sábado, 3 de fevereiro de 2018

“Vitória”.


“Vitória”.

                 Você me pediu que não saísse sozinha. Mas eu tinha de ir. Você sabe que aos sábados eu vou lá faça chuva ou faça sol. Sei que faz tudo por mim, é a minha neta que eu amo muito, mas não me prenda. Ainda preciso voar. Voce sempre me diz que deixou seu lar para morar comigo para tomar conta de mim. Nunca esqueci o dia que adentrou na minha casinha e disse: - Vó cheguei para ficar! Foi uma felicidade ter você ao meu lado, e vendo você sempre contente ao chegar do trabalho e me abraçar.

                Vez ou outra Você me diz que eu não sou mais uma criança. Só porque ainda faço minhas extravagâncias, pois não me sinto assim tão velha, mas você ralha comigo e diz que eu devo me comportar. Sei que cheguei aos oitenta anos e tem hora que penso que é tempo demais para viver. Deixei o celular na mesa. Se chegar antes de mim vai ver que seu recado estava lá. Não podia ficar eu tinha que ir. Era minha rotina ir para minha excursão na Praça das Recordações.

                 Era uma maneira de voltar no tempo, lembrar que mesmo nesta idade ainda tinha vida e meu coração pulsava pelo que sempre amei fazer. Eu gostava de ficar lá. Sentada naquele banco azul fechar os olhos e esperar. Eles não iriam demorar sempre foi assim um horário quase no estilo inglês. Nunca me apresentei a eles como escoteira. Foi um belo tempo, mas meu sonho acabou. Ainda amo e faço dele minha filosofia de vida. Mas agora era vê-los radiantes, lobinhos saltitantes a sorrirem e gritarem alto Melhor Possível Akelá!

                 Vou lhe dizer uma verdade, eu nunca me senti sozinha ali na praça. Os lobos me faziam rejuvenescer. Nunca esqueci aquele dia quando um deles chegou perto de mim, me olhou, piscou seus olhinhos sorriu e saiu correndo a contar para a matilha que viu uma velha no banco da praça. Eu sorria e chorava de felicidade. Meu coração ainda sangrava ao lembrar-se do meu passado. Voce sabe que eu fui importante um dia. Tinha fama, respeitada, tacos pendurados, todos fazendo saudação. Diziam-me que breve teria o Tapir, e eu sorria de emoção.

                Foram tantas comendas que orgulhosamente usava na minha farda querida. Não o culpo quem sabe a culpada sou eu. Achei que o amava e ele me amava também. Eu solteira e ele casado. Vivíamos apaixonados nos amando escondidos por aí. Um dia alguém nos viu, a cidade comentou o escotismo não me perdoou. Disseram que eu o seduzi que era prepotente, imaginosa, metida a bondosa, mas com coração de pedra. Lembranças que machucam lembranças que não quero lembrar, mas não desaparecem da minha mente.

                  Estou a ouvir as seis badaladas na Matriz. Elas marcam minha hora de voltar. Eu sabia que você nunca se atrasou e como você me conforta com seu abraço, me da o que nunca tive e ali olhando nos seus olhos de menina moça eu sorria de emoção. Era sempre assim. Meu coração sangrava das lembranças do meu passado que eu devia tentar esquecer. Chorava baixinho, como precisa do seu abraço! Meu Deus que vontade de abraçar alguém!


                 Sei que vou chorar a noite toda, todos os sábados são assim. Minha vida acabou quando me viraram as costas e disseram que ali não era mais o meu lugar. Eu sei que fui culpada, que mereci a exoneração. Mas Deus, quantas saudades, que vontade de voltar no tempo e tudo poder mudar. Eu sei que em um instante tudo muda. O passado nos leva ao desconhecido. Não existe mais futuro. Não se pode recusar e voltar aos velhos hábitos. Mas eu me contentava em dizer que não devia me prender ao passado, pois assim o futuro poderia nunca vir.

Nota - Insistir naquilo que já não existe é como calçar um sapato que não te cabe mais: machuca, causa bolhas, chega à carne viva e sangra. Então é melhor ficar descalço, deixar livre o coração enquanto vive deixar livres os pés, enquanto crescem. Quando a gente cresce, o número muda! Apenas um conto, nada mais...


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