Duas vidas...
Um destino.
Uma história,
uma lenda escoteira.
Era uma vez... Seus olhinhos miúdos procurava
entender o que ele fazia ali. Olhava de um lado para outro tentando raciocinar
porque não estava em sua casa. Agora era assim, lapsos de memoria frequentes.
Sua idade? Ele não se lembrava, não tinha forças, não andava mais. Alguém o
levava em uma cadeira de rodas simples e barata. Ele nem se lembrava de Loreta e
para ele ela não existia. Ele sabia que era um ancião. Como as grandes árvores
que ficaram no tempo ele não dava mais frutos e suas folhas caiam para ficar
presas na terra. Vez ou outra tinha lampejos de lembranças. Lembrava seu nome,
sua idade. Idade? 91 anos bem vividos. O que fazia ali? Muitos a sua volta.
Batiam palmas ele se lembrou da palma escoteira. Quantas vezes ele também as
usou? Há! Sim! Agora melhor. Lembrava que era um Escoteiro, sempre foi. Não
participava mais há alguns anos. Quando lucido sentia falta. Falta da mochila,
falta da trilha seca ou molhada. Falta da montanha, da barraca dos seus amigos
de patrulha.
Deu de si o que pode e não pode pelo
escotismo. Diziam que ele fora único. Um dos maiores Velhos Lobos ainda vivo.
Era aplaudido onde quer que fosse. Os Grupos Escoteiros insistiam na sua
presença nas festas e atividades que faziam. Ele sempre sorria, mas um sorriso
sem graça sem saber por que estava sorrindo. Quem sabe pensava que estava feliz.
Outras vezes seu olhar perscrutava a todos os presentes para ver se lembrava de
alguém ou mesmo a perguntar o que fazia ali. Muitos disseram que era desumano o
levarem assim nas veredas Escoteiras com que era convidado. Não era. Deixou um
testamento e nele escreveu: Nunca direi adeus a quem amo, meu orgulho alimenta
minha vontade em continuar lutando, errado achar que devo me aposentar, errado
achar que não sei mais amar o escotismo como amei. Às vezes é preciso
reconhecer que um dia o final irá acontecer e neste dia quero fechar os olhos e
dizer: - Estou onde devia estar! Loreta entendeu a mensagem. Seus olhos sempre
em lágrimas o levavam onde o convidavam. Ela sempre dizia a ele baixinho em seu
ouvido: - Amor vamos escoteirar!
Quando estava lucido
nunca reclamou. Afinal as dores nestas horas passavam, a falta de ar ia embora
como se ele estivesse vivo em cima de uma enorme pedra no alto de uma montanha.
Ele sempre gostou de estar com a meninada. Sempre os amou. Sempre pensou que
iria poder ajudar a formar pessoas de bem para seu querido país. Quantas vezes ele
viajou por estados e países a levar as boas novas de uma nova ordem? Um novo
escotismo que poucos conheciam? Não era um perito palrador, ou melhor, um
perfeito conferencista, mas se esforçava. Nos seus melhores dias ao terminar
era aplaudido de pé. Nunca usufruiu das benesses do escotismo, pois gastou seu
último tostão ajudando a quem dele precisava. Ouvia vozes de escotistas,
dirigentes falando baixinho perto dele: - Um ancião merece respeito, não pelos
seus cabelos brancos ou pela idade. Mas pelas tarefas e empenhos, trabalhos e
suores do caminho já percorrido em sua vida. Seria isto mesmo? Então se era um
ancião porque ainda pensava? Porque ainda dizia para si mesmo que queria
escoteirar?
Loreta quando jovem tinha um
belo sorriso. Hoje não mais. Prometeu a si mesma que iria dedicar sua vida ao
Chefe Polaco. Nunca reclamou do casamento. Nunca reclamou das horas que ficou
sozinha em casa esperando. Nunca reclamou de dar a ele tudo que pedia e até
mais que isto, sorrir quando ele sorria chorar quando ele chorava. Uma mulher
perfeita? O tempo não perdoa ninguém. Ele envelheceu e ela também. Viu que ele
definhava e sabia que um dia ele iria partir. Ela nunca pediu a Deus para ir
primeiro. Sabia que sua sina era cuidar dele. Adorava seu marido em todas as
horas do dia e da noite. Admirava quando ele dormia um sono reparador e via que
ele sempre sonhava, pois dormia sorrindo. Até aos setenta anos tinha uma saúde
de ferro, mas as coisas começaram a mudar. Uma vantagem é que ele não
reclamava. Tinha medo de reclamar e os médicos o proibissem de fazer o que
gostava. Ser Escoteiro em todas as horas do dia e da noite.
Loreta sabia que o milagre
não é dar vida ao corpo extinto, ou luz para quem quer ver, ou eloquência dos
que querem falar. Ela sabia que não ia mudar a água pura em vinho. Sabia que
muitos acreditavam nisso tudo, mas ela tinha os pés no chão. Quando o Doutor
Esteves avisou a ela do seu câncer no útero não contou nada para ninguém. Chefe
Polaco um dia caiu na escadinha da varanda da casa. Muitos pensaram que ele
voltaria a andar novamente. Interessante que quase andou. Foi em um Grupo
Escoteiro que foi visitar. Faziam questão da sua presença no aniversário do
grupo. Ela com dificuldade o levou em seu carrinho. Lá ajudaram a transportar a
cadeira de rodas até a ferradura onde todos os escoteiros lobos e chefes o
esperavam. Ele sorriu e ela vendo isto sorriu também. Sentia uma dor terrível
na virilha, mas não demonstrou. Na hora da bandeira todos firmes e quando o
Chefe ia iniciar a cerimônia Chefe Polaco tentou ficar em pé. Todos olharam
espantados. A bandeira recebeu ordem de subir aos céus. Chefe Polaco caiu ao
chão desmaiado.
Foi um corre-corre enorme. Mas
o tempo não ajudava mais. Ela viu que o Chefe Polaco a cada dia mais definhava.
Pedia a Deus que não a levasse, que desse a ela a chance de fazer tudo por ele
até o fim dos seus dias. Cada dia Loreta quando sozinha gemia nos cantos da
casa sempre rezando e pedindo a Deus para ficar até o fim ao lado do Chefe
Polaco. Ela sorria ao lembrar-se dos meninos quando perguntavam ao seu amado
quantas noites de acampamento ele tinha. Ele ria e dizia: - Quantas estrelas
tem no céu? É só contar e saberão. Ainda
bem que Deus um dia me deixou viver nas barracas nas noites escuras e nos dias de
luar. Mas o tempo não perdoa, Loreta acordou pela manhã e olhou o Chefe Polaco.
Viu que ele não respirava. Quis chorar e não chorou. A dor que ela sentia do
câncer avançado não a perdoou. Ele se ajoelhou aos pés do seu amado e agradeceu
a Deus de lhe dar a oportunidade de partir com ele. À tarde Naninha a faxineira
os encontrou abraços e sorrindo um para o outro. Ambos estavam mortos.
No fim de tudo tu hás de
ver que as coisas mais leves não são únicas. Que o vento nunca conseguiria
levar. Como cantava o Velho poeta um estribilho antigo, um carinho em um
momento preciso, o folhear de um livro de poemas, o cheiro gostoso que chegava
com o vento soprando suave ao amanhecer. Chefe Polaco partiu com Loreta para uma
estrela distante. Quem sabe ela junto dele voltou a sorrir quando moça bonita o
conquistou. Quem sabe lá tem também escoteiros e o Chefe Polaco que tanto ama
estes meninos pode estar junto deles a contar suas noites de acampamento como as
estrelas no céu, o vento que derrubou a barraca, o lobo que comeu seu jantar.
Dizem que as crianças são quase sempre felizes, porque não pensam na
felicidade. Os velhos muitas vezes são infelizes, porque pensam demasiadamente
nela...
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