quarta-feira, 30 de maio de 2018

Lendas Escoteiras. “Flor do Campo”. O sonho não acabou.



Lendas Escoteiras.
“Flor do Campo”. O sonho não acabou.

           Essa é uma história verdadeira. Quem sabe alguma nuances fora do contexto mas nada que prejudicasse o conteúdo.  Faz tempo, muito tempo! Eu era Chefe de um Grupo Escoteiro, um grupo simples, amigo, fraterno onde só existia a felicidade no coração. Chefes que se confraternizavam, trocavam ideias e faziam de suas horas sociais visitas aceitando convites de amigos para bailar na casa de alguém. Éramos próximo de cem membros, eu sabia o nome de todos e até muitos pais que vinham se confraternizar. Muitos daqueles jovens ainda me dizem alô, como vai. Bom demais.

          Todo sábado depois de receber amigos e pais interessados, eu ia para o pátio ver a movimentação das alcateias e tropas. Sem interferir, só para ver o adestramento e se alguém precisava de alguma coisa, um conselho e coisa e tal. Em um deles avistei uma menina magrinha, vestida com simplicidade, sempre com a mesma roupa, um sorriso ingênuo e cativante, mostrava ser uma jovem que prezava sua humildade na apresentação pessoal. Cabelos castanhos compridos, com uma pequena trança pendendo para frente, escondendo um pouco de si própria.

          Olhava com olhos brilhantes a movimentação das escoteiras em uma atitude cautelosa, olhando de soslaio, com receio de ser chamada a atenção. Seus sentidos estavam nas jovens escoteiras que brincavam, riam, cantavam e vi que ela de longe sonhava em ser uma delas como se estivesse em uma patrulha participando. Naquele sábado em uma promessa eu vi que ela tinha os olhos cheios de lágrimas. Queria se transportar para a cerimonia, ser ela, sentir o lenço no pescoço, o grito da Patrulha e a amizade sem par. Para ela aquele momento era prodigioso que transpunha no seu imaginário, a ser mais uma que achava nunca poderia ser.  

                        Vi com surpresa sua expressão quando a chefe perguntou se ela poderia participar de um jogo. Das três patrulhas duas estavam com sete e uma com seis. Completar seria mais lógico para haver igualdade de competição. Acreditem, não tenho palavras para descrever sua alegria. Incrível! Nunca vi ninguém participar de um simples jogo com tanta energia e vibração. Ao final do jogo um agradecimento e vi que ela conseguiu ficar mais próxima, ouvindo, tentando entender o que as patrulhas faziam, com cabos pequenos, bandeirolas, e uma parafernália de trecos misteriosos.  

                     Naquele dia me aproximei e fiz o convite: - Quer ser escoteira? Ela não me respondeu. Seus olhos de novo encheram-se de lágrimas e saiu correndo. Não entendi. No sábado seguinte lá estava ela. Olhou para mim e saiu correndo. Pedi a Chefe da Tropa que fizesse o convite, quem sabe ela se abriria para explicar porque chorava e saia correndo. Ficamos sabendo de seu padrasto, homem mau, não trabalhava e exigia tudo que sua mãe ganhava como faxineira para beber e gastar o único sustento da casa. Contou que quando falava sobre ser escoteira levava uma surra do padrasto. Ela não chorava, nunca chorou. Era ponto de honra para ela.

                    A sua história parecia a historia da Cinderela sem sapatinhos de cristal e com um final triste sem o príncipe encantado. Nada podíamos fazer. É impossível o escotismo ajudar neste processo, pois ele depende muito dos pais. Um dia observei na porta da sede um homem dos seus 50 anos, meio grisalho, semblante arrepiante uma cicatriz no queixo, vestido de maneira desleixada com um olhar nem tanto amistoso. Dirigiu-se ao meu encontro e levantou levemente sua blusa mostrando estar armado. O nervosismo apareceu mesmo tendo alguma experiência no assunto.

              Não gostei da maneira com que me interpelou. Perguntou brutamente onde estava “Flor do Campo” e eu disse não saber quem era. Com o dedo em riste disse que ela queria ser escoteira, mas ele nunca a deixaria entrar. – Vocês são uma turma de riquinhos. Agora ela fugiu de casa moço, e se até amanhã não aparecer o senhor é o culpado, falou cutucando o revolver na cintura. Fiquei sabendo depois que ela jogou uma chaleira de água fervendo em seu rosto quando ele tentou agarrá-la e saiu correndo.  – Ela fugiu de casa, se não aparecer o senhor me deve satisfações!

                      Fiquei calado, não era hora e nem adiantava retrucar. Dois pais da Comissão Executiva presentes ficaram atemorizados e sobressaltados. Eu também estava espantado e assustado. Não era nenhum herói, de karatê e de luta livre não entendia nada. Pelo sim ou pelo não, ele saiu praguejando e fazendo ameaças. Durante dias fiquei pensativo sem saber como agir. No sábado seguinte, ainda preocupado fiquei de olho no portão para ver se o padrasto de “Flor do campo” podia aparecer. Não veio, a mãe dela surgiu com ela pelas mãos. Chorando vez sim vez não, contou sua história: Chefe ele é um bandido perigoso e foi morto na tentativa de um assalto a banco. Olhei para “Flor do Campo” cujo sorriso era contagiante.

                    Ela agora acreditava que seu sonho de ser Escoteira seria real. De um padrasto violento via que seu mundo mudou para melhor. “Flor do Campo” foi uma surpresa agradável. Sua promessa foi inesquecível. Chorou de alegria como se estivesse vivendo um conto de fadas. Ficou conosco por 6 anos. Foi escoteira e guia. Sempre conseguindo todas as insígnias e distintivos possíveis. Orgulhosa na apresentação fazia tudo para ajudar e com suas boas ações incentivava as demais amigas da Patrulha e da tropa.

                    Quando fez dezoito anos voltou para a terra onde tinha nascido. Sua mãe recebeu uma pequena herança de um sítio de sua avó no norte do país. Na rodoviária nos despedimos com a Canção da despedida. Muito choro, mas todos orgulhosos de “Flor do campo”.  Cinco anos depois, uma surpresa - recebemos na sede sua visita e acompanhada de seu marido e dois filhos. Apresentou-nos a todos com orgulho. Estava a passeio e contou que era Akelá de lobinhos em um Grupo Escoteiro na cidade onde morava. Sorria nos encantando a todos.

                Havia ainda muitas jovens que eram de sua época. Uma grande confraternização e lembranças amigas. De vez em quando recebia uma cartinha. Hoje não mais. O tempo apaga o tempo. Nem tudo pode ser como sonhamos. Lembro que me pedia sugestões de programas, enviava fotos e sempre contando como era seu Grupo Escoteiro. Eu um Velho Escoteiro sempre tive um grande orgulho em ser amigo dela. São coisas impossíveis que se tornam possíveis pela obstinação de um movimento incrível. Sempre digo que o escotismo é uma filosofia muito linda, uma maneira de sorrir e viver feliz para sempre!

Nota - Nunca mais ela deu notícias. Espero que ainda esteja com aquele sorriso, com aquela simplicidade, com aquela vontade de ser escoteira e de lembrar da sua promessa e sua Lei que um prometeu cumprir. São fatos que nos fazem acreditar que o Movimento Escoteiro tem tudo para dar uma nova vida um novo destino a quem dele se aproxima. Sempre Alerta!

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