sábado, 13 de janeiro de 2018

Pequenos contos escoteiros - Noviço.


Noviço.

                             Quando noviço se separou da Patrulha e me procurou eu já imaginava o que ele iria dizer. Olhando para ele, com olhar de quem encontra alguém com quem sonhou me lembrei do poema de “Cone Crew”: - Então vai, fala à vontade que eu nem me estresso, tô nem ligando na humilde eu não nem te impeço, porque tu falas de mim, mesmo se eu não peço... Adora falar dos fracassos e se cala com meu sucesso. Eu sei que quem conta um conto aumenta um ponto, e a tua língua afiada nunca me dá um desconto. Desculpa, vai, mas assim só vai arrumar um confronto, teu papo não é reto de tanta curva eu já tô tonto!

                            Ouvi atentamente o que ele queria dizer. - Noviço, não me tenha como exemplo. Considere-me somente um amigo mais velho que pode confiar. Eu sei que para você eu pareço um herói, mas não sou. Ele gentilmente me perguntou: – Porque Chefe? - Porque eu sou passado e você é presente. Você sim é importante. – O senhor não é chefe? – Meu tempo passou. Nem sei se meu passado pode ser exemplo para você. - Chefe, não foi o senhor que disse naquela jornada noturna, na curva do Peixe que não trocaria todos os seus amanhãs por um único ontem?

                          Pegou-me de jeito este menino, me fez descer ao nível dele. Precisava desta lição. Gaguejando eu disse a ele: - Noviço, viva uma vida boa e honrada. Assim quando você ficar mais Velho e pensar no passado poderá obter prazer uma segunda vez. Ele olhou sério para mim e de roupa de banho como se estivesse uniformizado, ficou em posição de sentido, fez a saudação, deu um belo sorriso e saiu correndo mergulhando no remanso das corredeiras do Iguaçu juntos com seus amigos da tropa.

                         – fiquei pensando. Vez ou outra um jovem escoteiro me encurrala em alguma frase ou pensamento e eu demoro para dar a ele uma explicação satisfatória. Será que ele se lembraria de nossa conversa de hoje?

Nota - O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto. Fernando Pessoa.


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