sábado, 31 de março de 2018

Lendas Escoteiras. Apenas uma patrulha escoteira... E nada mais!



Lendas Escoteiras.
Apenas uma patrulha escoteira... E nada mais!

                          - Bonifácio Luz era o monitor. Tomé Lindolfo o sub. José Nonato o intendente. Flávio Rosado o Cozinheiro. Tomás Lívio o Bombeiro e lenhador. Nas horas vagas socorrista. Eu Wantuil Leal o Escrevente e Construtor. A Patrulha Touro tinha história para contar. Vinte anos de vida! No oitavo livro da Patrulha tudo que importasse era anotado. Os acampamentos, as excursões às viagens, os distintivos conquistados e até mesmo as estrelas de atividade. Ela tinha um lema: - O que é de um é de todos! O grito de Patrulha simples, mas que viveram no coração de todos que nela participaram: – Qui, que, code, com o Touro ninguém pode!

                         Já tivemos oito escoteiros. Agora seis. Todos grandes amigos. Se um aparecia tinha que ficar para o almoço ou o jantar. Ninguem era rico, Flávio Rosado o cozinheiro era o mais bem aquinhoado. Seu pai Escrevente do cartório ganhava razoavelmente bem. Tomé Lindolfo o sub o mais pobre. Negro, morava na Favela do Chico Bento. Ali era seu lar e o nosso também. Chefe Lontra quando chegava apertava a mão de cada um e perguntava: - E aí turma, como foi à semana? Sempre a mesma coisa entra sábado sai sábado fora quando íamos acampar. Chefe gente fina, nosso herói. Podíamos procurá-lo a qualquer hora do dia ou da noite e ele sempre com aquele sorriso de amigo e irmão mais velho.

                       - Ferroviário conseguia passagens de primeira classe para onde quiséssemos ir. Um dia nos convidou para um passeio até Baixo Guandu em um comboio de mais de duzentos vagões de minério. Foi demais. Estávamos em reunião de patrulha quando ele se aproximou: – Dá licença? – A casa é sua Chefe! – Este é João Quaresma. Pensei em colocar na Patrulha de vocês! Bonifácio comentou – Ele é bem vindo Chefe! - Chefe Lontra sorriu e o apresentou a todos nós.

                     João Quaresma era alto e forte. Tenho doze anos. Ninguém acreditou. Parecia ter quatorze. Sorridente, aspecto de sabe tudo. – Quem é o monitor? Perguntou. Sou eu disse Bonifácio Luz. Ele olhou Bonifácio de cima em baixo. Tem eleição para ser monitor? – Não tem. O Chefe indica a patrulha opina. Foi seu primeiro dia. Cada um olhando o que ele fazia e como fazia. Dizem que o primeiro dia do novato é madeira de dar em doido. Mesmo exigindo dele aos poucos fomos nos acostumando com João Quaresma. A Patrulha tinha quatro segundas classes e dois primeira. Não havia noviços. João Quaresma foi o primeiro noviço a chegar à patrulha.

                        Fiquei em duvida. Será que ele queria se mostrar? Mostrar o que? Escotismo não dá para isto. Nos jogos ele dava a alma e a vida para ganhar. Acostumamos a jogar em equipe. Quem ganha é a Patrulha e não um só patrulheiro. João Quaresma queria ganhar sozinho. Na Reunião de Patrulhas comentamos e ele não deu bola. Fizemos um Conselho de Patrulha e ele concordou em trabalhar como equipe. Um dia procurou o Chefe Lontra para dizer que estava pronto para ser um primeira classe. Chefe Lontra o levou até a sede. Conversaram sobre isso. – João tem uma escada. Primeiro a promessa o demais depois.

                       Na quarta reunião chegou uniformizado. Bonifácio tentou contornar e ele não ligou. Na ferradura durante a inspeção quando ele ficou em posição de sentido e mostrou às mãos limpas e unhas cortadas o Chefe não disse nada. Ao dirigirmos ao canto de Patrulha Bonifácio disse que o Chefe queria falar com ele. – Foi embora naquela tarde revoltado. O Chefe o mandou de volta. Sabiamos que uniforme só na promessa! No portão deu uma banana para todos e disse que nunca mais ia voltar. Mas voltou. No sábado seguinte de cabeça baixa pediu desculpas.

                    Desse dia em diante João Quaresma virou outro. Obediente, disciplinado, cumpridor de ordens e sempre dando bons palpites. No acampamento na Foz do Rio Iguaçu ele nos surpreendeu. Acordamos fora do horário. Tinha a física as seis, o café as sete e a inspeção as nove. Acordamos por volta de sete e meia. Na noite anterior antes de dormir fizemos um Conselho de Patrulha. Decidimos o que cada um devia fazer. Nossa pontuação deixava a desejar. João Quaresma levantou no horário, tinha feito o café, renovou as amarras das pioneirías e o vasilhame estava um brinco. João Quaresma parecia entender do riscado. Na inspeção o Chefe sorriu. O campo ficou nos trinques.

                  Não ficamos em primeiro lugar e sim em segundo que era bom demais.  O tempo foi passando e João Quaresma mostrava suas qualidades como escoteiro. Agora já era um dos nossos. Foi uma festa sua promessa. Alguns meses depois recebeu sua segunda classe. Fez jus as especialidades que conquistou. Nunca nos convidou para ir a sua casa. Quase um ano de Tropa e não sabíamos quem era seu pai e sua mãe. Ficamos sabendo que morava no Bairro do Toledo e só. Um dia no Conselho de Patrulha nos fez um convite. Quero que vocês almocem domingo comigo. Não reparem casa simples e singela. Ele morava em um barraco de madeira. Na porta ele e sua Avó, sorrindo. Não tinha pai e nem mãe. Um almoço de primeira. Sua avó quase não podia andar e se aproveitava de uma bengala simples.

                João Quaresma a partir daquele dia selou para sempre a amizade com todos os patrulheiros. O tempo passou, Crescemos e viramos homens sem perceber. Bonifácio Luz virou prefeito da cidade. José Nonato foi para o Acre atrás de ouro que o faria rico. Tomé Lindolfo abriu uma casa de material de construção. Flávio Rosado tinha o melhor restaurante da cidade. Tomas Lívio virou bombeiro e já era capitão. João Quaresma casou com uma dama rica e foi morar na capital.

               Anualmente nossa patrulha se encontra para um papo gostoso em algum lugar. E eu? Eu continuo o mesmo, Escoteiro, aprendiz de sonhador. É o tempo passou e nem mesmo sei nesse momento quem sou. Enfim, sei quem eu era, quando me levantei hoje de manhã, mas acho que já me transformei várias vezes desde então. Bom domingo!


Nota – Apenas uma Patrulha. Touro era seu nome. Bonifácio Luz era o monitor. Tomé Lindolfo o sub. José Nonato o intendente. Flávio Rosado o Cozinheiro. Tomás Lívio Bombeiro e lenhador. Eu Wantuil Leal o Escrevente e Construtor. João Quaresma o novato virou Faz Tudo e nas horas vagas socorrista. Afinal amávamos a patrulha Touro e o nosso Chefe Lontra.

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