Lendas Escoteiras.
Meu amigo... O Cacique Itagiba.
Prólogo: - Naquele sábado do
retorno, na hora do apagar das luzes do quartel, toquei em meu clarim o toque
de Silêncio mais triste que um dia toquei em minha vida. Para dizer a verdade
as notas do clarim se misturaram ao sabor das minhas lágrimas que caiam
harmoniosamente. Itagiba nunca saiu da minha memória. Eu sei que um dia vamos
nos encontrar, pois nosso caminho nos levava ao mesmo lugar. Eu também iria
morar um dia do outro lado do oceano.
Acordei cedo. Rotina de um Cabo
Corneteiro na 4ª Brigada de Infantaria em Juiz de Fora. Um soldado me avisou
que o Capitão Barbosinha queria falar comigo. Ordens superiores não se
discutem. Apresentei-me a ele em sua sala as sete da manhã. – Cabo, recebi este
telegrama. Entregou-me e Dizia: – “Meu irmão em breve irei passar para o outro
lado do oceano. Não quero ir antes de me despedir de você”. – Cabo o que
significa passar para o outro lado do oceano? – Capitão, significa que meu
amigo o Cacique Itagiba está morrendo e não quer ir antes de despedir de mim –
Os índios Botocudos quando estão para passar para o outro lado se preocupam com
suas três almas na hora da morte conforme ouviu de seus ancestrais: a nhe’enguê ou nhe’em, a alma boa
espiritual, que vai para o Além quando a pessoa morre, não afetando os vivos; a
anguêry, a alma animal, responsável pelas más inclinações e que fica na terra
por um tempo depois da morte, assombrando os vivos; a avyu-kuê, a sombra, uma
cópia imperfeita da pessoa, permanecendo nos ares e não incomodando ninguém. A
doença é a ausência temporária da nhe’em, da alma boa. A morte é a saída
definitiva dessa alma. O sonho é a saída nhe’em para esse outro mundo.
O Capitão Barbosinha sorriu. Ele me conhecia. Sabia da minha lealdade e das
minhas aventuras escoteiras. – Tem uma semana para ir e voltar. Às nove da
manhã consegui uma carona em um Posto Shell. Tive sorte. Um caminhoneiro ia
para Teófilo Otoni se prontificou a me levar. Estava com o uniforme de campanha
do exército. Às onze da noite estava em casa. Contei aos meus pais o acontecido.
Um banho, vesti meu uniforme e parti para a estação ferroviária. Duas da manhã
e o Nonô Chefe da Estação me disse – Vado, as três e meia passa um trem de
carga para Aimorés. Você pode pegar uma carona. Não deu outra. Tive sorte era Dedé
Peito de Pato o maquinista. Fora Escoteiro sênior e pioneiro. Cheguei a
Crenaque as cinco da matina. O dia clareava. Não consegui um barco para
atravessar o Rio Doce.
Fazer uma jangada demoraria demais. O rio estava calmo e as águas baixas.
Escolhi um local onde havia uma grande pedra no meio do rio. Cada braça uns 80
metros. Tirei o uniforme e enrolei em esfoladas de bananeira minha tralha e
amarrei as costas. Iria atravessar a nado. Não foi difícil. Às oito da manhã
avistei no alto do morro do Grilo a Aldeia dos Pataxós, remanescentes dos
Botocudos e Aimorés. Nada mudou. A mesma aldeia miserável do passado. Os índios
ali não tinham vez. A FUNAI nunca ajudou. Parei para descansar, não queria
chegar com ar de cansado. Precisava motivar meu amigo o Cacique Itagiba. Eu
sempre disse que o sorriso é um remédio dos deuses. Meus pensamentos voltaram
ao passado, cinco anos antes. Tinha passado para os seniores. Muitos conhecidos
quando foram escoteiros.
Nossa Patrulha sempre pensou em visitar
os índios do vale do Rio Doce. Sabíamos que de uma população de mais de cem mil
índios, hoje não eram mais que uns três mil. Havia quatro aldeias no vale do Rio
Doce. Em Crenaque, em Conselheiro Pena, em Aimorés e a última em Colatina. –
Porque não vamos visitar a de Crenaque? É perto e poderemos conhecer mais a
história deles. Todos aprovaram. O Chefe deu sinal verde. Uma época que os
chefes confiavam. Em uma sexta pegamos o Trem Rápido para Vitória. Não
pagávamos passagem. Tínhamos passe livre na ferrovia Vale do Rio Doce. Às seis
da tarde chegamos a Crenaque. Chegar à Aldeia a noite? Não era uma boa ideia,
mas poderíamos atravessar o rio. Um menino de uns doze anos se ofereceu com a
canoa de seu pai. Juntamos uns tostões e demos a ele.
No alto do morro do Grilo avistamos a aldeia. Nenhuma iluminação.
Algumas lamparinas e mais nada. Casas de alvenaria. – Mas eles não deveriam ter
Ocas? Eu iria averiguar. – Armamos duas barracas e dormimos como sempre. Sem
medo e sem receios vivendo somente nossos sonhos de jovens escoteiros seniores.
Acordamos com o sol nascendo. Na frente da barraca uma dezena de índios na
maioria jovens como nós. Eles sorriam. Nenhum fazendo gestos de maldade. Levantamos
acampamento e metido a entendido disse um bom dia no idioma tupi-guarani. Eles
riram a valer. Foi então que um jovem forte e atlético, vestindo um calção azul
e sem camisa nos convidou para visitar a aldeia e conhecer seu pai o Cacique
Upiara e sua mãe a índia Poranga. Foi a primeira vez que conheci o Cacique
Itagiba. Entramos na aldeia e todos sorriram ao nos ver. O Cacique Upiara muito
educado. Com seu pequeno cocar de duas penas ele se orgulhava, uma de um Azulão
Vermelho e outra do Uirapuru. Só os valentes da tribo conseguiam tais penas.
Ficamos lá até domingo. Conversamos e apesar
de não entender sobre FUNAI, indigenistas e piratas de bebidas alcoólicas
aprendemos muito. Um povo sofrido. As terras que o governo lhes deu foram
invadidas diversas vezes. A caça desapareceu. Plantavam mandioca e muitas vezes
era seu único alimento. Os homens da FUNAI não eram honestos. Eles viviam como
podiam, mas ainda tinham o orgulho dos seus antepassados. Entre os indígenas
não há classes sociais e todos tem o mesmo direito e o mesmo tratamento. O
pequeno pedaço de terra que ainda tinham pertencia a todos. Quem conseguisse
alguma caça e ou uma boa pesca era dividido com todos. Cada casa morava oito ou
doze famílias. Até mesmo o Cacique Upiara e sua esposa a índia Poranga moravam
com mais oito famílias.
Ficamos amigos. Muitas vezes fui só como se diz a “escoteira”. Juntos fizemos
belas aventuras. Caçamos uma Jaguatirica só com armadilhas. Ficávamos horas na
pedra do Açu junto ao rio Doce tentando pescar uns dourados. Fizemos uma
jornada até a Lagoa dos Macacos muito longe da aldeia. Uma lagoa enorme e nunca
tinha visto tantos peixes. Aprendi a gostar do Cacique Upiara e a Índia
Poranga. Fiz amizade com o Pajé Jurecê. Quatro anos depois fui servir a Pátria
em Juiz de Fora. Sempre mantendo contato com Itagiba pelo correio. Encontrei Itagiba
deitado em um catre de folhas de bananeira. Ele já sabia que eu estava
chegando, seus guerreiros avisaram. Levantou com dificuldade e ficou em pé com
a ajuda de sua mulher a índia Ibotira. Abraçou-me fortemente com os olhos
cheios de lágrimas. Não me contive e chorei também. Ficamos ali a falar do
passado, e sua tristeza com o futuro da aldeia.
Ele acreditava que poderia reencarnar. Um dia me disse – Sabe Vado Escoteiro
quando eu reencarnar novamente quero ser seu irmão. Quero estar sempre ao seu
lado. Morreu a noite sorrindo e olhando para mim. Voltei no dia seguinte do seu
sepultamento para o quartel. Naquele sábado do retorno, na hora do apagar das
luzes, toquei em meu clarim o toque de Silêncio mais triste que um dia toquei
em minha vida. Para dizer a verdade as notas do clarim se misturaram ao sabor
das minhas lágrimas que caiam harmoniosamente. Até mesmo o Sargento da Guarda
me olhou assustado. Ele não conhecia a história, mas sua experiência com
corneteiros sabia de antemão que uma bela história de amor e amizade tinha
acontecido. Itagiba ficou na minha memória para sempre. Eu sei que um dia vamos
nos encontrar, pois nosso caminho nos levava ao mesmo lugar. Eu também iria
morar um dia do outro lado do oceano.
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