quarta-feira, 14 de março de 2018

Histórias de Fogo de Conselho. “Gigante”.



Histórias de Fogo de Conselho.
“Gigante”.

                 A tarde despontava ser uma noite serena e agradável. Gigante tranquilo olhava alguns da Patrulha saindo do banho e se dirigindo ao campo de Patrulha. Não foi o primeiro. O Chefe Castelo sempre confiou na Patrulha dos Touros. Havia entre ele o Monitor um tácito entendimento de responsabilidade. Gigante sabia onde pisava. Um dos mais antigos da tropa foi eleito Guia e nunca usou seus direitos de dizer sim e não. Todos os demais monitores eram mais que amigos, eram irmãos.

                Gigante olhou firmemente a Serra da Capivara. Notou pequenas nuvens cor de cobre surgindo. Ainda não se podia deduzir se viria chuva ou não. De manhã viu um céu de brigadeiro e pensou: - “Orvalho de madrugada, faz cantar a passarada”. Fizeram uma inspeção e deram a primazia ao Topázio, um lobinho advindo da Alcateia e que despontava ser um escoteiro que podiam orgulhar.

                Não tinham um programa escrito. A Patrulha sabia o que fazer. Seriam três dias e já se passaram um e meio. O almoço foi uma bela traíra que Ponte Alto pescou no dia anterior. Consuelo avisou que o Senhor Malenkaia viria participar do Fogo de Conselho do Sábado. Gigante sorriu. O Senhor Malenkaia era sempre bem vindo. Amigo e proprietário contava belas histórias nas noites da fogueira.

                Não precisou alertar sobre a revisão dos espeques, dos cabos e da ponteira das barracas de duas lonas. Todos sabiam sua obrigação. Viu com carinho que as valetas em volta das barracas estavam limpas e a saída renovada. Gigante tinha receio da Barraca da Intendência. Ganharam um pedaço de nylon que foi de um paraquedas doado pelo Doutor Nonato e o transformaram em uma barraca. Mesmo bem armada ele não confiava se viesse uma tempestade daquelas.

                Tudo revisado viu que Mario Bateu preparava o jantar. Uma sopa de legumes que ele colheu próximo ao rio Morcego. Achou uma bela abobora e todos sabiam o que ele iria fazer. Combinou durante o almoço fazerem nesta noite um ver sem ser visto. Dois bastões no escuro e com olhos vendados cada um iria passar por eles sem esbarrar em nenhum. Parecia simples, mas não era. 

               Gigante olhou novamente a Serra da Capivara. As nuvens aumentaram. Eram enormes. – “Nuvens baixas cor de cobre, é temporal que se descobre”! Observou com cuidado o vento. Viu que as árvores balançavam. O capim gordura se entrelaçava com ramos de samambaia e as formigas corriam espavoridas para sua morada sob a terra.  Gigante sabia o que ia acontecer. Precisavam proteger a barraca de intendência. Ela seria o principal alvo da ventania.

              Não ouve dois tempos e nem contratempos. O céu jorrou a maior tempestade que Gigante tinha visto. Chico Lontra o sub gritou: - Se preparem! A coisa vai ficar preta! – Coisa? Se os trovões os raios fossem “coisas” eles que rezassem, pois tudo ficou escuro e uma ventania incrível se abateu sobre o Campo dos Touros. Gigante viu Topázio chorando. O vento incrivelmente forte soprava e ele com medo começou a chorar.

              Prendeu Topázio no tronco da Aroeira com uma corda usando um fiel duplo. – Força escoteiro! Gritou. Logo esta tempestade vai passar. Correu a ajudar os demais na barraca de intendência. Ela parecia se entregar aos ventos de um vendaval que nunca vira. Zoroastro o intendente segurava a vara com um cabo trançado. Consuelo e Mario Bateu abraçavam o dorso da barraca que não se comportava como um escoteiro obediente e disciplinado.

              O vento aumentou. Parecia que ia varrer o campo de Patrulha. O céu escureceu, e os raios pipocavam iluminando a mata do Roncador. Gigante pensou: - “Se tens vento e depois água, deixe andar que não faz mágoa”! Vinte minutos onde o inferno parecia brotar naquele acampamento escoteiro. Procurou ver com estava Topázio e não o viu. Meu Deus! Proteja este escoteiro!
 
             Aos poucos o vendaval diminuiu. A chuva ainda caia aos borbotões. A barraca da Intendência fora salva. Sorriu ao ver a água empoçada dentro das três barracas de duas lonas. – Do mal o menor, pensou! Nada que um fogo amigo para passar a noite molhados. – Da trilha da Lontra viu Topázio chegando com a bandeira segura no dorso. – Salvei a bandeira Monitor! Todos sorriram. O mastro estava caindo no chão.

              O Senhor Malenkaia no Fogo de Conselho quis saber como foi o vendaval. – Aquela chuvinha? Disse Topázio. Todos riram. É... Uma chuvinha que ficou para a história daqueles seis valentes escoteiros da Patrulha Touro!  

Nota – O Chefe Fabio Neiva gentilmente me convidou para escrever um conto sobre a foto de Pierre Joubert onde escoteiros lutavam para segurar uma barraca de um vendaval que caia no campo de Patrulha. Andei meio “perrengue” nos últimos dias frequentando meu amigo do Jaleco branco. Ao Chefe Fabio dedico este conto. Não foi melhor porque minhas escritas andam meio descuidadas. A mente do velho escoteiro já não é mais a mesma. Abraços Chefe Fabio Neiva, um dia deste terei a honra de apertar sua mão.

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