sexta-feira, 31 de março de 2017

Carta de um Escoteiro 2° classe.


Carta de um Escoteiro 2° classe.
(Conto de autoria do "Chefe" Escoteiro Sergio Augusto Vanti)

Nada jamais continua. Tudo vai recomeçar! E sem nenhuma lembrança das outras vezes perdidas, atiro à rosa do sonho nas tuas mãos distraídas.

Querido papai

Andava eu pelas ruas como faço habitualmente buscando algum biscate que me permitisse beber um gole a mais... Tu sabes como sou. Deparei-me com a sede de meu velho grupo Escoteiro. A porta estava aberta, entrei tudo abandonado, cheirando a velho e mofo. Senti como um baque, um murro no peito a dor no coração. Vi-me menino em meio aos bons camaradas da patrulha, a formatura, os gritos de tropa, os jogos... Súbito alguém me chama pelo nome, me viro olho quem me chama.

 Surpreso, meio envergonhado vejo que é Mauro, meu antigo monitor. - José és tu mesmo? Mas quantos anos, que fazes aqui? - Um estrondoso silêncio é minha única resposta. Chega! É demais, viro as costas saio correndo o passado me afoga em meio a doces e dolorosas lembranças.

       Papai tu lembras quando eu era um menino, levaste a mim e meu irmão ao grupo escoteiro, pela primeira vez? Lembra que me contavas como sonharas em ser escoteiro e tua pobreza nada te permitia senão estudar e ajudar em casa? A tua alegria quando teus dois amados filhos te disseram “Sempre Alerta”? Eu me lembro de papai, isto eu não esqueci. Lembro-me da fé que tinhas no escotismo e dizias sorridente: - O velho BP sabia das coisas, “Os escoteiros podem guiar a nação”.

       Lembro-me do teu orgulho, não cabias em ti de felicidade no dia de nossa Promessa. Meu coração saindo pela boca, à seriedade de meu irmão, eu dizendo “Prometo por minha honra cumprir os deveres para com Deus, a minha Pátria e o próximo... Lembro, pai, naquele dia te vi chorar, quando me pusestes o chapelão. Só tinha te visto chorar uma vez, quando mamãe faleceu”.

       Corro para minha casa imunda, bato a porta, não consigo parar de chorar. Pai, a muito não cumpro minha promessa feita a Deus, a Pátria e a ti. - Lembro-me do dia em que te falei: - Vou deixar a Tropa Sênior. Tu me perguntaste, por que meu filho? Até hoje não sei, pai. - Do dia em que te disse: - Não vou estudar mais. Do dia em que saí de casa.

Voltei para te ver quando quase já não estavas aqui e partiste com tua mão entre as minhas, um sorriso no rosto cansado, dizendo, Sempre alerta, querido.

Como pude como pude ser tão mau filho, tão pouco escoteiro?

       Tiro debaixo da cama uma velha mala com as poucas coisas que não vendi. Roupas, fotos amareladas, uma faca, lembrança da segunda classe, e meu uniforme cáqui, meu querido uniforme que eu desonrei os distintivos, o numeral. Lembras papai, com que felicidade nos entregou as custosas fardas, que no dia a dia de homem simples economizaste para mandar fazê-las?

Queria ver teus filhos, garbosos escoteiros. Estendida sobre a cama, encharcada de um pranto incontrolável, tento sentir as pontas de teus dedos no pano que muitas vezes tocaste, muitas vezes abraçaste com tanto carinho ao final de cada reunião.

       Pai, como errei tanto? Serei passível de perdão? Olho para o puído distintivo de Promessa sinto a dor abrasar meu coração. Devo estar ficando louco. Como uma adaga perfurando um corpo sedento de redenção... Sinto-te soprar em meu ouvido: - Filho, sempre é tempo de cumprir nossa promessa!

Alucinado arrependido em doloroso despertar, entre soluços jogo-me de joelhos ao sujo piso, ergo a voz com o fervor de uma oração. Neste momento abençoado, eu renovo minha promessa, redimir-me hei de minhas faltas, deixarei esta maldita vida, cumprirei os meus deveres!

Por ti, meu amado pai, pelo escotismo, pelo Brasil!

 Palavra de escoteiro! - Sempre alerta, querido papai.

Teu sempre, José.


- Escrevi este pequeno conto há tempos. Dedico a meu amado pai, e aos verdadeiros amigos escoteiros que me acompanharam nesta renhida luta de educar, em especial a Elisa, Bepinho, Augusto, Marques, Michel, George, Júlio, Tiarles. Vocês moram em meu coração! – Sergio Vanti.


 Sergio Vanti escreveu este conto há muito tempo. Desafiei alguns amigos a me mandarem seus contos para publicar e Vanti aceitou o desafio na hora. Uma história perfeita, e por isto resolvi publicar novamente depois de anos. Sergio foi um baluarte do Grupo Escoteiro Voluntários da Pátria. Espero que gostem, eu gostei demais e já disse ao Vanti que devia se dedicar mais a escrever histórias e contos escoteiros. 

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