segunda-feira, 19 de março de 2018

Lendas Escoteiras. Velhos Escoteiros não contam histórias...



Lendas Escoteiras.
Velhos Escoteiros não contam histórias...

                      Bela tarde, ainda havia sol e eu gostava de ficar ali em minha varanda lembrando os belos espetáculos da natureza que vi na minha juventude. Ali só avistava a rua e casas. Não dava para ver montanhas, arvores e muitas vezes nem mesmo o céu azul. Um automóvel parou na minha porta. Quem poderia ser? Não eram meus filhos, nunca chegavam a esta hora. Desceu do veículo a figura que menos esperava em minha casa. Nada mais nada menos que o Chefe Jack Sparrow, ou melhor, o Comissário Plutarco.

                    Era famoso no meu tempo. Seu distrito Escoteiro foi reconhecido com o melhor até no exterior. Diziam que ele era a cara do personagem de Johnny Depp no filme que lhe deu fama. Eu já o conhecia a muitos e muitos anos e a coleção de seus livros que escreveu há tempos. Era mesmo uma figura imponente. Cabelos brancos, um sorriso magnífico, um porte de Velho lobo que o fazia ser o que sempre foi. Um Comissário puro nos seus pensamentos nas suas palavras e nas suas ações. Chegou uniformizado a caráter. Caqui curto e chapelão. 

                      Fiquei cismado com sua visita. Claro uma bela visita. – Entre meu amigo, muitas saudades de você. Ele abriu aquele enorme sorriso e me abraçou como sempre fazia. – Perguntou-me: - Vamos conversar aqui na varanda? - Você quem manda meu caro Chefe. Jack estava chegando aos seus oitenta anos. Três a mais que eu. – Chefe eu vim aqui especialmente para lhe fazer um convite. Olhei espantado. Ele continuou: – Andei meio afastado do Movimento. Senti saudades e vi que voltar não dava mais. Ando com dificuldade e você sabe, nesta idade sempre temos surpresas que a velhice nos reserva.

                    - Sabe Chefe há meses convidei outros amigos e fizemos um clube de Antigos Escoteiros. Era bem vindos quem passou dos sessenta e cinco anos. Somos dezoito, turma alegre e com alto espírito escoteiro. Não interferimos com o que fazem hoje, vivemos a rememorar as coisas boas do passado. - Alguém deu a ideia de fazermos um acampamento uma vez por ano.  – Olhei espantado para ele. – Não me convidou Chefe Jack? – Não me lembrei. Por isto agora é meu convidado de honra.

                        - Vamos acampar no mês que vem. Seremos quatorze participante. Se você aceitar seremos quinze. – Pensei com meus botões, acampar hoje? Mas porque não? Claro que tenho dificuldades em abaixar e levantar, e o pulmão não costuma colaborar, mas poderia dar um jeito. – Chefe Jack, os demais são como eu? Ele riu. Tem um que vai em cadeira de rodas, está vindo de Salvador. Tem outro do Rio que anda de muleta! E daí? Somos Escoteiros e não vamos morrer sem fazer nossos acampamentos. Afinal sabemos ou não improvisar?

                         - Sorri. Seria o último de cada um? Pode até ser, mas todos os anos um vai acontecer! Celia chegou com seu cafezinho mineiro e depois dos apertos de mãos, abraços entrou na conversa. – Osvaldo ela disse. Você tem de ir. Tem de voltar aos velhos tempos meu marido! Minha mente fervilhava. Acampar novamente? Será que ia aguentar? Seria um desafio para mim. Se o Chefe Jack e outros toparam eu não iria ficar de fora. Chefe Jack Sparrow se despediu lá pelas onze da noite. Mando para seu e-mail o dia a hora e o local aonde vamos nos encontrar.

                        Meus preparativos foram divertidos. Parecia ter voltado ao tempo de menino quando ia para algum acampamento. Eu parecia aquele Vado do passado, olhando a mochila, limpando, passando meu uniforme, dando um trato na minha faca e meu facão, desinfetando meu cantil e achei lá no fundo do baú meu cabo ainda costurado como gostava. Achei a capa preta e sorri. Lembranças incríveis ela me trazia. Célia me levou ao local do encontro. Cheguei em cima da hora.

                      Que prazer em ombrear minha mochila como nos velhos tempos. Turma das boas. Ei Chefe! Eu sou fulano, sempre alerta! Prazer em conhecer você. Vai ser bom convivermos por três dias juntos! – Palavras de ordem que a gente nunca esquece. No Ônibus parecíamos meninos a ir acampar. Bom demais. E a cantoria? E as tosses? E os remédios cruzando de mãos em mãos? Claro todos levavam seus apetrechos farmacêuticos. Esqueci, havia uma mulher. Clarice uma DCIM muito conhecida e famosa. Hoje nos seus 84 anos era linda como foi no passado.

                    O local era maravilhoso. Um bosque, um riacho cantante (adoro riachos que cantam), as barracas ainda por armar e o Chefe Jack Sparrow sempre motivando a todos. Combinei com ele de uma barraca só minha. Seria uma aventura entrar nela, deitar, levantar várias vezes a noite e voltar. Mas sei que valeria a pena. Uma pequena casa com algumas camas e uma cozinha completavam nosso campo. Combinamos de nós mesmos cozinhar. Dividimos em patrulha. Interessante que a minha falta de ar e minhas dores diminuíram. Sentia sim saudades do meu amor.

                    Fiz uma polenta que deixou todos de água na boca. Ao lado da casa tinha muitos bambus cortados. Minha poltrona do Astronauta não ia ficar sem fazer. Saiu uma mesa quadrada, um fogão suspenso e várias artimanhas e engenhocas que todos conheciam e sabiam fazer. Interessante, ninguém gemia a não ser uma tosse aqui e ali. Faz parte da velharia diziam. Todas as noites nos reuníamos em volta de um fogo. Cada um cantava, apresentava um número qualquer. Às vezes ficamos até às duas da manhã olhando as estrelas, o firmamento e lembrando... E lembrando!

               O Fogo de Conselho do último dia foi inesquecível. Ninguém conhecia o Serafim. Rí à beça quando aquela velharia caindo de solapa no chão. Há muito tempo não ria assim. Era gostosa aquela irmandade aquela fraternidade. Ninguém baixou a barraca de enfermaria. Na canção da despedida nunca vi tantos velhos Escoteiros chorando. Ao terminar nos abraçamos com lágrimas nos olhos. No final do domingo veio à partida. Tudo desarmado e inspecionado. Ali só tinha gente “braba”. Lis de Ouro, Escoteiro da Pátria, Insígnia de BP, DCBS DCIM. Sentia-me um pata tenra.

              Na despedida vozes embargadas. Célia me esperava. Eu fiquei ali até o último partir. Ainda chorava. Sou Velho e chorão. E então e então... Acordei. Era um sonho. Belo Sonho. Que vontade danada de acampar assim. Um dia desses junto minha tralha e vou para meu ultimo acampamento. Não posso fugir do meu destino Escoteiro. Afinal Bengalas são provas de idade e não de prudência. Aceitam acampar comigo?

Nota - Quando a velhice vier, não quero ser adulto nem chato. Quero metade da minha infância e outra metade velhice! Criança, para não esquecer o valor do vento no rosto; Velho para que eu nunca tenha pressa em chegar...

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