Histórias e contos escoteiros.

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domingo, 18 de junho de 2017

Um acampamento inesquecível. (baseado em fatos reais).


Um acampamento inesquecível.
(baseado em fatos reais).

               Final da década de cinquenta. Tinha feito um CAB (Curso de adestramento básico) e liderava uma tropa escoteira no meu grupo de origem. Neste curso fiz muitos amigos, mas o Chefe Gafanhoto foi especial. Gente boa, educado, bom ouvinte quase não falava. Cantava bem, bom violeiro e um grande mateiro. Tinha um sonho de se alistar na Legião Estrangeira. Eu ria quando ele dizia isto e olhe até mesmo o invejava. Quem sabe eu também gostaria de viver estas aventuras? Foram cinco dias de curso maravilhosos e no final ele me deu seu endereço e levou o meu. Passado um ano e meio recebi uma carta dele: - Chefe! Que tal acamparmos juntos? Minha tropa e a sua. – Grande ideia Chefe Gafanhoto. Quando? - Vamos aproveitar janeiro do próximo ano.

            As correspondências foram frequentes naqueles seis meses que faltavam para nosso acampamento. A tropa esperava com ansiedade. Em fins de outubro recebi uma carta dele. – Chefe, o Senhor Molixto, pai de um Escoteiro tem uma fazenda próxima a Três Estrelas. Metade do caminho para mim e você. Acho que uns noventa quilômetros de sua cidade. Você passa Três Estrelas e marca mais cinco quilômetros. Vais ver uma bifurcação. Alí será o ponto de encontro. Até a fazenda são mais oito km. Teremos dois carros de bois para transporte do material do entroncamento até o local. O local é excelente, boa aguada, cachoeira, mata e muito bambu. Garantiu também que será por conta dele a carne de porco, arroz, feijão, batata verduras e frutas. Ele tem isto na fazenda!

                  Perfeito. Em outra carta confirmei o horário de encontro. A tropa vibrou quando contei sobre o acampamento. Consegui na prefeitura um caminhão lonado, Chefe João Soldado conseguiu o que precisávamos de alimentos no Armazém do seu Amadeus. Iriamos com quatro patrulhas. As patrulhas se reuniam preparando para a grande atividade. A Corte de Honra sempre discutindo o programa. Conforme combinado seria metade nossa e metade do Chefe Gafanhoto. Seriam seis dias acampados. Partimos em uma manhã chuvosa. O caminhão estava lonado. Rio Bahia, estrada de terra ainda sem asfalto. Noventa quilômetros. Chegamos às nove e meia da manhã. Corre daqui, corre dali, tralha nas costas, chuvinha intermitente e pegamos a bifurcação. Vimos à tropa do chefe Gafanhoto do outro lado de um pontilhão de madeira. O córrego cheio. Imenso. Passava por cima da ponte. Não dava para atravessar. Um barulhão tremendo das corredeiras.

                  A Patrulha Raposa montou um posto de transmissão de semáforas. Entendemo-nos. Armamos barraca debaixo de chuva e combinamos esperar a enchente diminuir. As patrulhas improvisaram um toldo e um fogão tropeiro. Saiu uma sopa com pão fresco. A Pica Pau insistiu que eu comesse com eles. À noite as patrulhas resolveram conversar por Morse. A turma do Chefe Gafanhoto era boa na sinalização. Dormimos cedo. De manhã sem chuva tempo cinzento e frio. A enchente diminuiu. Rogério Monitor me procurou. Chefe, as barracas estão cheias de escorpiões. Expliquei como fazer batendo os lençóis à banda da barraca e o vestuário individual para empacotamento em um tronco de arvore. Graças a Deus ninguém foi mordido. Resolvemos fazer a travessia em jangadas. Não dava ainda para atravessar na ponte. Cada Patrulha fez uma pequena jangada. Uma festa. A outra tropa gritando e ajudando. Às onze da manhã estávamos do outro lado.

                   Abraços, saudações, apertos de mão, gritos de patrulha. Partimos. Os carros de boi lotados. Sempre gostei deles. Emitem um som estridente que muitos chamam de carro Cantador. Dizem que são feitos assim para anunciar sua passagem. Chefe Gafanhoto brincando com todos, animando e cantando lindas canções escoteiras. Oito quilômetros tirados de letra. Chegamos à tarde ainda com sol. Seu Molixto gente boa. Comemos goiabas e bananas. Ele tinha uma carne de porco frita. Beliscamos mas iriamos fazer o jantar já com as patrulhas montadas em seu campo. Dei uma volta no local. Maravilhoso. A cascata era linda. Batizei-a como a Cascata da Fraternidade. Seis dias maravilhosos. Parecia que os sessenta jovens ali presentes se conheciam a longo tempo. Mais que irmãos. Seu Molixto um gentleman. Dois meninos filhos de um meeiro (morador da fazenda, planta e dá uma parte da colheita ao dono) se encantaram. Chefe Gafanhoto os colocou cada um em uma Patrulha.

                      Tiana filho do Seu Molixto uma bela morena dos seus quinze anos não tirava os olhos de mim. Fiquei triste quando partimos e ela chorou. Lagrimas e lagrimas em seus olhos. No acampamento teve de tudo. Bois que invadiram o campo à noite acordando todo mundo. Ricardinho pegou uma traíra de quatro quilos. Só vendo para acreditar. A luta da lança medieval no remanso da Cascata da Fraternidade valeu o acampamento. A jornada na Caverna do Vento outro. Começava em um lado da montanha e saia do outro lado sempre soprando um som estridente. Mais de dois quilômetros na escuridão. E os pistoleiros? Ficavam escorados no tronco da macaxeira a nos espiar. Seu Molixto dizia que eram de paz. Norbertinho em um jogo noturno caiu de uma arvore. Quebrou a perna. Levado a cidade voltou para o acampamento enfaixado. Ele mesmo fez uma muleta e não chorou. 

                      A falsa baiana em cima do remanso a mais de quinze metros de altura deu o que falar. A ponte pênsil que a Patrulha do Morcego fez durou dois dias com um belo tombo do Japirim. O ninho de águia da Patrulha Coruja dizem está lá até hoje.  Risos. A “desandeira” que deu em todos por comerem muita goiaba deu para rir a beça. Sempre um correndo para o WC que logo encheu! Final de acampamento. Meninos da fazenda chorando. Seu Molixto emocionado fez o juramento e recebeu os dois lenços um de cada grupo. Os dois pistoleiros vieram nos cumprimentar. Tiana me procurou dizendo que me amava e nunca mais ia me esquecer. Nunca mais a vi.  Retorno triste, Chefe Gafanhoto tentando animar. Partida chorosa, nosso caminhão lotado dando adeus. Edinho com sua bandeirola de semáfora transmitia até breve e adeus até o caminhão virar a curva da estrada. Meninos se acenando e chorando. Promessas de um novo reencontro. Amizades que se formaram e duraram por uma eternidade. Janeiro de mil novecentos e cinquenta e nove que entrou para a história.


                      Cinco anos depois recebi uma carta do Chefe Gafanhoto – Chefe Vado estou partindo para a França. Vou me alistar na Legião Estrangeira. Nunca mais o vi. Acho que seu sonho de ser um legionário foi realizado. Ainda deve estar escoteirando nas dunas montanhosas ao norte da Argélia. Sonhos são sonhos. Cada um faz o seu. Belo acampamento. Grande amigo o Chefe Gafanhoto. Nunca mais o vi e nunca mais o esqueci. Ficou marcado para sempre em meu coração.

nota: - Eu fiz centenas de acampamentos em minha vida. Cada um tem uma historia, mas este com a tropa do Chefe Gafanhoto ficou para sempre na memória de todos que estiveram lá. Coisas boas misturadas com fraternidade não dá para esquecer. Viagem comigo nesta bela aventura do passado, misto de sonhos, mas reais!   

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