Lendas
Escoteiras.
Um
beijo e depois morrer.
Prólogo:
- Ele era um Escoteiro o único negro da Patrulha. Morava em uma favela, ela uma
guia escoteira branca olhos verdes e cabelos vermelhos como o sol. Um amor
impossível. Ele viveu para ela toda sua vida mesmo não a tendo ao seu lado.
Eles um dia se encontraram na mesma árvore e no mesmo lugar. Foi então que
puderam viver o seu grande amor!
Ele gostava de sorrir brincar e cantar. Na
escola foi por insistência de sua mãe. – Charles, ela dizia, um dia ou vou
partir e você vai ficar sozinho no mundo. Não seja dependente de ninguém. Muitos
o chamavam de negro, mas ele não se importava. Quando a tarde chegava ficava na
porta de seu barraco esperando sua mãe chegar. Ela saia cedo, fazia o café
deixava no forno seu almoço e quando chegava fazia o jantar. Ele nunca teve uma
TV colorida. Sua mãe aproveitava as noites antes de dormir para lhe contar
belas histórias na poltrona desbotada. Ele amava as histórias de sua mãe. Em
uma noite chuvosa e com lágrimas nos olhos disse que seu pai tinha ido para o
céu. Ele não entendeu, mas ela o abraçou no final da história e o beijou varias
vezes no rosto. Nunca esqueceu o que ela contou. – Eles trabalhavam em uma
fazenda. Seu pai trabalhava renovando e fazendo cercas e capina. Um dia fazia
uma cerca próximo ao Rio Verde e uma enorme tempestade se formou. Um raio caiu
sobre ele. Morreu na hora.
Um mês após a morte o
Senhor da fazenda rudemente disse para eles desocuparem a choupana. – Eu
preciso de alguém para ajudar na lida da fazenda. A senhora e seu filho não
servem para nada. Tem uma semana para sumir daqui. Fazer o que? Ela partiu para
a cidade grande. Dormiram ao relento por vários meses. Foi com muita luta que
conseguiu um barraco na favela do Engenho. Ele aprendeu que precisava ser o
homem da casa quando ela saia para trabalhar. Todas as noites imaginava qual
história sua mãe ia contar. Ela repetia muito, mas ele adorava. Gostava do
Neguinho do Pastoreio e Pinóquio. Um dia na escola Norberto um menino rico
apareceu de escoteiro. Ele não tirou os olhos. Perguntou a sua mãe se podia
entrar. Ela riu e disse que não era para eles, lá só tinham ricos e brancos. Ele
tinha orgulho de sua cor e não entendeu. Na sua ingenuidade de menino sentiu
que não tinha lugar na sociedade. Um dia ela o levou e para surpresa ele foi
aceito. Os chefes foram simpáticos e ele gostou da sua Patrulha Lobo. Em pouco
tempo se enturmou. Sua mãe um dia contou uma história de escoteiro que ela
tinha lido. Foi demais.
Na Patrulha contaram para ele que foi “adotado”.
O Grupo Escoteiro pagava suas despesas. – Mãe, não podemos pagar? Não meu
filho. Estude para ser alguém e você não vai depender de ninguém. Ele gostava
de sua Patrulha, de acampar e excursionar. Aprendeu a cozinhar e fazer
pioneirías. Charles cresceu. Passou para os seniores. Estudava a noite e
trabalhava durante o dia na loja do seu Odorico. Pediu para não trabalhar aos
sábados a tarde. Ele precisava ir à reunião dos escoteiros. Ganhava metade de
um salario mínimo e ainda ajudava sua mãe. Um dia as meninas chegaram. Tinham
agora duas patrulhas completas com seis cada uma. Não se enturmou com nenhuma
delas. Era arredio e pensava que elas não iam aceitar um escoteiro com sua cor.
Um sábado Nathalya chegou. Cabelos vermelhos longos, um sorriso encantador. Sorriu
para Charles e disse até semana que vem. Ele não sabia o que dizer. Não sabia
como conversar com uma moça. Tinha vergonha. David o Monitor era o bonitão da
Tropa. Ela nunca seria para ele.
Em uma excursão no Vale Florido pararam
próximo a uma linda cachoeira. Ele não tirava os olhos dela. Ela o convidou
para sentar em uma sombra onde uma linda Copaíba se destacava. Ali alegre e
gentil ela contou muitas coisas sobre a sua vida. Charles encantado não sabia o
que dizer. Afinal era negro ela branca ruiva de cabelos vermelhos. Ela insistiu
pra que ele contasse um pouco de sua vida. Contar o que? Que morava em uma
favela e sua mãe era faxineira? - O apito do Chefe tocou três vezes. Reunir. A
hora maravilhosa daquele momento mágico havia acabado. Eles levantaram e para
surpresa de Charles Nathalya o abraçou e o beijou no rosto. Ele não sabia o que
fazer. Não foi um beijo que seus amigos se gabavam. Foi um beijo lindo, um
roçar de lábios olhando nos olhos e sentido seu perfume que exalava e ele audacioso
acariciou seu rosto, seus cabelos e de novo o apito do Chefe.
Foi um êxtase de momento. Uma
quimera de segundos, que Charles nunca esqueceu. Na semana seguinte Nathalya
não veio. Charles torcia as mãos, olhava para o portão e quando a reunião
terminou perguntou ao Chefe o que houve. O Chefe disse que ela não voltaria
mais. Era escoteira em outra cidade. Ela tinha pedido para participar das
reuniões enquanto estivesse aqui em férias.
Charles ficou em estado de
choque. Sentia uma dor incrível no coração. Sua mãe o abraçou e ambos ficaram
assim por um bom tempo com os olhos molhados com lágrimas. Charles nunca encontrou
outra moça para namorar. Não podia esquecer o momento mágico do afago e do
beijo entre ele e Nathalya. O tempo passou. Charles cresceu. Formou-se como
Técnico Mecânico. Sua mãe velhinha não trabalhava mais. Ele comprou uma casinha
mobilhou e comprou uma Televisão. Ela ainda contava histórias para ele. Charles
continuou Escoteiro colaborando sem ser um chefe. Durante toda sua vida uma vez
por mês Charles vestia seu uniforme, embarcava em um ônibus e descia próximo ao
Vale Florido. Sentava na sombra da Copaíba e sorria lembrando o dia mais feliz
de sua vida ao lado de Nathalya.
Ali sozinho ele Imaginava seu perfume, ouvia sua
voz e acariciava o ar pensando ser os seus cabelos vermelhos. Todo mês ele
voltava no tempo no Vale florido. Nunca esqueceu o roçar dos lábios de Nathalya
em seu rosto. Era incrível esta visão virtual, visão de um grande amor que
nunca morreu. Charles fez setenta anos. Ainda insistente ia aos domingos ao
Vale Florido. Com passos trôpegos procurava a mesma árvore. Nunca esqueceu o
amor que morava em seu coração. Durante toda sua vida nunca mais beijou
ninguém. Não sabia beijar e nem queria esquecer o beijo da Nathalya.
Charles morreu na primavera.
A Copaíba sentiu sua falta. O perfume que ela deixou em sua sombra nunca mais
se esvaiu. Nas suas exéquias Charles viu Nathalya em uma luz brilhante. Ela o convidava para ir viver em outra
dimensão do universo. Ele estático viajou pelo espaço até a Copaíba do Vale
Florido. Sentou com ela mãos dadas. Nathalya sorrindo disse que o esperou por
todo este tempo. Charles sorria. Sabia que agora estariam juntos para sempre e
ele voltava a viver um grande amor que nunca esqueceu!
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