sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Crônicas escoteiras. A lua de Mel do Chefe Rosinha.



Crônicas escoteiras.
A lua de Mel do Chefe Rosinha.

                 Tem Chefe que a gente não esquece. Não esquece mesmo. Chefe Rosinha era o maior cara de pau que conheci. Sabia conquistar, seu sorriso encantador um animador de fogo sem igual. Vi uma Pioneiría dele e fiquei embasbacado. Uma ponte pênsil de um tronco só e manuseada por quem ia atravessar o riacho. As guias e as escoteiras quando ele piscava para uma faltava só um sopro para ela desmanchar. Mas gente, era chegar ao fim da reunião todos indo para casa ele encostava em um Chefe, ou um sênior e dizia: Chefe Nonato, tem dez paus para me emprestar? – Nonato coitado era um amor de Chefe e não sabia dizer não.

               Quando o Chefe Rosinha ia saindo Chefe Nonato gaguejando como se estivesse pedindo desculpas disse: - E os mais de duzentos que você me deve Chefe Rosinha? – Com aquela cara de “besta” que Deus lhe deu ele sorria e dizia: – Você sabe, meu casamento é em novembro faltam três meses. Como lhe pagar com as despesas que tenho? Mas juro pelo defunto do Baden-Powell que vou lhe pagar! Ele devia a cidade inteira. Pegava mal para o Grupo Escoteiro. Donato o Chefe do Grupo resolveu fazer um Conselho de Chefes para discutir o assunto. Ninguém concordou em mandar o Chefe Rosinha embora.

                Chefe Rosinha conheceu Anita na parada de Sete de Setembro. Paixão a primeira vista. Estudante desfilava na fanfarra do Colégio Aparecida. Linda de uniforme branco da escola e ele sabia usar sua farda, tava bonito como ele só. Apaixonaram-se. Anita era como ele, nunca gastava sem necessidade. Cada tostão guardava. Mordia a língua para não comprar supérfluos. Todos benzeram o casal unha e carne e iam se dar muito bem. Um dia um chefe novato chegou para ele e disse: - Chefe Rosinha! O senhor poderia me emprestar quarenta reais? Pagarei na próxima reunião! – Ele sério respondeu – Prá que quarenta? Trinta é muito, vinte não! Penso em lhe dar dez, mas acho que cinco é o suficiente. Tome aqui um real e na semana não se esqueça de me pagar!

                     Anita e Chefe Rosinha se casaram em uma quinta. Dia de desconto na igreja e no civil. Fez de tudo para ser presenteado pelo tabelião Zenóbio e o Padre Rubinho. Desculpe Chefe, eu te conheço bem. Ou paga ou não casa. Rosinha ficou fulo, chamou Turquinho um sênior filho do Seu Zenóbio e pediu a ele que tomasse duzentos reais emprestado do Seu pai. Ele não deveria contar para quem era. No dia do casório no civil Chefe Rosinha depois de tudo assinado bateu no ombro do seu Zenóbio – Obrigado amigo pelo empréstimo dos duzentos que o Turquinho me emprestou. Ele sabe que nunca vou pagar e o Senhor sabe que nunca vai receber!

                    O grupo ofereceu os comes e bebes. Não é que o casal saiu mais cedo da festa? Levaram uma bolsa cheia de guloseimas que os Escoteiros compraram para os convidados! Disseram-me que o pródigo é arrogante e o avaro é mesquinho. É preferível a mesquinhez a arrogância. Seria verdade? Uma semana depois de casados, morando de graça num cubículo no fundo do quintal souberam do acampamento. Conseguiram folga e insistiram com o Chefe Nonato para eles participarem. Sereia na fazenda do Inácio Sapoti. Quando o ônibus chegou à fazenda os dois saltaram e procuraram o Inácio – Seu Inácio! Disse Chefe Rosinha, eu e a Anita casamos na semana passada e não seria de bom alvitre ficar lá no acampamento dos Escoteiros.

           Inácio os convidou para ficar em sua fazenda. Comida farta, um quarto enorme só prá eles, e toda a manhã frutas frescas. Lua de mel encantada! Voltaram sorrindo no final do acampamento. Inácio caiu na besteira em convida-los a voltar e claro eles voltaram nas ferias. Vinte dias comendo e dormindo de graça! Em um Conselho de Chefes Chefe Rosinha pediu a palavra – Sabem meus amigos, a Anita quer ajudar os lobinhos. Professora não tem como fazer o uniforme. Quem sabe vocês se cotizam dar um uniforme de presente de casamento para ela? Ninguém disse nada. O Chefe Roberto sorriu azedo. Eita cara pão duro!

         Não sei como o Grupo aguentou o Chefe Rosinha por tanto tempo. Nunca pagou ninguém. Fez seis cursos todos pagos pelo grupo. No sábado à noite terminada a reunião, foram para uma choupada. Chefe Rosinha e Anita cara de pau foi atrás. Contou piadas, riu a beça e até cantou musicas escoteiras. No final Bruno Cara Feia foi escolhido para recolher a parte de cada um. Novato não sabia como era o Chefe Rosinha. Quando foi cobrar ele disse – Olhe Bruno, pareço egoísta, mas esqueci da carteira. Voce paga e semana que vem eu lhe pago. E começou a rir. Chefe Bruno não gostou. Foi preciso da intervenção dos demais para não saírem no tapa.

         Chefe Rosinha saiu do grupo. Todos só foram saber o que aconteceu muitos meses depois. O danado ganhou um milhão e meio na Loto fácil. Sumiu de um dia para o outro. Sabia que iriam morar na frente de sua casa para receberem o que ele devia. Mais da metade da cidade. Dizem que ele foi morar em São Francisco do Sul. Até hoje o Grupo e a meninada sentem falta dele. Afinal era um boa praça, um pandego e claro um tremendo de um pão duro. Um dia apareceu na TV, levado pelo delegado por não pagar dividas. O pior é que estava de uniforme Escoteiro. Pode?

Nota – Dizem que não existem chefes escoteiros pão duro. Será? Bem a lenda diz que ele gasta do próprio bolso, paga as despesas dos seus escoteiros, costuma comprar uniforme para o mais humilde e leva lanche para todo mundo nas excursões. Lenda? Bem conheço muitos que fazem assim, mas não tem aquele pão duro? Quem sabe você pode comentar se conhece algum. Abraços fraternos.


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