sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Lendas da Jângal. O mistério dos sinos da Catedral. Um conto para lobinhos.


Lendas da Jângal.
O mistério dos sinos da Catedral.
Um conto para lobinhos.

                  Há muitos anos eu conheci uma cidade no interior do sertão de Minas Gerais. Nem sei como fui ali parar. Meu carro deu defeito e tive que procurar alguém para consertar. Estava indo para Sertânia e fui parar em Terra Santa. Pequena, menos de dez mil almas. Nem hotel tinha. Fiquei na Pensão das Esmeraldas de Dona Eufrásia. Para dizer a verdade a melhor cozinha que conheci. Almoço ou jantar era um manjar dos deuses. Nem sei o que me deu na telha e fiquei por lá cinco dias. Claro que a história de Laninha precisava ser desvendada.

                 Terra Santa não tinha cinema e as luzes da cidade eram desligadas a onze da noite. O povo é ordeiro se reunia as tardes na praça principal. Estava jantando quando vi alguns hospedes conversando sobre a lenda dos Sinos. Como bom lobinho que fui, abri bem os olhos e os ouvidos. – Muitos frequentavam a cidade para ver os sinos da catedral tocar. A maioria eram turistas em busca de respostas que viram outros contarem. A fama dos sinos ganhou mundo. No dia seguinte tinha lua cheia e na cidade chegavam turistas de todos os lugares.

                   Vocês me conhecem. Adoro uma boa história e uma boa lenda. Dona Eufrásia educadamente me contou toda a história. Desde a morte da Lobinha Laninha no ano passado o sino tocava a meia noite nas noites de lua cheia. – Lobinha? Perguntei. – Sim ela respondeu. Aqui tivemos um Grupo Escoteiro. Melchior um rapaz dos seus vinte e oito anos chegou à cidade e comprou a Farmácia do Beraldo. Trouxe sua filha de quatro anos. Sua esposa tinha morrido. Durante mais de três anos se tornou uma figura conhecida e bem quista por todos.

                 Melchior sempre contava “causos” de quando foi Escoteiro. Melanino o Prefeito o incentivou a organizar um Grupo na cidade. A Prefeitura daria uma verba. Melchior animou-se. Pediu o padre que convidasse pais interessados a colaborarem. Dezenas de pais compareceram. A maioria mães. O primeiro passo foi dado. Quatro meses depois os primeiros escoteiros e os primeiros lobinhos.

                  Foi sucesso desde o primeiro dia o Grupo Escoteiro da Cidade. Votaram para se chamar Grupo Escoteiro Coronel Tibúrcio Belarmino em homenagem ao fundador da cidade. Melchior era o Chefe do Grupo. A diretoria ativa. Mariazinha uma professora assumiu como Akelá; Tinha duas assistentes. – Todos amavam Mariazinha e a Alcateia em pouco tempo já tinha vinte e quatro lobos. Laninha foi uma das primeiras inscritas. Durante dois anos o Grupo Escoteiro fez história. Chegou a ter em suas fileiras quinhentos participantes.

                 Um dia alguém veio correndo dizer que Laninha caíra da torre da Catedral. Contaram que antes de morrer ela queria ver como os sinos tocavam na torre. Ele estava estragado há mais de dois anos não tocava. Ela se segurou na corda perdeu o equilíbrio e caiu de uma altura de trinta e seis metros. No seu funeral a cidade em peso presente. Um Sênior tocou no seu clarim o toque de silêncio. Todos choravam. Mais ainda a Akelá Mariazinha. Ela estava inconformada.  Laninha era uma menina muito amada por todos.

                  O Grupo Escoteiro Coronel Torres Belarmino nunca se recuperou daquela morte. Melchior se tornou taciturno e pouco falava com alguém. Aos poucos um saía e outro e outro. Chefes desistindo. Um ano depois o grupo fechou. Em uma noite de lua cheia para espanto da população o sino começou a bater e a tocar. Era uma musica suave, mas ninguém sabia que musica se tocava. Resolvi ficar ver e ouvir o tal sino. Pedi autorização ao Padre para subir até a torre e ver de perto o sino tocar.

                 Onze horas da noite lá fui eu subindo devagar as escadas até o topo. Cheguei e sentei em um banquinho. Acendi meu legítimo cachimbo Irlandês que gostava e deglutindo aquele “blend” infernal esperei. Onze e cinquenta e cinco e vi um vulto. Primeiro uma nuvem branca desceu do céu e vi na bruma uma menina vestida com seu uniforme de Lobinha. Linda. Sorria. Nem olhou para mim. Não me deu uma palavra. Levantou seus dois bracinhos e como se fosse uma grande Maestra o sino começou a tocar. Prestei atenção na música. Reconheci logo. Era a sonata de Schubert, (Franz Peter Schubert) “Sinfonia Incompleta”. Maravilhoso! Estava embasbacado.

                A menina sorria e cantarolava a musica que tocava maravilhosamente. Tentei falar com ela. Nada. Ela estava como se vivesse o seu momento para aquela musica e eu francamente não entedia o seu amor por ela. Ali, no sertão de Minas quem poderia gostar de Schubert? Cinco minutos depois a musica terminou. Agora era outra. Também conhecida. Nada mais nada menos que a “Canção da Promessa”. Fechei os olhos e vi a força daquela orquestra sinfônica. Ela regia como se tivesse feito aquilo a vida inteira. Meu Deus! Qual o mistério? Nunca soube. Tentei conversar com o Padre. Ele não sabia de nada. Tentei falar com o Chefe Melchior. Ele não acreditou em mim. Na cidade ninguém acreditou no que eu dizia.

             Dona Eufrásia sorriu. – Olhe Chefe ninguém sabe e alguns não querem saber. Não querem acabar com este encantamento. A cidade depende dos turistas que chegam. Chefe Melchior era violinista da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Quando sua esposa morreu vitima de Poliomielite ele desesperado veio parar aqui. De farmácia não entendia patavina. Nunca mais pegou em um violino. Sua filha adorava quando ele tocava. Sabe Chefe eu penso que ela lá no céu procura uma maneira de chamar a atenção do pai.


             Charada impossível de ser desvendada. Enigmas que ninguém quer saber. Preferem o impossível.  Não sou bom nisto. Ali em Terra Santa eu tinha certeza que ninguém entenderia. Dona Eufrásia me olhou com um olhar “treteiro”. Meu amigo há mais mistérios entre o céu e a terra, do que toda a nossa vã filosofia. Puxa! Dona Eufrásia uma velhinha dos seus setenta e tantos anos, cabelos brancos é também versada em William Shakespeare?

Nota -  Uma pequena história que me contaram. Dizem que até hoje muitos vão até Terra Santa para ouvir os sinos da catedral. Bem eu estive lá, confirmei. Sou amante de musicas clássicas e lá me extasiei. Eu conto histórias lendas, tudo que me vem à mente ou que algum amigo ou não me conta para eu poder contar. Convido você a conhecer a história, quem sabe seus lobinhos irão gostar?

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