domingo, 3 de junho de 2018

Histórias em volta da fogueira. Amargo Pesadelo.



Histórias em volta da fogueira.
Amargo Pesadelo.

                Dei a volta por trás do Morro do Cachimbo. Uma volta enorme, mas não queria ser visto. Não deixaria Zé Tadeu partir no trem rápido do meio dia sozinho. Não importa o que pensariam de mim, mas até hoje eu nunca acreditei na Policia que disse ser ele o culpado do roubo na casa do Senhor Pedrão gerente da Caixa Econômica. Dona Norma a vizinha jurou por todos os santos que o viu entrar pela porta da cozinha antes do meio dia.

              – Capitão Cirilo o Delegado comentou com o Chefe João Soldado que as provas eram muitas. Não havia como não enquadrar Zé Tadeu. Disse que ouve outros casos, mas ele não tinha provas. Que casos? Eu nunca ouvi falar de nenhum. A Corte de Honra não acreditava e não queria condenar o Escoteiro mais querido da patrulha Quati.

                 Nunca eu vi tão baixo astral na Tropa Escoteira. Todos tinham Zé Tadeu como um dos melhores escoteiros que passaram pela Tropa e tinham por ele uma enorme admiração, não só pela sua cortesia, sua lealdade, mas também porque ninguém ficava triste quando ele estava por perto. Zé Tadeu foi criado pela sua Avó Dona Anastácia, uma senhora de um coração de ouro. Quando a patrulha ou mesmo outros escoteiros da Tropa iam lá, ela não deixava de oferecer biscoitos de polvilho, brevidade e sempre a fritar deliciosos bolinhos de chuva.

                 Ela vivia de uma pensão do marido falecido e nunca deixou faltar nada para Zé Tadeu. Diziam a boca pequena que ele era o melhor engraxate da cidade. Eu sei que com o fruto de seu trabalho ajudou Tonho Morato a comprar seu uniforme. Doou um cantil usado para o Pascoal Lacerda. Se fosse anotar um caderno não daria para escrever todo bem que ele praticava na tropa.

                 Perdi a conta de quantas vezes ele levou biscoito, banana, laranja e chegou ao ponto de comprar uma maçã fruta cara na época, sonho do Cirilo que não podia comprar. Cirilo desde que nasceu tinha uma perna boa e outra encurtada dificultava seu andar.  E nos acampamentos? Era de uma bondade tremenda. Era um especialista em arrumar a tralha na carretinha e sempre presente para empurrar cantando suas canções escoteiras.

                  Dava gosto vê-lo na ponta do cabeçote de madeira onde o peso era maior. Um amigão no trabalho de montagem de campo, e quando terminava saia para os outros campos de Patrulha para ajudar. Fazia lindas fossas de líquidos e detritos. O Cozinheiro Tomaz tinha por ele enorme estima. Não deixava faltar água, lenha e sempre quando entrava na mata lá vinha ele com um mamão papaia do mato, ovos de codorna, taioba da beira da lagoa e frutas que ninguém conhecia.

                Ele não esperou o julgamento da Corte de Honra. Agradeceu a todos pela confiança após ter sido solto por insistência do Chefe João Soldado. A dúvida grassava em todos os escoteiros. Sua Avó desacreditou dos escoteiros e dos vizinhos. Resolveu voltar para as terras que tinha no Piauí. Uma dor doida em muito de nós com esta partida. Ninguém combinou nada, até mesmo demonstraram que se ele quisesse partir que fosse, mas ninguém iria à estação dar adeus.

                  Cheguei lá ressabiado. Fui de uniforme. Seria minha homenagem a ele para dizer que seriamos amigos para sempre não importa onde ele estivesse. – Me disse ao pé do ouvido: - Vado Escoteiro, só entre nós sem comentar com ninguém. Fique de olho no Messias. – Por quê? Perguntei. – Por nada. Mas ele na Tropa pode aprontar para vocês um dia.

                 Em cada canto da estação chegava um escoteiro. A plataforma ficou cheia. Toda a tropa estava lá. Para surpresa chegou o Chefe João Soldado. – Zé Tadeu chorou como criança. Abraços, apertos de mão, sempre alerta e ele partiu chorando dando adeus através da janela do vagão de segunda classe. Fiquei matutando porque só agora ele me falou do Messias.

                Aos poucos fui ajuntando fio por fio da meada. Era um sumiço aqui outro ali e quando Zé Tadeu foi acusado ninguém acreditou que fosse ele. Não deu outra. Outro roubo aconteceu na casa do seu Modesto, vereador e dono da loja de roupas Torquato. Outro roubo na casa do presidente do Rotary Club. De novo dona norma acusou Zé Tadeu. – Mas como? Não tinha dois meses que ele havia partido?

               Ela levou o delegado ao grupo e apontou o Messias da Patrulha Javali. – Mas a Senhora não disse que era o Zé Tadeu? – Seu delegado, este é o Zé Tadeu! – Messias saiu do grupo, a Tropa se reuniu para escrever uma carta em nome de todos ao Zé Tadeu contando a verdade acontecida. Ninguém nunca mais soube dele. Fazia uma enorme falta. Enfim a vida continua.

               Culpados ou inocentes quem sou eu para julgar? De uma coisa eu tenho certeza, é preciso que a justiça aconteça no momento certo, porque de nada adianta ela se fazer depois que o tempo estancou a dor e fechou a ferida.

Nota - “Não julguem, e vocês não serão julgados; não condenem, e não serão condenados; perdoem, e serão perdoados”. Deem, e será dado a vocês; colocarão nos braços de vocês uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante. “Porque a mesma medida que vocês usarem para os outros, será usada para vocês”. - Somente um conto, uma história. São meus convidados!

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