele correu e subiu nos
degraus de seu vagão. Ficou ali de mãos estendidas acenando como a dizer que
seria um breve e longo adeus. Ela sabia disto. Sabia que ele não iria voltar.
Em pé olhava com um tremor no corpo, as mãos tremendo querendo dizer: - Leve o
meu sonho com você! Tristonha não tirava a vista do trem que partia apitando e
sumindo da vista na curva do rio para quem sabe nunca mais voltar. Um silêncio
tomou conta da plataforma. Eu só ouvia o tic tac do telegrafo e os soluços da
bela moça que havia perdido seu amor. Eu nada dizia. Não tinha nada para dizer.
Ela estática não saia do lugar. Perdida em uma estação de trem o mundo dela
desmoronava. O meu chorava com ela. Ela se virou e me viu. Seus olhos estavam
marejados de lágrimas. Eu de calças curtas com meu chapelão fiquei em pé.
Queria me solidarizar. Não sabia o que dizer. Ela deu um pequeno sorriso
levantando o braço dizendo baixinho “Sempre Alerta”. Respondi do mesmo modo em
posição de sentido tirando o meu chapéu. Lentamente ela se foi para seu
destino.
De novo a estação vazia. Não
havia mais sol e a lua rechonchuda se escondia no outro lado montanha. Não havia
vento, nem uma leve brisa para trazer alguma notícia do meu trem. Sentei
novamente e deixei minha mente vagar por este mundo de Deus. O Chefe do Trem se
aproximou. – Um atraso de quatro horas. O Trem que subia desencarrilhou. Muitos
feridos outros mortos. O Trem que iria descer não tinha como passar. Não disse
nada. Não tinha pressa. Minha mente corria sobre os trilhos a procurar o trem
perdido que se foi. - Será que ele sobreviveu? Sem resposta. E ela? Como avisar
que seu amor poderia ter ido para uma morada qualquer nas estrelas? – Não tinha
como dizer. Ela já tinha ido para seu lar sonhando com seu amor e sabendo que
ele nunca mais iria voltar. Quem sabe seria melhor assim. Dormitei no banco da
estação. A noite viajava procurando o dia. Na plataforma escura deu para ver
trovões no céu. A chuva chegou de mansinho. Eu gosto do som da chuva. Ela me
trás lembranças e uma paz que revigora. Ao longe um apito do trem. Era o meu
que chegava. Como um pássaro gigante sobre trilhos adentrou na estação perdida
de um trecho qualquer daquela saudosa estrada de ferro.
Um retorno sem
consequências. Na minha morada meu amor dormia. Entrei de mansinho. Fui olhar
meus filhos que adormecidos sonhavam com anjos do céu. Abracei minha amada de
muitas vidas e deitei ao seu lado. Ela sorriu. Pensei no amor da outra que
tinha ido e nunca mais ia voltar. Sina marcada. Destino escrito no livro da
vida. Nada do que se tem a gente pode manter para sempre. Sonhos que não foram
vividos. Estrelas piscantes que se mantém no universo através dos tempos.
Esperanças que nunca se acabam. Ainda deitado ao lado da minha amada, com as
mãos entrelaçadas no peito eu chorava baixinho. Mais um dia que se foi. A dor
da saudade de alguém que achou que teria e nunca teve ninguém.
Nenhum comentário:
Postar um comentário