Contos de
Fogo de Conselho.
Memórias de
um Chefe Escoteiro.
Prólogo: - Abraão Lincoln comentou que
o caráter é como uma árvore e a reputação como uma sombra. A sombra é o que nós
pensamos dela, a árvore é a coisa real. Afinal o êxito da vida não se mede pelo
caminho que você conquistou, e sim pelas dificuldades que você superou no
caminho. E corrijo suas palavras que dirijo aos chefes de hoje: Não te esqueças
de que todos são seus amigos e irmãos mesmo que não os conhece. E melhor, todos
gostam de um cumprimento e de um abraço. Faça por merecer meu amigo Chefe.
Olhei para o relógio. Estava na
hora. Nem pensei quantas vezes e quantos anos fazia o mesmo nesta hora. Notei o
céu azul perdendo a cor e lembrei-me da frase do poeta ao entardecer: - “Não
chore por ter perdido o pôr do sol, pois as lágrimas te impedirão de contemplar
as estrelas”. - Em passadas curtas e sem pressa fui rumo a Sede Escoteira.
Rotina de anos e anos me levava até a porta e passar a chave e dizer: - Até o
próximo sábado que vem quando vou voltar! Dei a primeira volta na chave quando
a voz de Tomaz se fez presente. – Chefe posso falar com o senhor? Abri devagar
a porta. Entrei e convidei Tomaz para sentar. Sabia que tinha hora para chegar,
mas Naninha minha amada iria entender. Afinal a tarefa de viver e ajudar é
dura, mas fascinante. Não disse nada. Era sempre assim. Tomaz tomaria a
iniciativa. – Chefe, eu vou sair do escoteiro! – Não perguntei por que, sabia
que haveria um razão para que ele tomasse aquela decisão. Conhecia Tomaz há
muito tempo. – Lembrei-me quando da passagem ele chorando ao apertar minha mão
disse soluçando: - "Chefe, não troco o meu “oxente” pelo ok de ninguém”!
Tomaz... Mostrou seu valor nos quase oito anos
de escoteiro e lobo. Ninguém nunca reclamou dele. Nunca desistiu de nada. Era o
primeiro a correr como gente grande, a jogar como um atleta, a cantar como uma
cotovia, a sorrir como um herói. Quando caiu nas escarpas do Roncador, apareceu
logo a seguir subindo as pedras e dizendo: - Chefe! A gente tem uma tendência
para acreditar que o escoteiro não morre! Quando chegou da jornada de primeira
classe com um atraso de quatro horas, disse: - Chefe, o que nos salva é dar um
passo e outro ainda e nunca desistir. Ele respirou fundo e falou: – Chefe, meu
pai precisa de mim, a loja aumentou o movimento. Ele não pode contratar, afinal
sou seu filho de quinze anos e preciso ajudar. Dizem que ninguém doma o coração
do poeta, concordo. Não foi ele quem disse que não podia perder a vontade de
ter grandes amigos, mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles acabam indo
embora de nossas vidas? – Poderia ter perguntado se ele queria que conversasse
com seu pai, mas ele tinha tomado uma decisão. Precisava de apoio e não
aconselhamentos.
Dei-lhe um forte aperto de mão e não
faltou um abraço amigo do seu Chefe que o queria bem. A gente só conhece bem as
coisas que cativou. Ele se foi e com o tempo também se foram Antônio, Pedro,
Joaquim, Noé, Tomé, Rinaldo, José, Altair, João, Raul... Poderia ficar aqui
horas lembrando o nome de cada um que tive a honra de ser Chefe amigo e mentor.
Qual o papel do Chefe? Eu sempre me perguntava e as respostas nem sempre me
satisfaziam. Em um mundo que se faz deserto, muitas vezes temos sede de fazer amigos.
Seria isto? Ou seria que o mundo inteiro se abre quando vê passar um homem que
sabe aonde vai? O tempo passa a gente nem percebe o tempo passar. Hoje dizem
que tudo pode ser comprado, mas a mente dos jovens não tem preço e nem está à
venda. Ao meu modo ajudei e fiz da vida de muitos um caminho do sucesso.
Sucesso? Não sei. Muitos anos depois Tomaz me procurou: - Chefe preciso do
senhor. – Olhei para ele. – Quero que seja meu padrinho de casamento. Dizer o
que? Eu sei que sou um pouco de todos que conheci, um pouco dos lugares onde fui
um pouco das saudades que deixei e sou muito das coisas que gostei.
Muitos deles tive a honra
de encontrar um dia. Outros não. Baden-Powell dizia que a verdadeira felicidade
é fazer os outros felizes, outro poeta disse que a verdadeira felicidade vem da
alegria de atos bem feitos, do sabor de criar coisas renovadas. Ao meu modo
ensinei que a ética está acima de tudo, e para isto dei tudo de mim aos jovens
que acreditaram que o escotismo era uma força que habitava no coração e fazia
da mente uma mola para ser alguém de valor neste mundo. Eu sabia que a maior
habilidade de um Chefe é desenvolver habilidades extraordinárias em pessoas
comuns. Até hoje não me arrependo do que fui do que sou e do que fiz. Fiz tudo
para fazer outros felizes. Apertei a mão de milhares de jovens, me orgulhei de
muitos quando já adultos se mostraram a altura do seu Espírito Escoteiro. Eu
sabia que grandes homens e mulheres começaram por serem crianças mesmo sabendo
que a maioria não se recorda disso. A cada um quando via eu pensava: - Eu não
tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim, mas se tu me
cativas, nós teremos necessidade um do outro.
Fechei a porta da sede.
Devagar fui para o portão. Ao sair o barulho da cidade grande me fez viajar nos
meus tempos de escoteiro. Correndo pelas campinas, acampando em vales e pulando
na água fria de um regato, fazendo o que gostava e amando o que fazia. Sempre
disse que ia dar o mesmo para outros jovens. Não tenho arrependimentos.
Enquanto puder aqui estarei abrindo e fechando a porta da sede. Uma sina? Pode
ser. Ao ir para casa olhei novamente o céu. Pensei com a mente de um escoteiro
que é difícil uma pessoa contemplar o céu e dizer que não há um Criador!
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