terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Conversa ao pé do fogo. Meu Chefe, meu comandante, meu herói.


Conversa ao pé do fogo.
Meu Chefe, meu comandante, meu herói.

                              Chefe! Galo não tem dente! Os escoteiros quando ele contava morriam de rir. Eis que ele saca de uma foto com um galo cheio de dentes! Quando ele contava suas histórias ficávamos vidrados na sua palavra no seu jeito de contar. Chefe Joe foi o que faltava na tropa Escoteira. Na cidade o chamavam de Comandante. Era respeitado, foi piloto da F.E.B (Força Expedicionária Brasileira) e pilotava um P.51 – Mustang. Gostava quando diziam: - “Senta a Pua”. Sabia que significava que o piloto tinha coragem e que na hora da disputa aceleravam o avião o mais rápido possível.

                             Tudo mudou depois que ele chegou. A tropa cresceu. Muitos que saíram voltaram. Chefe Nelson chorou quando foi embora. Ninguém conhecia o Chefe Joe. Cinquenta anos. Loiro, alto, sem bigodes, cabelos cortado a militar. A Patrulha de Monitores estava acampada ha dois dias as margens do Riacho Grande. Nunca participei de um acampamento como este. O Chefe Joe sabia como nos fazer felizes. Foi o primeiro. O Chefe Joe deu férias para os seis escoteiros que ainda frequentavam. Dizia que sem bons Monitores e subs não podia haver uma tropa escoteira.

                          Criamos enorme admiração pelo Chefe Joe. Era excursão, jornadas, bivaques e acampamentos. Cada um mais gostoso que o outro. Aprendemos com ele cada técnica mateira que nunca sonhávamos. A arte do uso do cipó foi tão “bacana” que abandonarmos inteiramente o sisal. Pela primeira vez ele nos contou a história de Ventania. Quase dez da noite. Um céu estrelado, um fogo calmo e ele contando. – Meninos, Ventania tinha dentes, podem acreditar. Tudo começou quando eu precisava de ovos e o dono me mostrou como ele ficava no galinheiro. Ficamos encarando um ao outro. Caminhei até o primeiro ninho e ele me deu uma mordida na perna e uma esporada no braço com sua perna direita.

                      - Sua espora era enorme – Olhei para ele e disse - Quer briga? Vais ver com quem está se metendo! Sou um Comandante! Estive na guerra! Um galinho de nada me desafiando? Preparei para lhe dar um soco e ele me devolveu com outra esporada. A galinhada se divertia. Uma algazarra no galinheiro. - Galo maldito!- Eu disse. Ele érea o dono do galinheiro. Queria só duas dúzias de ovos fresco e o que recebi foi esporada e bicada de um galo metido a besta.

                        A Patrulha rolava de rir. Ninguém se esqueceu do galo com dentes. Ele nos ensinou a se fantasiar de soldado, de índio e como ficar no escuro da noite. Treinou os monitores e subs tão bem que pedimos para aqueles acampamentos serem repetidos.  Eu o vi muitas vezes ficar de pé balançar a cabeça e dizer: - Tenho que liderar, tenho que liderar. Meu corpo depende de mim! Em pé! Firme! Então ele ficava ereto e andava em linha reta indo e voltando. – A gente não entendia, mas aos poucos seus exemplos e explanações nos fizeram aprender a liderar com amor.

                        Quatro meses. O dia D. Na sede ele disse: - Vocês estão preparados. Vamos chamar os que se inscreveram. Compete a vocês agora fazer o que eu fiz. A Patrulha será de responsabilidade de cada Monitor. Em um mês e meio não havia mais vaga. Chefe Joe era único. Ele sabia como dirigir a tropa, como acompanhar e orientar. Uma noite acampados no pé da Serra da Serpente alguém falou! – Chefe o senhor conseguiu os ovos no Galinheiro do Josenilton? – Ele ria, e como ria. Um sorriso contagiante. – Não levei nenhum. Se o Ventania defendia com tanto vigor seu lar não seria eu quem iria obrigá-lo a fazer o que não queria. Quando sai do galinheiro, ele se reuniu com outros galos, chamou as galinhas e deram uma tremenda vaia em mim! Kkkkkk!

                - Isto é mesmo verdade Chefe? – Claro, mas o melhor foi no dia seguinte quando me viu e se se posicionou para briga. Eu não entrei. Não ia de novo brigar por uns ovos. Josenildo me trouxe três dúzias e um pintinho. – Como recordação Comandante. Se tiver um lugar pode criar sem susto. É filho do Ventania. E não é que era verdade? Com dois meses os dentes começaram a nascer.  Vendaval mora comigo até hoje. É meu amigo, meu companheiro e toma conta de minha casa como ninguém! – Pensei em pedir a ele para conhecer o galinho Vendaval, mas duvidar não seria próprio dos seus escoteiros. A tropa ia a pleno vapor.

                  Uma tarde de verão Chefe Joe chegou à sede. Abriu a porta mala do seu carro, fez uma saudação Escoteira. Ninguém entendia, saltou de lá um galinho. Cheio de dentes. Era o Vendaval. Tal pai tal filho. Ninguém podia se aproximar. Como rimos. O livro de Atas da Corte e de todas as patrulhas ficou cheio com os relatos dos escribas. – Meses depois acampados na Bacia da Onça, à noite olhávamos para o céu, vimos um cometa passando e deixando um rastro de pedras preciosas. Estávamos todos em silêncio.

                   Chefe Joe estava calado. Olhei para ele e vi que estava pensando no seu Mustang nas lutas infernais que participou. Ele sorriu e contou: - Era um céu laranja cheio de bombas estourando foguetes zumbindo no ar, a cor purpura explodindo em um céu que iluminava o piloto tentando escapar com seu paraquedas. Seu avião uma bola e fogo a cair em meio da metralha da noite.

                     Acho que foi no último acampamento que ficou conosco. Estávamos na porta de sua barraca, bancos baixos, um café na brasa um biscoito uma bala de hortelã. Com olhos fixos no céu ele contou: – Sabem, quando precisarem compreender melhor uma situação, um problema, é preciso ver as coisas com certo distanciamento. Se tiverem aborrecimento, injustiças, desgostos, sonhem que estão em um Mustang, subam com seu avião às alturas e olhem lá embaixo as pessoas. Tão minúsculas. Pequeninas e nós somos tão grandes! Porque nos preocuparmos com pequenas coisas? Eu fazia isto e olhe, meu equilíbrio emocional voltava e a raiva desaparecia. Eu nunca tinha visto um Mustang. Eu forjava um na minha mente. Mas era um Teco-Teco o único que conhecia. Mas me sentia um verdadeiro piloto. Ria de mim mesmo ao me chamar de Comandante!


Nota: - - Deus sabe o que faz. Trouxe-nos o melhor Chefe do mundo. Todos os escoteiros da Tropa Senta Pua tem muito orgulho do Chefe Joe. Nas noites de verão acampados nos lembramos dele. A Patrulha de Monitores sempre está em ação. Gosto disto. Adoro ser Escoteiro e ter um Chefe como o meu Comandante me faz vibrar e me orgulhar do querido movimento. O Avestruz Guerreiro do "Senta a Pua!" foi para a FAB o que representa o emblema "A Cobra Está Fumando" para o Exército, através das batalhas de Monte Castelo, Montese e outras, sustentadas e vencidas pelos heroicos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira.

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